EDITORIAL

Com este segundo número, o ABECÊS entra no novo século de fôlego redobrado adquirido nas inúmeras oportunidades de discussão e leitura do número 1, bem como pela excelente receptividade e por perspectivas de levar o projeto A Literatura Mora ao Lado através de caminhos que apontam para inúmeras direções, como pode ser (entre)visto nos inúmeros artigos deste número. É assim que podemos reafirmar que a literatura do ABC não só mora ao lado, como já está literalmente nas ruas, nas escolas e nos escaninhos mais insuspeitados da nossa comunidade.

O novo século também traz novidades nas Administrações Públicas da região, com a renovação de grande parte do secretariado para a área cultural. Haverá também a renovação das políticas públicas para a cultura? Estará o livro e a leitura na pauta das diretrizes dessas políticas? Quanto a nós, continuaremos a cumprir a parte que nos cabe, ou seja, permanecer atentos, fiscalizando e cobrando as Administrações Públicas para que isso ocorra.

Escreva, dê sugestões, contribua para que possamos cada vez mais melhorar o nosso Abecês, que é voltado ao livro e à leitura, e você, leitor, é o alvo e o objetivo principal de nosso trabalho.

D. T. V.

 
 
 



SUMÁRIO:

Eu, Leitor, Confesso - por Myriam M. Pereira

História da Literatura em Santo André - Entrevista a Tarso M. de Melo

A Literatura não só mora ao lado, como já está na rua

Tecelão de Versos, de Irineu Volpato - por Therezinha Malta

Roupa Nova, de Gilberto Tadeu de Lima - por Claudio Feldman

Culturas do Trabalho: Comunicação para a Cidadania, de Luis Roberto Alves - por Dilma Melo e Silva

A PALAVRA INÉDITA: contratura - por Rosana Chrispim

 
 
 


EU, LEITOR, CONFESSO:

Ler é a Maior Viagem

Desde garota coisas malucas me acontecem e vivo contando casos, e os amigos sempre repetindo:

- Você devia escrever sobre isto, você conta casos tão divertidos, não deve deixar a gente esquecer.

E eu dando a mesma desculpa:

- Qualquer dia eu escrevo, não tenho tempo.

Mas, e o medo de experimentar? Até que hoje me telefonaram: "você não diz que quer escrever? Então escreva!"

- Mas escrever o quê?

- Escreva sobre livros, seu hábito da leitura, de onde surgiu, o que você gosta de ler.

Bom, lá vai. Não me lembro como aprendi a ler, só sei que ficava decifrando o jornal junto com meu avô, e ele me ajudando com as palavras mais difíceis. Minhas leituras da época eram uma mistura de Monteiro Lobato, Edgard Rice Borroughs (aquele do Tarzan), o jornal A Gazeta de Muriaé e a Revista do Rádio (esta, eu adorava).

Um pouco mais tarde, já grandinha, com uns oito anos de idade, eu me lembro das férias no Rio de Janeiro, quando mamãe não entendia porque na hora de ir para a praia eu preferia ficar em casa com minha avó. Mal sabia ela que quando saía com meus irmãos, minha avó me entregava o jornal Última Hora e eu ficava lendo as crônicas de Stanislaw Ponte Preta e os livros do Nelson Rodrigues, que eram publicados em capítulos. Muito melhor que praia, sem comparação.

Lá pelos meus quinze anos, amigos mais velhos iam estudar no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte e me escreviam, dando as dicas das novidades literárias, e eu me achava muito sofisticada e intelectual, lendo Jorge Amado, Carlos Heitor Cony, George Orwell, Fernando Pessoa, Drummond, Bandeira e Cecília Meireles.

