UM TÍTULO QUE REMETE AOS PROPÓSITOS

ABECÊS, que você, caro leitor, tem em mãos neste momento, não é mais um jornal ou informativo com propósitos corporativistas. O ABECÊS é uma publicação cujo título já remete aos seus propósitos, ou seja, divulgar, refletir uma literatura (ABC no sentido de escrita, alfabeto) produzida no Grande ABC (ABC no sentido de região geográfica) e a pluralidade cultural desta região com características metropolitanas que é a nossa (abecês, no plural). Mas não só. A polissemia do título também remete a um propósito ainda maior de ABC: o sentido de leitura. Sim, um projeto de leitura que aproxime o escritor do leitor e vá além, envolva, questione, apaixone pessoas da comunidade pelo hábito de ler e, ao mesmo tempo, dê a conhecer a literatura no ABECÊS. Este é/será, portanto, o porta-voz do projeto A Literatura Mora ao Lado, que visa a divulgar a literatura local e fomentar a leitura.

A idéia nasceu e foi-se aprimorando em longos serões, nos quais Antonio Possidonio Sampaio, Dalila Teles Veras, Fabiano Calixto, Rosana Chrispim, Tarso M. de Melo e Valdecirio Teles Veras, que, não por acaso, também formam o conselho editorial da Alpharrabio Edições, sonharam, puseram a mão na massa e elaboraram este projeto, que parte da diretriz de uma editora, que há oito anos prioriza a literatura local, e ambiciona também promover um amplo projeto de leitura na região.

Em tempos de informação globalizada, o projeto, eventualmente, poderá parecer utópico, pois, aparentemente, mas só aparentemente, terá que concorrer com grandes/modernos meios de comunicação. Na verdade, o projeto valer-se-á também desses meios como ferramentas de ampliação das idéias, sem deixar de acreditar e apostando no valor inestimável do livro, como suporte imprescindível à literatura.

A utopia da palavra impressa ainda é o sonho que perseguimos e no qual acreditamos, como insubstituível elemento formador do conhecimento humano.

A leitura, leitor, mora ao seu lado. Vá ao seu encontro e compartilhe destes nossos propósitos.

OS EDITORES

 
 

 

SUMÁRIO:

Eu, Leitor, Confesso - por Ricardo Wagner Modes

Escritores da Região Registram o Imaginário do Grande ABC

Um Olhar sobre O ABC e seu Imaginário - por Rosana Chrispim

Em Busca dos Companheiros: Livro Notável - por Caio Porfírio Carneiro

Uma Poesia Escrita A Lapso - por Marcelo Sandmann

Fábrica de Poemas - por Virna G. Teixeira

A PALAVRA INÉDITA: A Velha Migrante - por Luís Alberto de Abreu

 

 
 
 


EU, LEITOR, CONFESSO:

Para mim, a leitura transformou-se de obrigação em paixão, vício, fuga, etc, etc, etc. Obrigação porque agora me lembro que o pai (usando o tom de Carlos H. Cony) insistia, durante a infância/adolescência, na leitura – imaginem! – até de enciclopédias (Conhecer, com fascículos distribuídos em bancas nos anos 70). Como era maçante – mas também no campo, época de semear é feia, cheira mal, e, de repente, que transformação! Eis que chega a colheita – florida, cheirosa, rica e prazerosa.

Sim, sou um leitor amador, com certa lógica (minha), em que uma palavra puxa outra; um autor, outra autora; um filme, um livro; ou ao contrário, desde que essa leitura traga inflamação (calor, rubor, tumor e dor), que transporte não só para outros sítios, mas principalmente pra dentro de outras personalidades, atos (aqueles que não posso ou quero), pesquisa das sensações humanas. Ah! Que delírio ler um autor contando aquilo que passou ou gostaria de ter passado, por um lado tão inusitado que te joga contra as paredes do auto-conhecimento.

