A LITERATURA MORA AO LADO

A vida escrita e lida

A pleno vapor segue o projeto A LITERATURA MORA AO LADO – empreendimento encabeçado pela Alpharrabio Livraria Espaço-Cultura e seus cúmplices com o intuito de acelerar a vida literária do ABC.

A literatura no olho do furacão: incentivá-la nos parceiros possíveis. Intrometer a literatura no cotidiano das pessoas – todas as pessoas, de estudantes a professores, de leitores a escritores, e quem mais a palavra consiga seduzir, disseminando o sadio vício da leitura a partir do que é produzido na região. O livro invadindo os espaços – todos os espaços: salas de aula, bibliotecas, centros culturais, auditórios. E trazendo consigo o escritor, que mostra sua cara simples, muito mais simples do que a maioria costuma imaginar...

A mão na massa da literatura: dar aos encontros a forma necessária para envolver os leitores no processo criativo – o professor aprendendo, os alunos mostrando o que sabem, as pessoas registrando suas impressões. Palestras, debates, oficinas, mostras, leituras, mesas-redondas, unindo as pessoas para colocar o hábito de ler na prática da vida. A vida escrita e lida.

Os dois lados do texto literário – a criação e a fruição – ao alcance de todos, a democracia do prazer do texto, no texto, pelo texto. A poesia, o conto, o romance, a crônica, o diário, a crítica: a literatura exercida por quem quiser. Quem? Todo o mundo. Onde? Em todos os lugares.

Sim, A LITERATURA MORA AO LADO. E tem pressa!

 

MAIORES DETALHES E ADESÕES AO PROJETO:
Alpharrabio Livraria Espaço-Cultura
Rua Eduardo Monteiro, 151 - Santo André
Fone 4438-4358, Fax 4992-5225
alpharrabio@osite.com.br
com Dalila

 
 


SUMÁRIO:

Eu, Leitor, Confesso - por Ilona Hertel

Os Autores e a Literatura do ABC na Internet

A Prática Poética nas Escolas - por Wagner Calmon

A Literatura aos Olhos do Leitor: Carta Aberta a Antonio Possidonio Sampaio - por Valdir Barreros

Sombras em Relevo, de Kleber Mantovani - por Guilherme Vidotto

Sobrevir, de Margarete Shiavinatto - por Rubens Marchioni

Seis Retinas na Rotina da Aldeia - por Fabiano Calixto

2001 - Ano da Literatura Brasileira e do ABC

 
 


EU, LEITOR, CONFESSO:

Eu, leitora, confesso... sem disfarçar um certo (grande) constrangimento, que há livros em minha vida a me desafiar São livros com os quais já tentei uma relação de completude e não "rolou". Eles ainda estão lá, na estante, mas definitivamente não nos aproximamos. São extremamente sedutores, atraentes. Para que se entenda: é aquele tipo de situação na qual você se sente extremamente atraído, mas algo não permite que você o experiencie plenamente e aí se configura como aquelas relações mal resolvidas na vida. Você gosta, você odeia, você sente saudade, você vai atrás e, em seguida, foge. É assim.

O primeiro caso é mais antigo, é uma relação de mais ou menos dez anos. Chama-se A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Já abordei este livro de todos os jeitos que sei fazer Não consigo concluir, tem uma certa hora que a história me esgota, eu quero continuar, sinto-me envolvida com o enredo, compreendo a importância histórica do livro e... enfim, está tudo certo, tínhamos tudo para nos darmos bem, mas a gente se distancia. A angústia é que não acontece o adeus, algo assim: tá legal, daqui para frente é cada um para o seu lado. Não. Fica lá, na memória intelectual e afetiva a perturbar. A meu favor, os amigos indulgentes poderiam dizer: veja, é uma obra de fôlego, extensa, complexa etc. Ocorre que por força das circunstâncias e opções de minha vida (profissionais, políticas, etc.) desenvolvi uma disciplina razoável para enfrentar livros, artigos, textos, às vezes, muito áridos, desagradáveis, mas que cumpriam uma função em dado momento. Nunca foi problema.