Jamais parei de ler e acho muito engraçado quando as pessoas dizem que adoram ler, mas que não conseguem um tempo para isso. Eu também nunca tive muito tempo livre, mas o truque é deixar um livro sempre por perto. Aproveito todo meu tempo "ocioso" para ler, no ônibus, metrô, esperando o médico no consultório, e não durmo sem antes dar uma lidinha. Fila de banco, por exemplo, não me estressa, pelo contrário, pois fico lendo e às vezes me distraio tanto, que me assusto quando ouço algum office-boy apressado dizendo bem alto: "tia, olha o caixa!"

Ler é um vício tão forte como qualquer outro, a diferença é que este faz bem. Dou um conselho para os viciados como eu: tenham sempre alguma coisinha para ler à mão, para não correr o risco de sair debaixo de chuva, desesperado, atrás da banca de jornais ou livraria de plantão. Se não tenho nada na hora, faço como fiz ontem, quando li o catálogo de ofertas do supermercado, numa boa. Leio folhetos, lista telefônica, bula de remédio natural, o que vier eu traço.

Atualmente, o que tenho lido depende muito do meu humor, do tempo, do dia, do santo, sei lá... O meu atual livro de cabeceira é Poesia Reunida, de Adélia Prado, aquela que sabe e escreve tudo que eu gostaria de ter sabido, pensado e escrito.

Continuo afirmando que, com certeza, a melhor viagem é a que a gente faz lendo um bom livro, imaginando os lugares, as casas, dando forma às pessoas, fazendo amizade com alguns personagens, rindo, chorando, brigando, sofrendo e sendo feliz com eles. Quando releio um livro, já começo procurando por eles. Alguns acabaram virando meus eternos companheiros.

Myriam M. Pereirafuncionária do Ministério Público

<voltar>

 
 
 

HISTÓRIA DA LITERATURA EM SANTO ANDRÉ

ABECÊS entrevista Tarso M. de Melo, jovem poeta andreense, autor do livro A lapso (Alpharrabio Edições, 1999). Na área da crítica, colabora com o Jornal da Tarde, de São Paulo, e lançou recentemente, pelo Fundo de Cultura do Município de Santo André, o livro História da Literatura em Santo André – um ensaio através do tempo, motivo desta entrevista.

Fale sobre a pesquisa de História da Literatura em Santo André.

Como não havia até então me dedicado a historiar nada, talvez apenas algumas curiosidades resolvidas como histórias mentais bastante distorcidas, tinha por base técnica certos rudimentos aprendidos na leitura de autores que me chamavam a atenção pela maneira como entendiam os fenômenos e as passagens históricas, e mais uma vez me reportava a Paulo Leminski, pela leitura alegórica da História que demonstrou nas biografias que escreveu. Nessa moldura, quando fui convidado para escrever sobre a literatura de Santo André, encontrava-me perante duas barreiras: a de conciliar, no texto, elementos que me chegavam tão esparsos, e a de pacificar, em relação às minhas próprias idéias, as conclusões que tirava de tantos textos lidos pela primeira vez e sob a pressão de um prazo exíguo – cento e cinqüenta dias! Assim, parti para a pesquisa – um tanto na Biblioteca Central (na sala Reflexos, que conserva a biblioteca pessoal de Nair Lacerda, ou no espaço dos escritores da Região, alguns espalhados pelo acervo principal), outro tanto, maior, no ABC’s (na livraria Alpharrabio, certamente o maior acervo da literatura regional), e em alguns poucos outros lugares – com a convicção de que, ao ler cada página daquelas, eu deveria fazê-lo sempre contextualmente, como única maneira plausível de aquietar o material e minhas idéias visando à integração dos capítulos históricos de nossa literatura. De um início em que tudo parecia distanciado demais em relação ao contexto que esperava encontrar, pude vislumbrar eixos comuns e, a partir deles, delimitar o que, para mim, foi o século literário de uma cidade brasileira que se demonstrou, ao final, solitária no universo literário nacional e, claro, também no mundial. Imagem de que, nos últimos anos, vem se dissociando, como insistentemente tentei demonstrar.