Bem, acima de tudo, leitura pra mim é pura distração, diversão, passatempo, hobby, "previdência privada" (pro futuro, tanto os não lidos quanto os lidos, que espero repetir em busca de sensações maiores).

Onze pequenos e grandes prazeres de um leitor amador:

1. Entrar numa livraria, abrir um livro de poesia, cair naquele poema que parece que foi escrito naquele momento e diretamente pra você. Ex.: Paulo Bonfim, "Epitáfio para o meu silêncio".

2. Ler Henry Miller, Trópico de Câncer, pensando ser livro de "sacanagem" e descobrir, no fim, talvez a melhor definição de pra que servem os artistas e a arte.

3. Nunca ter lido Rubem Braga e, na primeira vez, ler a crônica "Os Pés do Morto".

4. Não admitir sair de uma livraria sem comprar nada, comprar um autor desconhecido, capa interessante, chegar em casa, começar a ler, não parar, ir até o fim, adorar a simplicidade e a maravilha da estória (A Máquina, de Adriana Falcão).

5. Ter lido um romance (que era o único largado num rancho de pescaria), nunca mais encontrá-lo e após sete anos receber um telefonema de um sebo pra ir buscá-lo (Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato).

6. Imaginar-se no amor de Florentino Ariza e Fermina Daza naquele cruzeiro no caribe colombiano (O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel G. Marquez).

7. Sentir-se como se fosse o próprio Paul Auster em O Inventor da Solidão.

8. Saber que Martha Medeiros é viva, tem a mesma idade que você, está apenas a mil quilômetros e pode a qualquer momento lançar outro livro.

9. Abrir a Folha de S. Paulo de sexta-feira, procurar na ilustrada a crônica do Carlos H. Cony como primeira leitura da manhã, tendo certeza de que não será sobre o FHC.

10. Assistir a um filme argentino na TV, desconhecido, ser atraído por citações poéticas, gravar os créditos, descobrir Mario Benedetti. Na mesma hora comprar pela internet o que encontrou (Antologia Poética), receber depois de três dias, abrir, esganado, esfomeado, cair no poema "Intimidade".

11. Todos os próximos que certamente estão por vir...

 

Ricardo Wagner Modes é cirurgião dentista em Santo André

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ESCRITORES DA REGIÃO
REGISTRAM O IMAGINÁRIO DO GRANDE ABC

Durante todo o ano de 1999, oito escritores registraram a região do Grande ABC na forma de diários.

A idéia surgiu do escritor Antonio Possidonio Sampaio, autor de vários livros sobre a região, entre eles, ABC Cotidiano, um "cotidiário" abrangendo o dia-a-dia do ano de 1992, em que o autor registrou os principais acontecimentos culturais, políticos e sociais ocorridos em Santo André e nas outras cidades da região. Em 1998, Sampaio lançou o desafio dos diários numa das reuniões do grupo Escritores em Movimento, que desde 1997 se reúne a cada primeiro sábado do mês, na Livraria Alpharrabio, em Santo André.

Das 20 pessoas que inicialmente toparam o grande desafio, oito concluíram a tarefa integralmente, ou seja, registraram diariamente o seu cotidiano, de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 1999, dentro do contexto de um cotidiano mais amplo, que é o da região do Grande ABC, empenhando-se em dar um tratamento literário a esses textos, tirando-lhes o caráter intimista. São eles: Ademir Medici, jornalista autor de vários livros sobre a memória do Grande ABC; Alexandre Takara, professor e agente cultural; Antonio Possidonio Sampaio, advogado e ficcionista; Dalila Teles Veras, poeta e animadora cultural; Luís Alberto de Abreu, dramaturgo; Irineu Volpato, advogado e poeta; Marília Magalhães Pedrosa, professora e Valdecirio Teles Veras, advogado e contista. O fato desses diários serem escritos por pessoas atuantes em áreas diferentes, confere ao projeto um caráter de múltiplas e significantes visões de mundo.

