UM TÍTULO QUE REMETE AOS
PROPÓSITOS
ABECÊS, que você,
caro leitor, tem em mãos neste momento, não é mais
um jornal ou informativo com propósitos
corporativistas. O ABECÊS é uma publicação cujo
título já remete aos seus propósitos, ou seja,
divulgar, refletir uma literatura (ABC no sentido de
escrita, alfabeto) produzida no Grande ABC (ABC no
sentido de região geográfica) e a pluralidade
cultural desta região com características
metropolitanas que é a nossa (abecês, no plural).
Mas não só. A polissemia do título também remete
a um propósito ainda maior de ABC: o sentido de
leitura. Sim, um projeto de leitura que aproxime o
escritor do leitor e vá além, envolva, questione,
apaixone pessoas da comunidade pelo hábito de ler e,
ao mesmo tempo, dê a conhecer a literatura no
ABECÊS. Este é/será, portanto, o porta-voz do
projeto A Literatura Mora ao Lado, que visa a
divulgar a literatura local e fomentar a leitura.
A idéia nasceu e
foi-se aprimorando em longos serões, nos quais
Antonio Possidonio Sampaio, Dalila Teles Veras,
Fabiano Calixto, Rosana Chrispim, Tarso M. de Melo e
Valdecirio Teles Veras, que, não por acaso, também
formam o conselho editorial da Alpharrabio Edições,
sonharam, puseram a mão na massa e elaboraram este
projeto, que parte da diretriz de uma editora, que
há oito anos prioriza a literatura local, e
ambiciona também promover um amplo projeto de
leitura na região.
Em tempos de
informação globalizada, o projeto, eventualmente,
poderá parecer utópico, pois, aparentemente, mas
só aparentemente, terá que concorrer com
grandes/modernos meios de comunicação. Na verdade,
o projeto valer-se-á também desses meios como
ferramentas de ampliação das idéias, sem deixar de
acreditar e apostando no valor inestimável do livro,
como suporte imprescindível à literatura.
A utopia da palavra
impressa ainda é o sonho que perseguimos e no qual
acreditamos, como insubstituível elemento formador
do conhecimento humano.
A leitura, leitor,
mora ao seu lado. Vá ao seu encontro e compartilhe
destes nossos propósitos.
OS
EDITORES
|
EU, LEITOR,
CONFESSO:
Para mim, a leitura
transformou-se de obrigação em paixão, vício,
fuga, etc, etc, etc. Obrigação porque agora me
lembro que o pai (usando o tom de Carlos H. Cony)
insistia, durante a infância/adolescência, na
leitura imaginem! até de
enciclopédias (Conhecer, com fascículos
distribuídos em bancas nos anos 70). Como era
maçante mas também no campo, época de
semear é feia, cheira mal, e, de repente, que
transformação! Eis que chega a colheita
florida, cheirosa, rica e prazerosa.
Sim, sou um leitor
amador, com certa lógica (minha), em que uma palavra
puxa outra; um autor, outra autora; um filme, um
livro; ou ao contrário, desde que essa leitura traga
inflamação (calor, rubor, tumor e dor), que
transporte não só para outros sítios, mas
principalmente pra dentro de outras personalidades,
atos (aqueles que não posso ou quero), pesquisa das
sensações humanas. Ah! Que delírio ler um autor
contando aquilo que passou ou gostaria de ter
passado, por um lado tão inusitado que te joga
contra as paredes do auto-conhecimento.
Bem, acima de tudo,
leitura pra mim é pura distração, diversão,
passatempo, hobby, "previdência privada"
(pro futuro, tanto os não lidos quanto os lidos, que
espero repetir em busca de sensações maiores).
Onze pequenos e
grandes prazeres de um leitor amador:
1. Entrar
numa livraria, abrir um livro de poesia, cair naquele
poema que parece que foi escrito naquele momento e
diretamente pra você. Ex.: Paulo Bonfim,
"Epitáfio para o meu silêncio".
2. Ler Henry
Miller, Trópico de Câncer, pensando ser
livro de "sacanagem" e descobrir, no fim,
talvez a melhor definição de pra que servem os
artistas e a arte.
3. Nunca ter
lido Rubem Braga e, na primeira vez, ler a crônica
"Os Pés do Morto".
4. Não
admitir sair de uma livraria sem comprar nada,
comprar um autor desconhecido, capa interessante,
chegar em casa, começar a ler, não parar, ir até o
fim, adorar a simplicidade e a maravilha da estória
(A Máquina, de Adriana Falcão).
5. Ter lido
um romance (que era o único largado num rancho de
pescaria), nunca mais encontrá-lo e após sete anos
receber um telefonema de um sebo pra ir buscá-lo (Sobre
Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato).
6.
Imaginar-se no amor de Florentino Ariza e Fermina
Daza naquele cruzeiro no caribe colombiano (O Amor
nos Tempos do Cólera, Gabriel G. Marquez).
7. Sentir-se
como se fosse o próprio Paul Auster em O Inventor
da Solidão.
8. Saber que
Martha Medeiros é viva, tem a mesma idade que você,
está apenas a mil quilômetros e pode a qualquer
momento lançar outro livro.