Por que uma história da literatura em Santo André?

Quando fui indicado para escrever o que, de início, não tinha forma determinada, mas prendia-se à função de historiar a literatura em Santo André, fosse um dicionário de autores ou qualquer outra coisa, minha primeira atitude foi justamente perguntar-me sobre a conveniência de uma "história da literatura" da cidade. Confirmado meu nome, então eu dispunha de apenas cinco meses, incluindo o tempo para o trabalho de dimensionar e redigir um texto que, previamente, já sabia que seria publicado. Assim, a maneira que encontrei para responder, a mim mesmo, a esta pergunta, estranhamente, foi escrever o texto como resposta a isso. Ou seja: cada palavra que coloquei na História apontava para a justificativa, o porquê de tão precocemente a cidade debruçar-se sobre sua própria vida literária, passada e presente. E hoje, com a missão cumprida, concluo que é tão-somente para balizar um futuro promissor, ao passo que, como afirmo no livro, uma das principais constatações foi a de que surgem, principalmente nas duas últimas décadas, pessoas que deixam de tratar a literatura como hobby e buscam o que se pode chamar de "integração nacional" para a literatura aqui produzida. Note-se, ainda, que utilizei no título um "em" ao invés do "de" que seria esperado ao falar da literatura "de" uma cidade, isso porque desde o início defendi a idéia de que a literatura estudada no livro é escrita, em grande parte, por pessoas que sabidamente não residem na cidade, mas que à sua cultura se somam.

Por que o subtítulo "um ensaio através do tempo"?

Deparava-me com uma história que, em muito, para mim, era nova, pura novidade. Imaginei, por outro lado, uma saída: propor-me o trabalho interessante de resenhar, num só texto, os principais livros produzidos por autores da cidade. Interessou-me pensar assim, pois pude constatar, já de início, que a "literatura andreense" (e mantenho as aspas mesmo após o livro), em sua quase totalidade, era uma literatura sem qualquer recepção crítica – nem mesmo a crítica ligeira que pude fazer. Portanto, respeitando a evolução cronológica e escolhendo alguns textos que julguei exemplares, seria uma maneira de entreter os não-andreenses (pensei muito neles) o fato de constituir um ensaio longo, uma espécie de apresentação dessa literatura, "um ensaio através do tempo".

Qual sua maior dificuldade nesse trabalho?

Um problema que acompanhou toda a confecção da História foi a delicada apreciação conjuntural das manifestações literárias, pois eu tinha certeza de que, numa história que não conta sequer um século de idade, poucas coisas, talvez nenhuma, passaram pela necessária "peneira do tempo", e tive medo de insistir deliberadamente na criação e manutenção de mitos, o que se agravou tanto mais quanto as datas dessa historiografia se aproximavam do período em que tenho vivido em contato direto com os escritores da cidade, os últimos oito ou dez anos. Para fugir dessa dificuldade, e não sei se ao cabo obtive sucesso, arrisquei-me ao exercício de infidelidade que é o tempo todo retirar dos fatos o que soa "histórico".

O que esperar, agora, da literatura em Santo André?

Como em toda a literatura brasileira, aliás, o que se vê por aqui nesse momento é um enorme contingente de manifestações literárias em que poucas atraem-se pelas outras, mantendo suspensa uma sempre esperada "dialética evolutiva" para a literatura. O que podemos esperar – talvez uma espera beckettiana – é que essa História da Literatura em Santo André leve ao conhecimento de quem se interessa por literatura entre nós, um universo interessante e infinitamente maior que o da "pura" criação literária, em que a troca direta ou indireta de experiências pessoais funciona como motor da produção de todos.

<voltar>

 
 
 


A LITERATURA NÃO SÓ MORA AO LADO, COMO JÁ ESTÁ NA RUA

O projeto A LITERATURA MORA AO LADO, que, conforme anunciamos em nosso número anterior, visa a divulgar a literatura local e fomentar a leitura, já é uma realidade.