Apesar de se tratar de um projeto coletivo, sem precedentes na história da literatura, cada autor, individualmente, registrou os fatos que lhe pareceram importantes, ficando a critério de cada um o tratamento literário mais adequado.

A Alpharrabio Edições assume a tarefa da publicação e a primeira fornada de 3 volumes, ABC no Fim do Milênio, Na Trilha do Trem e Minudências, será dada a conhecer no mês de outubro de 2000.

"(...) eu quis relatar a minha vivência cultural na cidade, todos sabem que eu sou uma animadora, militante cultural. Então, o que eu fiz foi relatar a minha relação com a cultura na região, registrando essa minha atividade e todas essas discussões. Optei por uma forma extremamente sucinta, porque, de alguma maneira, muitos desses fatos poderão ser pesquisados em outras fontes. A idéia é dar pistas, registrar apenas um olhar de poeta sobre o meu cotidiano, para que, amanhã, quando alguém se preocupar em saber o que rolou aqui em 1999, saiba que, para além da cidade, havia pessoas que se reuniam para discutir suas preocupações e, no nosso caso, a vida artística".

"Foi uma experiência notável de disciplina, porque, apesar de praticar o hábito de fazer diários, principalmente em viagens, este é o primeiro deles que é verdadeiramente um ‘diário’, no sentido de ter um registro de todos os dias do ano, pois os outros eram registros sazonais. Realmente essa tarefa me deu uma grande satisfação e uma disciplina que eu não tinha. Tanto é verdade que continuo a fazer o registro diário neste ano de 2000. (...)" – Dalila Teles Veras

"(...) no meu diário eu ficcionei, fui buscar a memória anterior, a minha, do meu avô, falei até do que eu nunca fui, sonhei, criei, imaginei, mas sempre trazendo para a realidade, para o dia de

hoje, uma comparação. Mesmo eu estando fora do país, sempre procurei um elo, não me afastei do ABC. Foi um desafio que eu gostei de ter aceito, me fez bem, comecei a ver as coisas com outros olhos e vou me desnudar daquilo que fiz a partir da publicação, mas em momento algum eu tive a intenção de publicá-lo." – Valdecirio Teles Veras

"À medida que eu fui escrevendo é que eu fui percebendo o ABC e sentindo o ABC. A partir daí eu comecei a descobrir o ABC que eu não conhecia, através das pessoas que eu ouvia conversando, das pessoas que eu via e ouvia nas palestras, nas vernissages, enfim, de tudo o que acontecia aqui. Assim, eu comecei a sentir que o ABC tinha vida própria, uma pulsação própria e, a partir daí, eu comecei a colocar aquela pulsação que eu sentia naquilo que escrevia." – Marília Magalhães Pedrosa

"(...) tomamos como pressuposto que o século terminou em 1999 e logo registramos o último ano do século e do milênio. Isto é um registro diferente porque nós nos preocupamos com aqueles fatos que os jornais, a mídia, não se preocupam, com as miudezas afetivas do cotidiano, um cachorro correndo atrás de uma cadela, as rezadeiras da rua Laura, as mulheres do parque do Ipiranguinha conversando e buscando saídas para uma vida alternativa (...)"

"A cidade sofrida, as pessoas com aquela constante de não ter vez e nem voz. As miudezas do cotidiano. (...) Nosso diário não, nosso diário é o compromisso de falar de uma cidade que não tem memória. De uma cidade complexada. De uma cidade que não se assume. De um país em que os autores não têm coragem de se assumir e se louvam pelos ditames da academia. Nós somos, primeiramente, ousados, nós temos a consciência de que estamos formatando um projeto que ninguém no mundo fez até hoje."