O segundo caso mal resolvido. Este eu sei porque não nos resolvemos bem. Ele me angustia, remete para um universo da existência humana (do ponto de vista de quem o escreveu, obviamente, mas que encontra ressonância em mim) vista com um rigor de descrédito, de rudeza, de amesquinhamento daquilo que parece ao autor ser a dimensão do humano que me desassossega. E ele mesmo: Livro do Desassossego, Bernardo Soares (ou se preferem, Fernando Pessoa). Olha, quem já deu conta de enfrentar este livro, sem sofrer, que me ajude. O pedido de socorro aqui expresso, de forma pueril, própria dos muito jovens (o que já não é o meu caso), que acreditam ser possível passar por relações humanas, experiências de vida, sem topar com o sofrimento, a angústia, a frustração, revela o conflito que me gerou esta obra.

Contar minha relação com estes dois livros, da forma que fiz, dando a eles uma dimensão humana, com alma, com vida, expressa bem o papel que a leitura, portanto, o livro como seu veículo por excelência (não quero, nunca, vir a ler coisas na tela de um computador) teve e continua tendo.

Ainda me lembro de quando não era alfabetizada e invejava minha irmã mais velha, que já lia os gibis e, cruel como só irmãos mais velhos sabem ser, usava da sua capacidade (mágica) de ler as histórias para mim quando lhe aprouvesse. Eu tinha que ser muito legal com ela, não dava para atormentá-la (como só irmãos mais jovens sabem tão bem) quando chegavam as revistas novas. Caso contrário, era olhar para as

figuras e acrescentar muito de minha criatividade para dar cabo de entender as histórias (exercício que sempre foi muito legal, que não deixou amarguras, ao contrário, estimulou o gosto por uma certa criatividade). Da minha irmã, também, eu furtava seus cadernos escolares já deixados ao esquecimento e passava horas escrevendo, ou melhor, passando o lápis sobre as letras e números ali registrados, naquela letra infantil que até hoje me lembro, buscando adivinhar o que elas queriam dizer

Lembro-me do primeiro livro que li: chamava-se Lisa, não sei quem escreveu. Eu tinha oito anos e aproveitava as "bobeadas" da minha mãe e lia o livro escondida. Era uma daquelas histórias bem dramáticas, de amores impossíveis, muitas mortes, desencontros e, como as novelas de televisão de hoje, acabava em casamento. Minha mãe gostava de ler (sua mãe, também, assim como sua avó) e como não tinha muito dinheiro naqueles tempos, era usuária das bibliotecas públicas. Toda semana, um livro. Lisa era um livro da biblioteca Pública de Porto Alegre (será que ainda está lá?), meu primeiro livro, de adulto, não importava que eu ainda não pudesse entendê-lo. Li escondida, mas minha mãe descobriu (acho que desmarquei a página na qual havia parado).

Com muita saudade, eu me lembro de sua reação: comprou meu primeiro livro só meu. Eu ainda o tenho. Capa dura. Chama-se Zuzuquinha, a história de um elefantinho cor de rosa, que podia fazer tudo, quando sonhava, até voar, o mais improvável para um elefante fazer Mas ele voava. E com o Zuzuquinha eu aprendi que sonhar, mesmo o improvável, é o primeiro passo para viver coisas importantes. Depois do Zuzuquinha, toda semana ganhávamos coisas legais para ler e até hoje imagino o esforço que deve ter sido para a minha mãe nos proporcionar isto (lembram? eram tempos de pouca grana!). Eram os gibis, livros e tinha uma revista deliciosa, que se chamava Recreio, que tinha de tudo: brincadeiras, textos, coisas para colorir, colar. Enquanto foi publicada, a Recreio nunca nos faltou.

Eu podia ter dado uma outra direção a este depoimento de minha história como leitora. Podia lembrar de todos os esforços que fiz, e ainda faço, na busca do aprimoramento intelectual. Podia ser bem racional e elucidativa, didática, estas coisas assim. Mas não consegui.