9. Abrir a
Folha de S. Paulo de sexta-feira, procurar na
ilustrada a crônica do Carlos H. Cony como primeira
leitura da manhã, tendo certeza de que não será
sobre o FHC.
10. Assistir
a um filme argentino na TV, desconhecido, ser
atraído por citações poéticas, gravar os
créditos, descobrir Mario Benedetti. Na mesma hora
comprar pela internet o que encontrou (Antologia
Poética), receber depois de três dias, abrir,
esganado, esfomeado, cair no poema
"Intimidade".
11. Todos os
próximos que certamente estão por vir...
Ricardo
Wagner Modes é cirurgião dentista em Santo André
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ESCRITORES DA REGIÃO
REGISTRAM O IMAGINÁRIO DO GRANDE ABC
Durante todo o ano
de 1999, oito escritores registraram a região do
Grande ABC na forma de diários.
A idéia surgiu do
escritor Antonio Possidonio Sampaio, autor de vários
livros sobre a região, entre eles, ABC Cotidiano,
um "cotidiário" abrangendo o dia-a-dia do
ano de 1992, em que o autor registrou os principais
acontecimentos culturais, políticos e sociais
ocorridos em Santo André e nas outras cidades da
região. Em 1998, Sampaio lançou o desafio dos
diários numa das reuniões do grupo Escritores em
Movimento, que desde 1997 se reúne a cada primeiro
sábado do mês, na Livraria Alpharrabio, em Santo
André.
Das 20 pessoas que
inicialmente toparam o grande desafio, oito
concluíram a tarefa integralmente, ou seja,
registraram diariamente o seu cotidiano, de 1º de
janeiro a 31 de dezembro de 1999, dentro do contexto
de um cotidiano mais amplo, que é o da região do
Grande ABC, empenhando-se em dar um tratamento
literário a esses textos, tirando-lhes o caráter
intimista. São eles: Ademir Medici, jornalista autor
de vários livros sobre a memória do Grande ABC;
Alexandre Takara, professor e agente cultural;
Antonio Possidonio Sampaio, advogado e ficcionista;
Dalila Teles Veras, poeta e animadora cultural; Luís
Alberto de Abreu, dramaturgo; Irineu Volpato,
advogado e poeta; Marília Magalhães Pedrosa,
professora e Valdecirio Teles Veras, advogado e
contista. O fato desses diários serem escritos por
pessoas atuantes em áreas diferentes, confere ao
projeto um caráter de múltiplas e significantes
visões de mundo.
Apesar de se tratar
de um projeto coletivo, sem precedentes na história
da literatura, cada autor, individualmente, registrou
os fatos que lhe pareceram importantes, ficando a
critério de cada um o tratamento literário mais
adequado.
A Alpharrabio
Edições assume a tarefa da publicação e a
primeira fornada de 3 volumes, ABC no Fim do
Milênio, Na Trilha do Trem e Minudências,
será dada a conhecer no mês de outubro de 2000.
"(...) eu
quis relatar a minha vivência cultural na
cidade, todos sabem que eu sou uma animadora,
militante cultural. Então, o que eu fiz foi
relatar a minha relação com a cultura na
região, registrando essa minha atividade e todas
essas discussões. Optei por uma forma
extremamente sucinta, porque, de alguma maneira,
muitos desses fatos poderão ser pesquisados em
outras fontes. A idéia é dar pistas, registrar
apenas um olhar de poeta sobre o meu cotidiano,
para que, amanhã, quando alguém se preocupar em
saber o que rolou aqui em 1999, saiba que, para
além da cidade, havia pessoas que se reuniam
para discutir suas preocupações e, no nosso
caso, a vida artística".

"Foi uma
experiência notável de disciplina, porque,
apesar de praticar o hábito de fazer diários,
principalmente em viagens, este é o primeiro
deles que é verdadeiramente um
diário, no sentido de ter um
registro de todos os dias do ano, pois os outros
eram registros sazonais. Realmente essa tarefa me
deu uma grande satisfação e uma disciplina que
eu não tinha. Tanto é verdade que continuo a
fazer o registro diário neste ano de 2000.
(...)" Dalila Teles Veras
"(...) no
meu diário eu ficcionei, fui buscar a memória
anterior, a minha, do meu avô, falei até do que
eu nunca fui, sonhei, criei, imaginei, mas sempre
trazendo para a realidade, para o dia de

hoje, uma
comparação. Mesmo eu estando fora do país,
sempre procurei um elo, não me afastei do ABC.
Foi um desafio que eu gostei de ter aceito, me
fez bem, comecei a ver as coisas com outros olhos
e vou me desnudar daquilo que fiz a partir da
publicação, mas em momento algum eu tive a
intenção de publicá-lo." Valdecirio
Teles Veras
"À medida
que eu fui escrevendo é que eu fui percebendo o
ABC e sentindo o ABC. A partir daí eu comecei a
descobrir o ABC que eu não conhecia, através
das pessoas que eu ouvia conversando, das pessoas
que eu via e ouvia nas palestras, nas
vernissages, enfim, de tudo o que acontecia aqui.