"Esse exercício é importante porque nós escritores do terceiro mundo, que vivemos no subúrbio, temos um duplo complexo. Por sermos do terceiro mundo e por sermos da periferia. Mas somos ousados, temos saúde, e temos certeza que a academia não está dizendo tudo que esperamos e que essa virada do século tem alguma coisa em comum com a virada do século passado, não há gênero definitivo, não há escola definitiva, as coisas envelheceram e ninguém está dizendo o que deveria ser dito, o que a população está querendo ler. Estes diários são um exercício diferente (...)" - Antonio Possidonio Sampaio

"O projeto de se registrar em diário o último ano do século no ABC é importante sob vários aspectos. Em primeiro lugar pela fixação de nosso interesse e de nosso olhar sobre o nosso próprio território que é o solo de nossa cultura, principalmente numa época de globalização. Borges dizia que ser argentino era uma fatalidade, restava-lhe ser universal. Atualmente, penso, ser universal é uma fatalidade, resta-nos sermos locais. Depois, parece-me muito importante esse olhar distanciado. O ABC sempre foi o local de viver. Torna-se, com o diário, local de reflexão contínua, de criação. Transcende o real em busca do ficcional, o que quer dizer também que transcende o real na busca da construção do espírito. A cidade de concreto encontra-se com sua contra-face espiritual e aí se completa." - Luís Alberto de Abreu

"(...) no meu diário, eu me movimentei em duas dimensões, na dimensão da realidade e na dimensão da irrealidade do imaginário. (...) além disso eu falo também das minhas confissões, portanto, das minhas memórias. Acho que todos nós temos uma marca em nossa vida, eu tenho diversos estigmas, ondeios de sentimento de culpa e castigo, decorrentes, inclusive, de algumas crises existencialistas que vivi em minha infância, eu percebo que aquela crise ou aquelas crises de minha infância se afloram até o presente momento e eu vou fazer, desse tema de culpa e castigo, um dos elos fundamentais do meu diário e assim vou tecendo e falando de diversas coisas." – Alexandre Takara

"(...) de 1992 para cá eu decidi o seguinte, que todo dia necessariamente eu tenho que me recolher em um determinado ponto da minha casa e pensar, escrever ou desenvolver anotações que eu vim fazendo durante o dia ou durante outros períodos, e também ler. Então, o diário entrou neste procedimento e talvez por isso também ficou, tem no fundo, a cidade, como era uma necessidade. Não adianta eu querer escapar da realidade porque eu saio fora da minha porta, dou uns tropeções na rua (...) Como testemunho, eu acredito que o meu foi de uma maneira um pouco diferente (...) quer dizer, a coisa típica daquele lugar. Naquele dia, na minha rua apareceu alguma coisa daquilo lá. O que estava acontecendo além daquilo, eu não escapei, não fiz uma relação do que poderia estar acontecendo lá ou o que aconteceu através de literatura, de história, essas coisas (...) eu quis ver o mundo daquela maneira porque a mentira deveria ser contada por mim." – Irineu Volpato

"O diário, a princípio, não era uma das literaturas da minha predileção. Sempre li muito e os primeiros diários que li não me agradaram. Li Papini, detestei; li Tolstói, achei ridículo; e não gostei do Dostoiévski. Então, influenciado pelo Possidonio, li o Josué Montello e achei deslumbrante. Daí pra cá o diário se tornou uma das leituras da minha paixão (...) o diário foi quem me fez escritor e não meus 4 livrinhos. Estou muito satisfeito, só que eu não vejo a região, eu percebo que meus colegas aqui, todos são ligados à região do ABC, eu não vejo o ABC, e quando vejo o ABC ainda vejo dentro de minha sala, da minha biblioteca (...)" – Aristides Theodoro

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Um Olhar sobre o ABC e seu Imaginário

Poucos universos são tão amplos e, ao mesmo tempo, tão localizados e regionais como o encontrado neste As Artes do Ofício- um olhar sobre o ABC, de Dalila Teles Veras. É impossível não recorrer a Fernando Pessoa: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.", para ilustrar/exemplificar a tônica desta oportuníssima coleção de crônicas. Antes de mais nada, elas são o registro histórico de situações, momentos, fatos e (des)acontecimentos relacionados à vida das cidades da região do Grande ABC, que muitas vezes passam despercebidos à grande maioria das pessoas, que ou não se identificam com a cidade em que vivem e ignoram o que se passa à sua volta ou renegam a produção da sua aldeia.