A leitura em minha vida foi, e continua sendo, fonte pura de prazer, deleite, emoção, frustração (os dois lá de cima não me abandonam). A experiência de ler remete para vivências próprias à fruição da obra, mas vincula-se também a toda a existência. Relaciona-se com momentos e pessoas da minha vida. Escrever sobre a experiência como leitora me fez lembrar (e reviver) emoções há muito esquecidas. Me trouxe a consciência da exata importância que teve minha mãe em minha formação cultural e intelectual, a quem, com muito carinho, dedico este pequeno texto. Pena nunca ter dito isto a ela.

Ilona Hertel - educadora social.

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OS AUTORES E A LITERATURA
DO ABC NA INTERNET

Os escritores do ABC podem ser lidos além das páginas dos livros, das revistas literárias, dos jornais. Muita da literatura produzida na região há um bom tempo já circula virtualmente pelos caminhos da Internet. Eis algumas dicas para o leitor navegador:

www.loquens.cjb.net - Loquens tem como editores Carla Corrochano e Marcos Sidnei Euzebio, este último residente em Santo André. Dedica-se prioritariamente a divulgar assuntos de e sobre a região do Grande ABC. Em suas páginas podem ser encontrados ensaios e artigos de Luiz Roberto Alves, Tarso de Melo, Dalila Teles Veras, José Armando Pereira da Silva, Valdenizio Petrolli, além de uma longa entrevista com Ademir Medici.

www.kplus.com.br - Kplus - A Comunidade de Cultura na Internet. Revista dedicada à discussão e difusão de temas literários, jurídicos e gramaticais, sob a responsabilidade da Editora Komedi, de Campinas. Mantém em destaque um espaço para a revista de poesia A Cigarra, editada por Jurema Barreto de Souza, Zhô Bertholini e João Antonio S. Sampaio, que circula, em papel, há quase 20 anos. Renovada mensalmente, a versão virtual de A Cigarra divulga boa poesia. Além de seus editores, vários poetas da região podem ser lidos naquele espaço. Dalila Teles Veras também escreve, desde 1999, uma crônica mensal na Kplus.

www.blocosonline.com.br - Blocos - Uma das mais completas e abrangentes revistas virtuais dedicadas à literatura. Em suas páginas, constantemente renovadas, podem ser lidos inúmeros escritores do ABC, localizáveis facilmente pela letra do primeiro nome.

www.palavreiros.hpg.com.br - O grupo Palavreiros é formado por cerca de vinte jovens talentos surgidos nas oficinas de literatura de Diadema. Este site alternativo de literatura divulga prioritariamente a produção do grupo e de escritores da região.

www.members.xoom.com/lusocanadian - Satúrnia - Letras e Estudos Luso-Canadianos, revista editada pelo escritor português Manuel Carvalho, residente no Canadá. Dalila Teles Veras, de Santo André, foi homenageada em suas páginas, participando como escritora convidada do trimestre julho/setembro de 2000.

www.e-net.com.br/seges/poesia.html/ - Jornal de Poesia - Editado pelo poeta Soares Feitosa, é o mais completo site de poesia encontrável na Net (mais de 2000). Além de instigantes polêmicas, críticas, ensaios, biografias, resenhas, artigos, os poetas podem ser localizados pelo seu primeiro nome.

Importante ressaltar que todas essas páginas eletrônicas recebem (e publicam) colaborações. Então? Vamos participar?

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A PRÁTICA POÉTICA NAS ESCOLAS

Indagaram-me sobre o aprendizado da Poesia nas escolas e adiantavam-me sobre o desinteresse dos alunos por este estilo.

É do conhecimento de todos a predominância do aprendizado da prosa nas escolas. As razões são óbvias e é sempre interessante mencioná-las. A primordial é a evidência de ser a forma mais próxima da linguagem do dia-a-dia, a facilitadora da comunicação.

Há quem justifique esse abandono da poesia nas escolas em razão do imediatismo e da praticidade que vivemos hoje. A poesia seria o relax dos sonhadores.