Assim, eu comecei a sentir que o ABC tinha vida
própria, uma pulsação própria e, a partir
daí, eu comecei a colocar aquela pulsação que
eu sentia naquilo que escrevia." Marília
Magalhães Pedrosa
"(...)
tomamos como pressuposto que o século terminou
em 1999 e logo registramos o último ano do
século e do milênio. Isto é um registro
diferente porque nós nos preocupamos com aqueles
fatos que os jornais, a mídia, não se
preocupam, com as miudezas afetivas do cotidiano,
um cachorro correndo atrás de uma cadela, as
rezadeiras da rua Laura, as mulheres do parque do
Ipiranguinha conversando e buscando saídas para
uma vida alternativa (...)"
"A cidade
sofrida, as pessoas com aquela constante de não
ter vez e nem voz. As miudezas do cotidiano.
(...) Nosso diário não, nosso diário é o
compromisso de falar de uma cidade que não tem
memória. De uma cidade complexada. De uma cidade
que não se assume. De um país em que os autores
não têm coragem de se assumir e se louvam pelos
ditames da academia. Nós somos, primeiramente,
ousados, nós temos a consciência de que estamos
formatando um projeto que ninguém no mundo fez
até hoje."

"Esse
exercício é importante porque nós escritores
do terceiro mundo, que vivemos no subúrbio,
temos um duplo complexo. Por sermos do terceiro
mundo e por sermos da periferia. Mas somos
ousados, temos saúde, e temos certeza que a
academia não está dizendo tudo que esperamos e
que essa virada do século tem alguma coisa em
comum com a virada do século passado, não há
gênero definitivo, não há escola definitiva,
as coisas envelheceram e ninguém está dizendo o
que deveria ser dito, o que a população está
querendo ler. Estes diários são um exercício
diferente (...)" - Antonio Possidonio
Sampaio
"O projeto
de se registrar em diário o último ano do
século no ABC é importante sob vários
aspectos. Em primeiro lugar pela fixação de
nosso interesse e de nosso olhar sobre o nosso
próprio território que é o solo de nossa
cultura, principalmente numa época de
globalização. Borges dizia que ser argentino
era uma fatalidade, restava-lhe ser universal.
Atualmente, penso, ser universal é uma
fatalidade, resta-nos sermos locais. Depois,
parece-me muito importante esse olhar
distanciado. O ABC sempre foi o local de viver.
Torna-se, com o diário, local de reflexão
contínua, de criação. Transcende o real em
busca do ficcional, o que quer dizer também que
transcende o real na busca da construção do
espírito. A cidade de concreto encontra-se com
sua contra-face espiritual e aí se
completa." - Luís Alberto de Abreu
"(...) no
meu diário, eu me movimentei em duas dimensões,
na dimensão da realidade e na dimensão da
irrealidade do imaginário. (...) além disso eu
falo também das minhas confissões, portanto,
das minhas memórias. Acho que todos nós temos
uma marca em nossa vida, eu tenho diversos
estigmas, ondeios de sentimento de culpa e
castigo, decorrentes, inclusive, de algumas
crises existencialistas que vivi em minha
infância, eu percebo que aquela crise ou aquelas
crises de minha infância se afloram até o
presente momento e eu vou fazer, desse tema de
culpa e castigo, um dos elos fundamentais do meu
diário e assim vou tecendo e falando de diversas
coisas." Alexandre Takara
"(...) de
1992 para cá eu decidi o seguinte, que todo dia
necessariamente eu tenho que me recolher em um
determinado ponto da minha casa e pensar,
escrever ou desenvolver anotações que eu vim
fazendo durante o dia ou durante outros
períodos, e também ler. Então, o diário
entrou neste procedimento e talvez por isso
também ficou, tem no fundo, a cidade, como era
uma necessidade. Não adianta eu querer escapar
da realidade porque eu saio fora da minha porta,
dou uns tropeções na rua (...) Como testemunho,
eu acredito que o meu foi de uma maneira um pouco
diferente (...) quer dizer, a coisa típica
daquele lugar. Naquele dia, na minha rua apareceu
alguma coisa daquilo lá. O que estava
acontecendo além daquilo, eu não escapei, não
fiz uma relação do que poderia estar
acontecendo lá ou o que aconteceu através de
literatura, de história, essas coisas (...) eu
quis ver o mundo daquela maneira porque a mentira
deveria ser contada por mim." Irineu
Volpato
"O
diário, a princípio, não era uma das
literaturas da minha predileção. Sempre li
muito e os primeiros diários que li não me
agradaram. Li Papini, detestei; li Tolstói,
achei ridículo; e não gostei do Dostoiévski.
Então, influenciado pelo Possidonio, li o Josué
Montello e achei deslumbrante. Daí pra cá o
diário se tornou uma das leituras da minha
paixão (...) o diário foi quem me fez escritor
e não meus 4 livrinhos. Estou muito satisfeito,
só que eu não vejo a região, eu percebo que
meus colegas aqui, todos são ligados à região
do ABC, eu não vejo o ABC, e quando vejo o ABC
ainda vejo dentro de minha sala, da minha
biblioteca (...)" Aristides
Theodoro
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