Atendendo a um convite pessoal da então Diretora de Cultura de Diadema, Marta de Betania Juliano, o projeto foi anunciado oficialmente na biblioteca Olíria de Campos Barros, no dia 19 de outubro de 2000, com o lançamento do nosso ABECÊS. O evento contou com o patrocínio do Departamento de Cultura daquela cidade e seus desdobramentos já podem ser contabilizados:

O PROJETO EM DIADEMA

A idéia de levar o projeto para Diadema foi recebida com muito entusiasmo por Eliana Marques, Gerente de Bibliotecas, que imediatamente envolveu Beth Brait, coordenadora das oficinas literárias que, por sua vez, conseguiu também entusiasmar todos os oficinandos sob sua orientação, que participaram do lançamento do projeto revelando muita energia criadora.

Na ocasião, pronunciaram-se e autografaram seus respectivos livros os escritores Antonio Possidonio Sampaio, Dalila Teles Veras, Fabiano Calixto, Tarso M. de Melo e Irineu Volpato. O grupo Palavreiros, surgido dentro das oficinas, lançou o fanzine de mesmo nome e realizou um recital com os poetas do grupo. O fato de jovens talentos como os de Diadema aderirem de imediato ao projeto é a promessa de que A Literatura Mora ao Lado ultrapasse o mero evento e passe a atuar como uma campanha permanente de leitura inserida no cotidiano cultural de Diadema. Para tanto, Eliana vem empenhando seus esforços no sentido de envolver professores de língua e literatura nessa campanha, além, naturalmente, da própria rede de bibliotecas, que já possui e divulga obras de autores locais.

SESC PROMOVE A LITERATURA DO ABC

A literatura produzida no Grande ABC foi a grande estrela da abertura do projeto PALAVRAPONTOCOMPONTOSEM, no SESC São Caetano, dia 6 de novembro de 2000. Além de um sarau que contou com a presença de um poeta representante de cada uma das cidades do Grande ABC (Dalila Teles Veras – Santo André, Irineu Volpato – São Bernardo do Campo, Margarete Schiavinatto e Milton Andrade – São Caetano do Sul, Guilherme Vidotto – Mauá e Paulo Franco – Rio Grande da Serra) e da participação do cantor e compositor Luciano Garcez, uma exposição permaneceu durante todo o mês de novembro, ocupando todas as paredes disponíveis da sede do SESC, "A Cidade Vista por seus Poetas e Cronistas", com textos de 20 autores, selecionados por Dalila Teles Veras. Foram eles: Ademário Augusto de Souza, Alexandre Takara, Antonio Possidonio Sampaio, Aristides Theodoro, Cláudio Feldman, Dalila Teles Veras, Fabiano Calixto, Gilberto Tadeu de Lima, Guilherme Vidotto, Irineu Volpato, Jurema Barreto de Souza, Kleber Mantovani, Luís Alberto de Abreu, Margarete Schiavinatto, Paulo Franco, Semiramis Correia, Tarso M. de Melo, Valdecirio Teles Veras, Wagner Calmon, Wilma Lima e Zhô Bertholini.

O projeto PALAVRAPONTOCOMPONTOSEM, parceria entre o SESC Carmo, o SESC São Caetano e a Secretaria de Educação e Cultura de São Bernardo do Campo, teve como propósito divulgar a palavra sob as mais diversas formas de criação, "galáxia verbivocovisual que vai do repente ao rap, da mpb ao rpg, da palavra-som-e-sentido ao ruído, através de exposições, cursos e oficinas, saraus, intervenções, shows, musicais e eventos diversos em que se pode flagrar a presença transformadora da palavra em diferentes suportes, registros e modalidades artísticas", conforme seus próprios organizadores.