Exageros à parte, denota-se o caráter sintético, qual seja, o de contenção de palavras, evidenciando um propósito conciso de mensagem(ns). As palavras, além de ganhar mais força significativa e emotiva, utilizando-se da polissemia, também assumem a musicalidade, através da melodia dos fonemas e da cadência dos versos. Um substantivo ou um verbo têm força suficiente de significação, dispensando outras classes de palavras.

Amor

Humor (Oswald de Andrade)

Explica-se: a palavra polissêmica (de vários significados) é essência da linguagem poética ou ficcional, dá margem a interpretações diversas, resultando um entendimento de arte-reflexiva. A prosa, monossêmica, caracteriza a linguagem da precisão, proibindo-se da dúvida. É a linguagem da ciência. Ou do real. Não esquecer a origem da poesia: poiesis, do grego, que significa "criação", "exposição do ideal". Também o poema tem regras originais de construção de palavras de agrado ou desagrado aos ouvidos.

Se o objetivo é de "choque, desencanto":

"... A rosa radioativa

estúpida e inválida

A rosa com cirrose

A anti-rosa atômica..." (Vinicius de Moraes)

Se o objetivo é de encanto:

"A chuva só chove

fininho, gorducha,

malandra, moleque

bastante, pouquinha,

bravura, raivinha..." (Irineu Volpato)

Até agora fugi das questões (?), porque me pareceram secundárias. A razão principal é contundente: o desconhecimento de como incentivar e desmistificar a poesia como um estilo complexo, trabalhoso em sala de aula. Conheço trabalhos práticos que causariam encantamento aos mestres, inspirados ou não na escola do filme "Sociedade dos Poetas Mortos". Nada será preocupante se os mestres, desobrigados de formar poetas, se propuserem a tentar a prática dos versos, abrindo perspectivas ao agrado dos alunos. Tenho bons exemplos, mediados por mim e registrados no livro Pensando Poesia (Alpharrabio Edições). Há outros livros, mas experiências são contadas em revistas de cunho pedagógico e vale a pena contatá-las. Creio que não se deve negar ao aluno a possibilidade do desfrutar de um poema e da capacidade de saber sintetizar idéias de maneira artística.

Wagner Calmon - professor, poeta, cronista, compositor.

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A LITERATURA AOS OLHOS DO LEITOR:

Carta aberta a Antonio Possidonio Sampaio:

Óculos bem aprumados, livro na distância certa, iniciei a leitura de Em Busca dos Companheiros. Era o livro que havia escolhido para ler naquele carnaval de 2000, página após página, com a curiosidade de um menino que quer saber para onde está sendo levado. Cheguei ao capítulo de nº 39 e a cada linha que lia ia sendo tomado pela emoção da recordação dos dias que trabalhei na Volkswagen.

Caro Sampaio, o relato emocionado sobre a sua entrada no estádio vazio de Vila Euclides e a sua lembrança das arquibancadas tomadas pelos metalúrgicos daqueles dias, me fez voltar no tempo e pude sentir aquele cheiro de óleo queimado quando as máquinas (ponteadeiras) unem as chapas e o barulho das máquinas que soa como música, instrumentos tocados por centenas de pais de família que afiam os bicos de cobre como o violonista afina as cordas do violão para dele tirar o melhor som. Chorei. Não foi possível conter as lágrimas e, como você disse, "seria ideal se vocês pudessem gravar o que estou sentindo". Naquele momento me senti parte de uma história que está desaparecendo. Não consigo transmitir o cheiro e o som que estão em minhas lembranças ao me recordar daquela reportagem da revista Veja, onde ao piso branco da linha de produção é dado o destaque da tecnologia hoje aplicada. Lembrei que o piso da nossa fábrica em São Bernardo do Campo é escuro, ao menos até que venham as mudanças e sabe por quê? Porque naquele piso muitos pés pisam no vai-e-vem das operações que se somam para formar o carro, mas no futuro, com a automatização, mais máquinas do que gente serão utilizadas e aquele piso será branco pois não haverá pés para pisá-los.