O que é produzido localmente quase sempre é visto com preconceito e desvalorizado por não vir dos grandes centros. O que equivale dizer que o "biscoito fino" que se produz na região nem sempre serve ao "gosto" de quem a ela pertence, seja por necessidade de trabalho ou de moradia.

As Artes do Ofício tem, como mote, não só o que é feito no grande ABC, mas também a intercambialidade com o que vem de fora, com as várias manifestações da cultura, da política e das sociedades. As crônicas reunidas neste livro, como bem o diz Luís Alberto de Abreu, nos fazem "pensar que foram especialmente escritas para transformarem-se em livro." porque a atividade de Dalila se permeia de um olhar atento, interessado e informado que faz com que a sua crítica, mesmo a mais ferrenha, seja construtiva sempre, ao acenar com alternativas que, invariavelmente, buscam e contemplam o coletivo.

Assim é que Dalila se envolveu com a cidade e a região de uma tal forma que, hoje, é impossível desvincular de qualquer discussão séria o seu nome. Poeta, ela não se restringe à literatura, ao fazer individual. Pelo contrário, é o coletivo sua grande motivação, é o abrir horizontes, isto é, formar uma comunidade que ao mesmo tempo que consome produz, se multiplica e aprimora os meios e os fins.

Não é um tratado. É, antes, um esboço (des)pretensioso feito por traços de uma prática constante de observação, reflexão e anotação do imaginário(?) da cidade. O imaginário que se desdobra e se expõe nas suas crônicas, provoca, mesmo, algo como uma catarse, na medida em que se posiciona firme e contundentemente (como só o pode ser quem é poeta) pelo interesse comum e promove uma reflexão maior sobre os bens culturais que são, de uma forma ou outra, escamoteados da grande maioria da população.

Rosana Chrispim - jornalista, poeta,
uma das fundadoras do Grupo Livrespaço de Poesia

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EM BUSCA DOS COMPANHEIROS:
LIVRO NOTÁVEL

A obra de Antonio Possidonio Sampaio é nova sob vários aspectos. É totalmente diferente, no melhor sentido que se possa dar à sua criação literária. Este é um escritor de meios-tons. Sobra-nos a impressão de que ele é um solfejo só, não repetitivo e não monocórdico, do primeiro ao último livro. Possidonio confessa-se em cada obra, em cada capítulo, quase diria em cada página.

Vê-se bem isto quando se chega a essa obra notável: Em Busca dos Companheiros. Nesse livro, o arco de suas criações alcança aquele ponto de maturidade e perfeição que se descobre que ele sentiu o seu ponto de chegada, que qualquer bom escritor almeja, o que não quer dizer que será este o seu último livro. É que aqui temos um bloco compacto, pronto e acabado, de uma linha ficcional personalíssima da nossa literatura.

A história aqui é simples, muito simples, mas nada fácil. Trata-se de um advogado, vivido de muitas lutas, que, nesta altura de sua vida, pensa em reunir, na passagem do século – 2000 – os velhos companheiros, dispersos, sumidos e esquecidos, das antigas lutas sindicais, engolidas pela roldana massacrante do "liberalismo" dos nossos tempos. Fundamentalmente, a história é isto. Com pouquíssimos personagens, o livro vai caminhando, caminhando, numa sutil morosidade que irritaria qualquer leitor não fosse a belíssima leveza de trato com que o autor, em fogo lento, vai soprando os ventos para que o objetivo da reunião se concretize. O curioso – eis um dos pontos criativos de Possidonio – é que quase não há ações e conflitos. Sucedem-se seqüências de pequenas reuniões de Salvador Bahia, personagem central, para traçar caminhos que o levem ao alvo. O mais é sua vida pessoal do dia-a-dia de advogado. Descreve os bares, o número de chopes que toma, os horários, os jornais que lê, as ruas por onde caminha, dando o nome de todas, as tardes dançantes etc. Todos estes detalhes funcionam, tão fantasticamente, que eu mesmo me perguntei, e parei a certa altura do livro: Salvador Bahia foi para casa, depois do escritório, por quais ruas, por que elas não aparecem. De tanto acompanhar o advogado rua a rua, e aprendendo o nome, fiquei delas gostando e queria saber porque o autor não voltou a citá-las. É que por trás dessas ruas, desses bares, padarias, bancas de jornais, está muito mais do que o documento: está a alma da cidade, palpitante e silenciosa no seu burburinho, jungida à alma do próprio autor.