A literatura local, expressa nos mais diversos estilos e gêneros, foi inserida nesse contexto graças à sensibilidade dos organizadores do projeto que lhe conferiram destaque e prestígio, através do tratamento dignificante dado aos textos e respectivos autores. De quebra, o SESC ainda forneceu um novo mimo aos visitantes do evento: um marca-página em 7 versões, cada uma com um poema de 7 poetas representando as 7 cidades do ABC.

JORNADA PEDAGÓGICA ACOLHE A LITERATURA MORA AO LADO

O projeto A LITERATURA MORA AO LADO foi acolhido também na Jornada Pedagógica, promovida nos dias 16 e 17 de novembro de 2000 no Colégio Barão de Mauá, da Fundação Abraham Kasinsky, em Mauá, dirigida a profissionais de educação. Convidada pela organização, a escritora Dalila Teles Veras coordenou uma oficina que levou por título "A Literatura Mora ao Lado", na qual foram divulgados os propósitos do projeto do mesmo nome, ou seja, dar a conhecer a literatura produzida na região do Grande ABC.

ARTE O ANO TODO

A tão propalada globalização – de que tanto se fala e pouco do que isso significa se entende – parece irreversível. Em nome dela, nossas vidas direta ou indiretamente tiveram maiores ou menores transformações. Mas é curioso notar uma suposta relação com aquela lei da física, segundo a qual "a toda ação corresponde uma reação igual e contrária".

Guardadas todas as devidas proporções, o que quero dizer é que paralelamente ao tal "processo de globalização" que parece querer colocar a tudo e a todos num mesmo caldeirão, curiosamente (o)corre um movimento de regionalização que busca criar/manter/resgatar uma (ou mais) identidade(s). Os meios de produção, os modelos econômicos podem estar optando por um sentido global, mas as sociedades, as comunidades cada vez mais gravitam em torno daquilo que ao mesmo tempo que os distingue, os identifica e aglutina: seus bens culturais. Há, mesmo quando isso não se percebe tão claramente, uma tentativa de não perder as referências!

Se as empresas – particularmente as multinacionais – por um lado, promovem e incrementam esse fato histórico, buscando derrubar fronteiras do conhecimento tecnológico e de mercados, por outro logram estabelecer nas regiões em que se instalaram relações de aproximação com as manifestações sócio-culturais e os aspectos peculiares que as caracterizam.

Comprovando que algumas empresas têm uma visão que ultrapassa os limites estritamente empresariais (leia-se comerciais) e manifestam um interesse genuíno de reconhecer e incentivar a produção cultural da região a que pertencem e, mais, percebem o papel fundamental também da iniciativa privada como fomentadora dessa produção, o Banco Volkswagem optou por convidar seis poetas e seis artistas plásticos da região do Grande ABC para ilustrar as agendas para o ano 2001 oferecidas como brinde de norte a sul do País.

Os convidados – os poetas Jurema Barreto de Souza, Zhô Bertholini, Dalila Teles Veras, Fabiano Calixto, Rosana Chrispim e Tarso Menezes de Melo, e os artistas plásticos Paula Caetano, Alexis Iglesias, Edson Lourenço, Paula Pedroso, Sérgio Guerini e Valdo Rechelo – contribuíram, cada um, com dois trabalhos. Assim, uma obra de um artista plástico e uma de um poeta abrem cada um dos meses.

O interessante é que, ao privilegiar o trabalho de artistas da região, na qual a empresa tem sede, ao mesmo tempo que reconhece o que aqui se produz, colabora na "globalização" dos autores, de seus trabalhos e começa a desmantelar o bairrismo às avessas que insinuava ser "menor" a produção local. Agora, essa parceria – que é, apenas, um (bom) começo – de certa forma, principia a vencer resistências, agindo ademais como veiculadora de trabalhos desses artistas.