Ao acabar de ler seu livro, caro Antonio Possidonio, resolvi escrever para lhe dizer que a cada página lida, aumentava a ansiedade para que você encontrasse os companheiros, mas, na página 181, você viaja para o assentamento de Agrolândia e não nos dá mais notícias. Fiquei só novamente.

Bem, não participei da busca dos companheiros, mas estive na festa que você organizou no dia 11.11.1999 (lembra-se?), na qual os companheiros de longa data e nós, os novos, estávamos no Alpharrabio e não em Praia Grande, como queriam Da Luz, Serafim, Ondina e outros.

E agora, Dr. Bahia, não nos deixe sem saber qual foi sua impressão após o encontro com os Companheiros.

Um forte abraço de seu leitor e admirador,

Valdir Barreros

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SOMBRAS EM RELEVO

A capa do livro Sombras em Relevo de Kleber Mantovani (Alpharrabio Edições), ao primeiro olhar, sugere a dúvida entre o que é sombra e o que é relevo.

Sombras em relevo - sombras em destaque, a evidência do que está obscuro, o que não recebe luz, mas existe pelo confronto de luz e da sua ausência. Sombras que não estão estampadas e sim saindo do plano. Sombra que oculta outra sombra criando relevos.

      Numa análise lógica, o que está ao redor da sombra é o que está em relevo - relevo de luz, a sombra que molda o plano que não recebeu luz (forma da coisa) está minimamente inferior ao plano (com luz) onde as cercanias da sombra se projetam.

Diga o leitor o que este título sublinha.

Lancei um olhar atrevido na busca de saciar-me da sagacidade dos poemas, tirar o sumo e o belo, o surpreendente: o transbordo de imagens e sensações óticas. Não tive olhos para outras coisas - meu estilo de vida.

Recebi um convite irrecusável do autor para também ser criador, seu co-autor. Ao romper a inércia do livro fechado abri uma pequena caixa de surpresas, sem fundo... A poesia estava ali mais cedo, um segundo atrás da minha atenção - no ato de torcer a palavra que ora resume e ora em dilúvio, pude vislumbrar algumas propostas:

O poema "quase" é um encontro marcado com o espírito de Sombras em Relevo: um ajuste de luz e cores, o movimento das sombras que avança e retroage. A imprecisão (quase) das cores leva a uma instalação em degradê no pensamento - abertura de um leque, enfim, oportuno exercício do olhar e da procura que se repete em "qual chão", "olhar", "abstrato" e "ausência".

Um ritual de luzes e sombras perfaz "árvore-sol" quando o tempo é alterado pela luz que se altera diante do tempo - o signo brilha até mesmo à noite.

Num olhar desfocado para o interior, "espreita" busca o "eu" imperceptível (distraído - não integrado) do poeta que não quer se revelar no poema - briga de eus poéticos. O autor se mantém em vigília, autófago. Do mesmo modo, em "eco".

Deparo com o tempo em movimento nos "áspera" e "escrevo", sendo que, neste último, Kleber Mantovani homenageia os signos moribundos da língua "el molo" e seus últimos interlocutores, mas, de outro lado, registra o próprio cotidiano poético: a mudança dos significantes.

Remetendo-me ao poema "de frestas", o autor visita o cotidiano granulado, repintando-o em "sobre a estante" com sua transcendência para fora das molduras no iluminado "um".

O desfecho do livro, o poema "momento", é seu índice de memória - sintetiza o próprio fazer poético - a dinâmica do livro.

Kleber ata e desata nós imperceptíveis ao longo dos poemas que não estão a passeio, mesmo, por vezes, invisíveis. Eu, estradeiro, rompi páginas no lombo de um cavalo de carrossel - nos dizeres do próprio poeta "momento estático no movimento".

Guilherme Vidotto - advogado, poeta e membro dos "Trovadores de Mauá"

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SOBREVIR - A deliciosa leveza do ser

Escrever sobre a obra de Margarete Schiavinatto. Um trabalho para o qual trinta e poucos anos brincando com as palavras são insuficientes. O que você vai ler agora, portanto, é o resultado de uma camisa suada. Porque para escrever sobre Margarete é preciso mais do que saber... escrever.