A busca dos companheiros não vinga, mas a perspectiva de outras utopias surge, porque o mundo não pára. Salvador Bahia encontra no filho não a remissão das lutas, mas a continuação delas em outras frentes.

Caio Porfírio Carneiro - escritor, publicou mais de duas dezenas de títulos, destacando-se O Sal da Terra (romance, adaptado para o cinema).

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UMA POESIA ESCRITA
A LAPSO

A lapso é o novo livro de poemas de Tarso M. de Melo – jovem poeta e ensaísta, editor da revista de poesia Monturo – utilizando escrita delicada, concisa, concentrada, por vezes francamente elíptica.

O título do livro, de imediato, provoca o leitor. A lapso é uma combinação inusitada a exigir decifração. Num lance apressado de olhos, tomando-a como concordância nominal jocosamente equivocada (ao invés de "o lapso", "a lapso"), poderíamos ler alguns dos sentidos possíveis da própria palavra: "erro", "deslize", "falta", "falha".

Mas talvez, como num lapsus linguae, a expressão tenha sido desentranhada de outra bastante corrente: "a lápis". Aliás, a ilustração da capa, de Wladimir Fontes, intitula-se justamente "Vestida a lápis crayon" e representa um tronco feminino coberto por um tecido muito tênue, que mais revela do que vela a nudez do corpo. Tecido e corpo são o próprio traçado a lápis.

O lápis é continuidade da mão, e a caligrafia, expressão de uma individualidade. Escrever a lápis é fazer um esboço, algo que pode a qualquer momento ser apagado, refeito, reinventado.

Um dos poemas do livro, "Vestida", recupera a ilustração da capa. E colado ao descritivo, parece claro o intuito metalingüístico. O erro – o lapso – é produtivo e integra o processo. Louva-se aqui o provisório, o que está se fazendo e que, ao fazer-se, deixa evidentes seus instrumentos e sua matéria.

Mas, independentemente destas especulações iniciais, o título A lapso remete diretamente ao verso final do poema "Ainda" (título que ecoa o desfecho do poema acima), o segundo do livro: "amor a lapso". Deslocada para a capa do volume, sem as restrições semânticas que a vinculação a um substantivo específico parece implicar, a expressão sugere que se está diante de uma poesia "escrita a lapso".

São recorrentes nos poemas palavras como "vazio", "branco", "nada", para citar algumas. "Falta" e "privação" são outros sentidos da palavra. A poesia de Tarso é feita de vazios, silêncios, ausências: "livre de memória" ("Novo"); "procurar / nunca encontrar" ("Quarto"); "os dias gravados / no muro / com a cor indecisa / das tintas ausentes" ("Guapé").

Revelador que o poema que abre o livro, "Espaços", recupere a figura do mímico Marcel Marceau. A mímica seria outro paralelo para esta poesia. O gesto mudo do mímico, seu corpo contra a luz, evoca o preto-e-branco (sem cores fortes e vivas), o preto no branco, os caracteres no plano da página. Este "ofício mudo", "lúdico", "anti-músico", surge prenhe de sentidos ("grávido de som"). Ao final do gesto, da mão que escreve, do olho que lê, descobre-se o "pássaro" – o pássaro livre da poesia.