COLEÇÃO IMAGINÁRIO

Os primeiros 3 volumes da Coleção Imaginário (Minudências, de Dalila Teles Veras, ABC no Fim do Milênio, de Antonio Possidonio Sampaio, e Na Trilha do Trem, de Valdecirio Teles Veras) tiveram seu lançamento marcado com uma concorrida noite de autógrafos na Alpharrabio Livraria Espaço-Cultura, em Santo André, no dia 26 de outubro de 2000, que foi das 18 às 23,30h.

Na seqüência do lançamento, os autores dos diários de 1999 também promoveram um encontro, no dia 03.12.2000, um domingo de manhã, na Super Banca, quando os convidados foram recebidos com um fumegante café expresso, oferecido por João Martinelli, o proprietário, que abriu, assim, um generoso espaço para a divulgação da literatura da região em sua freqüentada casa.

Neste início de 2001 os autores já reservaram bom espaço em suas agendas para encontros com o público e debates a respeito de suas respectivas obras, bem como do projeto de "diarização" do ano de 1999.

<voltar>

 
 
 


TECELÃO DE VERSOS

De uma releitura da carta de Pero Vaz Caminha, o poeta Irineu Volpato tirou seu História Mal Dormida Duma Viagem, trabalhado de forma inovadora por alunos da rede estadual de ensino, em celebração dos 500 anos de Brasil. Eloqüência, única palavra para dizer como o poeta reescreve em poema o documento histórico que registra o nascimento da Terra de Santa Cruz.

Nesse trabalho os versos ganham solenidade de épico ("Águas pertencem aos que navegam / Que importam léguas que mares nos obram?"). Enquanto resvalaria pela trivialidade o observador comum, prosaicamente, a emoção de poeta encanta-se com o vôo de um pássaro riscando o céu ou com o correr dum rio, que se derrama no mar ("Um rio que vinha da terra / na praia mar o bebia").

A linguagem quinhentista, que perpassa o texto, confere-lhe um caráter clássico ("Vimos ondas irem-se às praias; de brincarem brincadeiras").

O encontro de duas civilizações tão diversas é narrado com tal força e colorido, que logra o poeta transportar-nos ao momento histórico do qual quatro séculos nos separam.

Aspectos interessantes, sui-generis mesmo, conferem à obra de Irineu Volpato a marca registrada do escritor: inovações sintáticas como "Inquietos nos imos além nosso quem"; recriação de palavras e expressões como "o dia faceirou com água de luz" ou "quando estaria além-lá".

Há de se notar ainda, colorindo os textos, figurações ora fortes ora sutis como "nossos pés calçavam o mundo; impacientes de espaços indomados", "nosso azul tinha fogo de longes".

A combinação harmoniosa de palavras da linguagem culta e outras da fala sedimentada do nosso caipira, respondem pela singeleza dos textos desse escritor paulista, nesse poema.

A incontestável capacidade de síntese, rica de conteúdo, traduzida nos poemas "flashes", em vários de seus livros, e tantas outras qualidades, que para serem apenas citadas exigiriam o alongamento desse estudo, recomendam a obra de Irineu Volpato a leitores especiais, afeitos a desafios.

Em suma, por seu caráter inovador e sempre renovado, nosso escritor oferece ao amante da boa literatura a oportunidade de uma leitura instigante que exercita e apura o pensamento e se apresenta como um convite aos que, sem perder a visão realista da terra, se propõem a vôos mais desafiadores.

Therezinha Malta - professora de língua e literaturas portuguesa e brasileira,
de educação especial na rede oficial de ensino e autora de livros infanto-juvenis

<voltar>

 
 
 


ROUPA NOVA

Gilberto Tadeu de Lima, estilista desta roupa nova (Roupa Nova, contos, Alpharrabio Edições, 1999), é narrador urbano que procura comunicar, como um pintor hiper-realista, o ambiente cotidiano e seus habitantes.