Convivo há algum tempo com esta jovem elegante. Elegância que se vê por fora e se lê por dentro. Leveza. Uma vigorosa suavidade, nos gestos e nas palavras. Tudo isso junto, e temos um olhar gostoso sobre a vida, mesmo que em troca ela insista em nos afrontar.

Não teria sido por isso que escolhi uma segunda-feira, ameaçadora como sempre, para falar de Sobrevir? Quanto a isso, não tenho dúvidas. Meu coração, junto com o inconsciente - nunca sei quem vem primeiro - prepararam a estratégia. Devo dizer que sou muito grato a eles, que sabem mais de mim do que eu mesmo.

Olhei para a agenda e senti que a semana, carregada, estava mesmo começando. Fechei-a por um instante. Abri o livro Sobrevir. Li o primeiro poema. Uma obra construída com borboleta, livro e marca d’água. Dentro dela, um segredo. O segredo das nossas buscas. Dos encontros e desencontros. Dos sonhos que tornaram a noite ainda mais confortável e restauradora. Como a borboleta que não teve pressa de ir embora. E eis que a semana ficou mais leve. Porque ela não será feita apenas de trabalho. Mas de busca e, principalmente, encontros.

Continuei minha viagem. Parar? Ninguém abandona, assim, a fruta cujo suco é docinho e enquanto nos acalma o paladar leva-nos de volta para debaixo dos pomares e suas sombras refrescantes. Na frente, uma Paisagem. Olhei, até onde meus olhos alcançaram, e viajei. E o poema de Margarete fez sentir-me alado, senhor dos horizontes - que friozinho gostoso e como este vento no meu rosto chega como um banho de liberdade!

Discreta, a poesia de Margarete Schiavinatto é como a própria autora a define: "A minha poesia às vezes se esconde no pequeno espaço que existe entre o nome do verso e o verso" - pronto, você acabou de ler mais um poema desta jovem que não precisa de muitas palavras para encantar.

Lembra-se do peso da semana? Pois é, ele se dilui em cada novo poema que encontro na próxima página, feito sal que a água dissolve. Sobrevir faz isso: dissolve o peso, em troca da leveza.

Agora preciso do seu perdão. Porque ofereci apenas uma pontinha de tudo que é Sobrevir. O espaço é curto. As palavras, insuficientes. E o redator, agora com vontade de voar, de sobrevir a tudo, não precisa dizer mais nada. Apenas acrescentar que pessoas como Margarete Schiavinatto, com seu delicioso Sobrevir, são como aquelas obras que, se não existissem, a gente pediria a Deus para inventá-las. Criativo e Criador, ele antecipou-se aos nossos desejos e necessidade de poesia. E nem o pedido terá de ser feito. Porque basta entrar pelas páginas de Sobrevir para encontrar um pouco de toda essa divindade. Quem precisa mais do que isso?

Rubens Marchioni - especialista em Propaganda pela ESPM, consultor editorial e profissional de treinamento. Autor do livro Criatividade & redação - Edições Loyola.

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SEIS RETINAS NA ROTINA DE UMA ALDEIA

"No Pão de Açúcar

De Cada Dia

Dai-nos Senhor

A Poesia

De Cada Dia"

Oswald de Andrade

O ano de 1999 vai ficar para a história das Letras no ABC paulista como o ano em que alguns produtores culturais diarizaram todos os dias do ano. Um a um. Dia após dia. Sob o olhar da multiplicidade. Sob o foco das diferenças. Fatores que tornam os livros Minudências de Dalila Teles Veras, Na Trilha do Trem de Valdecírio Teles Veras, e ABC no Fim do Milênio de Antonio Possidonio Sampaio, três pênaltis bem batidos. Goleiro de um lado, bola de outro.