É do esboço preciso e contido sobre o silêncio e o vazio (como o gesto do mímico, como o traço do crayon), das lacunas do tempo e do espaço, que se origina a poesia elíptica de Tarso. Mas o lapso, posto do avesso, visto em negativo, vem revelar-se como a luz espessa de outro poema ("Espessa"). Num mundo povoado de dejetos, poesia é trabalho de garimpagem. Às vezes ela esplende, ao olho atento e paciente – "lâmina, / lâmpada, límpida / luz".

Marcelo Sandmann - poeta e músico, professor de literatura na UFPR

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FÁBRICA DE POEMAS

A metropóle, cinzenta. Habitar e percorrer suas ruas – úmidas. Não apenas habitá-la, mas perceber também suas minunciosas engrenagens, seu mecanismo. Com precisão trabalhada traduzi-la em linguagem.

Este o ambiente de Fábrica, livro de poemas de Fabiano Calixto (Ed. Alpharrabio; 64 págs; 2000) que nos remete não só à Santo André onde o autor escreveu os poemas como a qualquer outra grande cidade do país ou do mundo, afora. Remete à solidão destas grandes cidades, suas calçadas e asfaltos, becos.


Ao trabalho mecânico das máquinas, dos homens ("sobre caixas metálicas/ que exalam ferrugens/ exaustores/ cospem – nas nu-/ vens – sua parcela de fim"). Remete às gravuras de Oswaldo Goeldi, seus habitantes solitários em ruas ermas, chuvosas ("dia de chuva/ fina/ poucos passos na rua/ escassa luz"). Alguém como que perambulando pela rua, espera, em silêncio, memória pairando como uma nuvem, esparsa.

Tudo construído sobre uma pensada estrutura, alicerce – por onde o poeta conduz a voz, delicada, mas com ritmo vertiginoso e surpreendente, já na primeira página, de poema homônimo ao livro:

"uma leve sensação

de chumbo cavalga

as vértebras – o

pássaro pousa

num único lembrar

de galho de árvore "

Nesta estréia em livro, Fabiano, mostra-se operário cuidadoso na intimidade de uma fábrica. De poemas.

Virna G. Teixeira - poeta, autora de Visita.

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A PALAVRA INÉDITA

     

A Velha Migrante

Luís Alberto de Abreu

O ronco do motor era monótono e constante e a paisagem, rasgada pela estrada - uma cicatriz nova de asfalto - era agreste, vazia de casas e de gentes. Estavam, filho e mãe, há mais de cinco horas na estrada e o fim da viagem, eles adivinhavam, estava próximo.

- Tudo bem, mãe?


A velha não respondeu, continuou absorta a olhar a estrada. Tinha feito 97 anos, evidentes no cabelo ralo e branco, no rosto craquelado de rugas, no corpo miúdo. O filho refez a pergunta e só conseguiu como resposta um olhar raivoso como se tivesse interrompido uma importante reflexão. Ele não conseguiu deixar de rir. Era o mesmo olhar que tanto o amedrontara na infância.

Aquele era o mesmo olhar que ele viu nela, há cinqüenta anos, na pequena cidade no oco do mundo onde moravam. Junto com o olhar veio a lembrança da mulher enfurecida que gritava uma saraivada de palavras brutas, quase blasfêmias, quase palavrões, ao marido. E não lhe permitia contrapor, desculpar-se, ponderar. E não lhe deu pausa, fôlego, descanso, antes de ver o gesto e ouvir a voz de concordância dele. No dia seguinte, para quem quisesse ver, lá estava o marido com o coração pesado despedindo-se, noticiando para os pais, amigos e conhecidos que partia para São Paulo. E, para quem quisesse ouvir, lá estava a mulher repetindo que não ficava naquela cidade para ver morrer os filhos à míngua. Veio, migrou, empurrando filhos e marido para o ABC.