Os seres de Gilberto se localizam em diversos estratos sociais, bem configurados por características próprias, o que dá a seu livro a dimensão de um movimentado painel brasileiro e, mais particularmente, grande abeceano: do humilde e sofrido seu Vicente (do conto "Estrela de Lisboa") a Gustavo, o bem sucedido publicitário (de "Atração Total"), há um desfile de personagens que parecem plagiadas da própria vida, tal autenticidade apresentam, com seus problemas, aspirações e atos.

O livro alcança uma forte unidade de linguagem, acentuada pelo uso do coloquial (Gilberto tem um ouvido sensibilíssimo para o diálogo) e pelo verossímil, mesmo em algumas situações extremadas.

O conto que dá nome à obra, que poderia ter um final previsível (o anti-herói usando o ansiado terno em seu caixão), cria uma reviravolta ainda mais pungente.

"Atração Total", por sua vez, lembra o Nelson Rodrigues de A Vida Como Ela É, mas "Despedida", embora tangencie o humor negro do universo rodrigueano, tem o acento expressivo de Gilberto, que consegue desenrolar, com precisão, situações hilariantes, como em "Duplicatas a Pagar".

Roupa Nova, em seu conjunto, nos revela um autor de fluente comunicação (espero que o leitor o descubra!), que consegue resolver um enredo ou definir uma trama narrativa com grande desenvoltura. O que não é pouco num estreante.

Cláudio Feldman - professor, escritor e artista plástico

* O autor de Roupa Nova conquistou o primeiro lugar no 1 Concurso Literário de Mauá, realizado em dezembro último, com o conto Lucros e Perdas, além de ter classificado dois outros contos (Os Perigos do Litoral e Efeito Colateral) em quarto e oitavo lugar

<voltar>.

 
 
               
               
           


CULTURAS DO TRABALHO – COMUNICAÇÃO PARA A CIDADANIA
(*)

Na peça Galileu Galilei de B. Brecht há uma fala que gostaria de recuperar: "pensar e agir; e sobre o agir de novo pensar, e agir novamente, e assim continuar". Penso que a citação poderia ser o mote de nossos comentários sobre a obra Culturas do Trabalho: comunicação para a cidadania, de Luiz Roberto Alves (Alpharrabio Edições, 1999). Temos um autor, um sujeito político coletivo, capaz de pensar e formular respostas para os desafios de nossa região, região por ele já entendida como: "o quase impossível possibilitado", propiciando o surgimento de uma vivência humana extraordinária, devido à precariedade do espaço e às dificuldades nesta região de passagens, de travessias.

  Esse livro não é apenas o relato de uma trajetória pelas rotas, falas, discursos, ou a história de uma cidade, nele encontramos elementos avaliativos sobre as políticas culturais, seus paradigmas, agentes e formas de organização no processo de constituição de nossas cidades, mais especificamente de São Bernardo do Campo no período de 1989-1992.

As referências tratam do "Estado Populista" que estabelece a relação política-cultura numa ação das elites que "distribuem" os bens culturais e reivindicam o controle do Estado sobre a produção cultural da população, buscando com isso a "preservação" de um nacional-popular, necessário para a formulação do projeto de "nação", de "identidade nacional".

Há também referências à "Democratização Cultural" através da análise do documento de Jorge Andrade, suas "Linhas Fundamentais", propondo difusão e popularização da "alta cultura", propiciando um acesso a uma maioria de indivíduos para um aproveitamento dos bens culturais, quando o papel do Estado seria o de criar instituições e espaços culturais para atuarem como agentes nessa outra forma de organização do referido binômio política-cultura.

No capítulo IV, encontramos uma avaliação da experiência sambernardense no período de 1989-1992 durante a gestão do PT, buscando um desenvolvimento plural das culturas de todos os grupos em relação com suas próprias necessidades, através de uma organização autogestiva das atividades culturais e políticas. Baseado noutro paradigma, o da democracia participativa, que atribui um outro sentido à ação cultural, a cultura não como adorno, ou como ante-sala do discurso político, mas cultura como força distintiva buscada a partir de nove diretrizes contendo as intenções da Secretaria de Educação, Cultura e Esporte, confirmando uma perigosa fusão entre militância e gerência pública, uma vez que a administração passava a atuar no espaço da mobilização comunitária.