O projeto, muito feliz, diga-se, foi idealizado a partir de uma obra chamada ABC Cotidiano - Cotidiário de Antonio Possidonio Sampaio - obra inaugural da Alpharrabio Edições. Este cotidiário de Possidonio guarda em suas páginas todos os dias do ano de 1992. O diário, paixão antiga do prosador baiano, foi uma grande sacada por ser, não um simples relato do tipo "acordei, levantei, trabalhei, jantei, dormi", mas por ter qualidades estéticas propostas para um fim específico. Este fim é a obra literária.

Pois bem, alguns dos mais importantes escritores da região pegaram carona na idéia do autor de Em Busca dos Companheiros e o ano de 1999 foi premiado por olhares diversos, aguçados e críticos.

Minudências da poeta luso-andreense Dalila é o mais literário (isso não quer dizer que os outros não sejam), por ser, talvez, de uma poeta que possui uma consistente obra em andamento. Alguns dias deste diário funcionariam, extraídos do contexto do projeto, como prosa poética - estilo que a autora já cultivou em seu belo A Palavraparte de 1996. Outros dias são lições de cidadania. Dalila se indigna perante algumas lesmices do setor público de cultura. Solta algumas pancadas e, serenamente, propõe saídas que, infelizmente, não são ouvidas. A autora conduziu muito bem seu trabalho, não deixando que o tédio nublasse a leitura.

ABC no Fim de Milênio, do romancista Possidonio, tem a carga elétrica de um texto jornalístico. Uma ironia aqui, uma paulada acolá, uma opinião certeira mais à frente. Possui recordações, possui um pouco de tristeza, uma leve amargura bandeiriana. Alguns trechos prendem-se às pequenas e essenciais coisas da vida. Uma família de vira-latas da rua Laura, um jantar com um amigo, a lembrança de outro amigo dos tempos heróicos das greves na região. Isso me faz lembrar, de imediato, da opção pelo que é miúdo dentro da obra do poeta mato-grossense Manoel de Barros, onde tudo que está encolhido, sob a sombra, quieto, piquininho é transformado em colossal, em único, e isso é vital.

Possidonio é um sujeito preocupado. Com os amigos, com a família, com o seu povo, com a vida, e toda essa preocupação atravessa sua versão do ABC na queda de mil anos na qual todos nós tropeçamos.

Na Trilha do Trem de Valdecírio, a começar pelo ótimo título, é o que possui mais humor. Um humor refinado, por vezes ácido, que proporciona boas horas de leituras. Na Trilha do Trem é, a meu ver, o melhor equipado dos diários. O corpo deste trabalho de Valdecírio possui de tudo: memória, atitude política, embate cultural, Direito, família etc., no limite entre a ficção e a realidade - como nos ilumina uma outra escolha certeira do autor: a epígrafe de José Saramago.

Quando funde o caderno de seu bisavô em sua prosa-trio-elétrico, o autor de Sabor Canjica nos presenteia com uma inusitada costura de vozes, fundando ali, dentro do texto, a coluna de sua família, os causos de sua terra, sua raiz. Valdecírio coloca no seu diário toda sua verve criadora e presenteia-nos com dias inesquecíveis, mesmo não tendo (nós) participado deles.

Essa primeira fornada (ainda virão mais cinco) nos mostra a força narrativa-criadora de três dos mais interessantes escritores da região das sete cidades. Artistas que colocam-se como mestres-de-cerimônia de seu chão, dominadores de sua arte, da escrita cheia de ventilação e inteligência para tentar (conseguindo) curar essa constante ressaca de falta de imaginação que nos cerca, dia a dia, e nos aperreia e nos maltrata. Deus vos salve a prosa santa. Amém.

Fabiano Calixto - poeta, autor de Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000).

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2001 - ANO DA LITERATURA BRASILEIRA E DO ABC

Ainda que literatura não se faça por decreto, foi através de um deles que 2001 se transformou no Ano da Literatura Brasileira, a propósito da comemoração dos 150 anos do nascimento do escritor Sílvio Romero e do centenário de nascimento de Murilo Mendes, José Lins do Rego e Cecília Meireles. Nada mais bem vindo para fomentar leitores, oxigenar debates e, quem sabe, colocar a literatura na moda.