- Tudo bem, mãe? - voltou a perguntar o filho duas horas depois, após breve parada de descanso. Estavam sentados num banco em frente a um restaurante de beira de estrada. Ela nem se dignou responder ao impertinente. Continuou impassível, a respiração um leve sopro e ela toda uma figura frágil como cristal fino. O filho se esforçou para não dar importância, mas sentiu, ali, no momento, subir-lhe aos olhos uma comoção forte. Rilhou os dentes para contê-la dentro de si e levantou-se. Considerou que aquela viagem havia sido de fato loucura, andou alguns metros e quando voltou já estava mergulhado em lembranças.

Ele sempre foi o estouvado, o arreliento, o louco da família. Apanhou um bocado, mas isso era o trivial, era o risco de ser criança nas décadas de 40 e 50. A mãe havia sido dura na criação dos dez filhos: olhares fulminantes, chinelo, surras de vara, pitos, xingamentos, castigos e ameaças eram preceitos muito respeitáveis, naqueles tempos, para a construção de um caráter honesto e trabalhador. E eles, os filhos, cresceram guardando algumas mágoas. Esse cresceu imaginando que a mãe não gostasse muito dele, o que talvez fosse verdade.

A viagem estava perto do fim, ele sabia, e não coube mágoa no olhar que ele dirigiu à mãe. Nunca entendeu a mãe. Os sentimentos daquela mulher se descobriam por dedução, escondidos nas obrigações e trabalhos dos dias. E assim, impassível, ela viveu, dona da prole, imperou sobre a casa e quintal. Na morte do marido ela uivou sua dor um longo tempo para espanto de quem nunca havia suspeitado nela um sentimento tão profundo. Terminou de criar os filhos, viu a rua ganhar asfalto, maldisse os prédios que cercaram a velha casa e lançavam sombra sobre suas roseiras; viu os espaços e a largueza da cidade se comprimirem em gente desconhecida e edifícios. Viu nascer netos e bisnetos. Envelheceu. Nos últimos tempos não saía de casa, mal saía do quarto.

A viagem está chegando ao fim, ele sabe. Na semana passada a mãe inventou de viajar para a cidade de origem. Loucura, caduquice, senilidade, disse a família. Saúde débil, viagem longa, ninguém se arriscou. Só ele, o estouvado, o arreliento, o louco da família, não ouviu conselho, não teve bom senso, não mediu, não pesou. Por alguma obscura razão ele percebeu aquilo que para os outros não fazia nenhum sentido: ela queria morrer numa metáfora. Morrer numa estrada concreta, espelho de uma outra estrada. Saltar de uma viagem à outra sem o susto da baldeação. Desmigrar. Ou talvez quisesse morrer na largueza daquela paisagem e não no quartinho sombrio que afinal lhe sobrou na velha casa.

- Tudo bem, mãe?

A mãe não respondeu. O carro agora desliza em velocidade. Dentro, há dez minutos, o filho chora em silêncio, sem desespero, como pedem algumas dores fundas. Olha a velha morta, que talvez não gostasse muito dele, e todos seus sentimentos se confundem na perda. Sente que, com ela, toda uma era, um velho mundo também termina.

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ABECÊS é uma publicação da Alpharrabio Edições e conta com a parceria cultural da Bartira Gráfica.

3º trimestre de 2000 · Editora executiva: Dalila Teles Veras · Editores: Antonio Possidonio Sampaio, Fabiano Calixto, Rosana Chrispim, Tarso M. de Melo, Valdecirio Teles Veras · Equipe de editoração e produção gráfica: Isabela Agrela Teles Veras, Rosana Chrispim e Luzia Maninha Teles Veras · Jornalista Responsável: Rosana Chrispim Mtb 16.651 · Redação: Rua Eduardo Monteiro, 151 – Santo André – Fone 4438-4358 Fax 4992-5225 – e-mail: alpha@canbrasnet.com.br

 


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