A partir das nove diretrizes foram formuladas ações, das quais o autor destaca apenas cinco:

a. A nucleação político-administrativa

b. Os projetos especiais: educação ambiental, 3ª idade, rap

c. O programa integrado para crianças de 3 meses a 6 anos

d. O programa de alfabetização-cidadania

e. O trabalho sobre a memória da cidade

Conhecendo, como munícipe, o trabalho do Departamento de Cultura nesse período, poderia elencar muitas outras ações surgidas e implementadas a partir de um projeto-piloto realizado pela Secretaria, que ampliaram o sentido da cultura, dando a ela a dimensão libertária, contestadora, capaz de realizar o desvelamento de nossa condição de ser-no-mundo, como nos ensina Gramsci, sendo assim chave para entendermos a hegemonia de um grupo sobre o outro, de uma classe social sobre outra. Segundo a abordagem desse teórico italiano, o poder cultural torna possível:

a. A imposição de normas ideológicas que adaptam os segmentos sociais a uma estrutura político-econômica arbitrária;

b. A legitimação de uma estrutura dominante, fazendo com que ela seja encarada como forma natural de organização social, encobrindo a arbitrariedade;

c. O ocultamento da submissão do indivíduo a uma situação social determinada, fazendo com que essa adaptação seja sentida como socialização e não uma integração a uma sociedade predeterminada.

É através dela que podemos sair do universo restrito da experiência individual, para a criação de um universo coletivo, de um vir-a-ser que nos permita ver claro em nós mesmos enriquecidos e enriquecendo aos demais, numa prática reveladora e revolucionária.


Dilma Melo e Silva -
Socióloga. Professora da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.

(*) Texto extraído da fala da professora Dilma durante o debate sobre o livro Culturas do Trabalho: comunicação para a cidadania, promovido pela Alpharrabio Livraria Espaço-Cultura, em maio de 1999, do qual também participaram como debatedores Alexandre Polesi, Vicente Paulo da Silva, Alexandre Takara e Claudinei Rufini, além do próprio autor.

<voltar>

 
 


A PALAVRA INÉDITA

                   
contratura

às vezes

me desajeito

a palavra é

minha arma e

com ela me firo

momento em que

gesto / voz / verbo

não são meus

me desapropriam

Com quanta poesia se alinhava um verso

alma armadilha

algaravia

o poema me desacata

penetra / fala

fundo / alto

vem quando quer

imperativo estio

Com quanta poesia se cala um verso

Rosana Chrispim, participou do Grupo Livrespaço de Poesia (1983 a 1993),
é autora de
Semelhanças. O poema "contratura" faz parte do livro inédito Entretempo

<voltar>

 
 


ABECÊS é uma publicação da Alpharrabio Edições e conta com a parceria cultural da Bartira Gráfica

1º trimestre de 2001 · Editora executiva: Dalila Teles Veras · Editores: Antonio Possidonio Sampaio, Fabiano Calixto, Rosana Chrispim, Tarso M. de Melo, Valdecirio Teles Veras · Colaboradoras: Therezinha Malta e Marília Guimarães Pedrosa · Equipe de editoração e produção gráfica: Isabela Agrela Teles Veras, Rosana Chrispim e Luzia Maninha Teles Veras · Jornalista Responsável: Rosana Chrispim Mtb 16.651 · Redação: Rua Eduardo Monteiro, 151 – Santo André – Fone: 4438-4358 Fax: 4992-5225 – e-mail: alpha@canbrasnet.com.br

 


Abecês 1


Abecês 3


Abecês 4