Com propósitos semelhantes, a Alpharrabio Edições também decretou que este será o Ano da Literatura do ABC e, além da difusão ampla por todas as cidades do Grande ABC da campanha "A LITERATURA MORA AO LADO", já lançada no fim do último ano, este também será o eixo temático que norteará todas as principais atividades culturais do ano da Alpharrabio Livraria Espaço-Cultura, em Santo André, neste seu nono ano de existência.

O projeto, como já amplamente divulgado, tem o intuito de dar a conhecer a literatura produzida na região a vários segmentos da comunidade, aproximar o escritor do leitor e promover a leitura. Para tanto, a Livraria manterá, durante todo este ano, uma programação fixa, dividida em dois vetores principais, que acontecerão em sua sede da Rua Eduardo Monteiro, em Santo André, sempre aos sábados à tarde:

CARA A TAPA

O ciclo Cara a Tapa é coordenado pelo poeta Tarso de Melo, autor dos livros A Lapso e História da Literatura em Santo André - um ensaio através do tempo, colaborador de diversas publicações literárias do país e do exterior.

Os encontros reúnem a cada mês dois escritores que tenham interesse em discutir publicamente sua produção literária (poesia, conto, crônica, romance etc.) em bate-papos mediados pelo coordenador, sem a finalidade de julgar positiva ou negativamente as obras apresentadas, mas pôr em debate diversos aspectos da criação literária a partir dos exemplos que seja possível encontrar nos textos dos autores presentes.

Os interessados em participar do Cara a Tapa podem fazer inscrição na própria livraria ou pelo correio, enviando seus textos - preferencialmente até o máximo de 15 poemas ou 15 páginas de texto em prosa - em envelope identificado com o nome do participante, endereço e telefone para contato, indicando CARA A TAPA.

CONVERSA DE LIVRARIA

Encontro também programado para acontecer uma vez por mês, contempla todo o tipo de discussão referente ao livro, literatura, idéias de projetos literários e leitura. Lançamentos de livros, conversa com o autor, apresentações musicais vêm acontecendo desde março e muitos outros estão programados para os próximos meses.

A LITERATURA MORA AO LADO

PARA ALÉM FRONTEIRAS

A direção da Alpharrabio Edições, contando com a colaboração dos escritores locais, vem mantendo inúmeros contatos visando a ampliar o projeto A Literatura Mora ao Lado para todos os municípios da região. Reuniu-se com a rede de bibliotecas públicas de Santo André, São Bernardo do Campo, Rio Grande da Serra, com professores da Oficina Pedagógica da Rede Estadual de Ensino e com outras instituições, apresentando-lhes uma lista de 26 escritores (um pequeno exército, nós diríamos), todos da região, com "aval de crítica" e com suas obras largamente difundidas, que poderão participar de encontros, debates, proferir palestras, realizar oficinas e falar de suas obras.

Resultados desses contatos já podem ser sentidos, através de perspectivas de parcerias, bem como concretamente já aconteceram, além dos encontros na própria livraria, outros como os da Faculdade Aberta de Terceira Idade da UNI-A, em Santo André, na Biblioteca de Rio Grande da Serra ou na Casa da Palavra, em Santo André.

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ABECÊS é uma publicação da Alpharrabio Edições e conta com a parceria cultural da Bartira Gráfica.

2º trimestre de 2001 · Editora executiva: Dalila Teles Veras · Editores: Antonio Possidonio Sampaio, Fabiano Calixto, Rosana Chrispim, Tarso de Melo, Valdecirio Teles Veras · Colaboradoras: Therezinha Malta e Marília Guimarães Pedrosa · Equipe de editoração e produção gráfica: Isabela A. T. Veras, Rosana Chrispim e Luzia Maninha Teles Veras · Jornalista Responsável: Rosana Chrispim MTb 16.651 · Redação: Rua Eduardo Monteiro, 151 – Santo André – Fone: 4438-4358 Fax: 4992-5225 – e-mail: alpha@canbrasnet.com.br

 


Abecês 1


Abecês 2


Abecês 4