
A LITERATURA MORA AO LADO A vida escrita e lida
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Carta aberta a Antonio Possidonio Sampaio: Óculos bem aprumados, livro na distância certa, iniciei a leitura de Em Busca dos Companheiros. Era o livro que havia escolhido para ler naquele carnaval de 2000, página após página, com a curiosidade de um menino que quer saber para onde está sendo levado. Cheguei ao capítulo de nº 39 e a cada linha que lia ia sendo tomado pela emoção da recordação dos dias que trabalhei na Volkswagen. Caro Sampaio, o relato emocionado sobre a sua entrada no estádio vazio de Vila Euclides e a sua lembrança das arquibancadas tomadas pelos metalúrgicos daqueles dias, me fez voltar no tempo e pude sentir aquele cheiro de óleo queimado quando as máquinas (ponteadeiras) unem as chapas e o barulho das máquinas que soa como música, instrumentos tocados por centenas de pais de família que afiam os bicos de cobre como o violonista afina as cordas do violão para dele tirar o melhor som. Chorei. Não foi possível conter as lágrimas e, como você disse, "seria ideal se vocês pudessem gravar o que estou sentindo". Naquele momento me senti parte de uma história que está desaparecendo. Não consigo transmitir o cheiro e o som que estão em minhas lembranças ao me recordar daquela reportagem da revista Veja, onde ao piso branco da linha de produção é dado o destaque da tecnologia hoje aplicada. Lembrei que o piso da nossa fábrica em São Bernardo do Campo é escuro, ao menos até que venham as mudanças e sabe por quê? Porque naquele piso muitos pés pisam no vai-e-vem das operações que se somam para formar o carro, mas no futuro, com a automatização, mais máquinas do que gente serão utilizadas e aquele piso será branco pois não haverá pés para pisá-los. Ao acabar de ler seu livro, caro Antonio Possidonio, resolvi escrever para lhe dizer que a cada página lida, aumentava a ansiedade para que você encontrasse os companheiros, mas, na página 181, você viaja para o assentamento de Agrolândia e não nos dá mais notícias. Fiquei só novamente. Bem, não participei da busca dos companheiros, mas estive na festa que você organizou no dia 11.11.1999 (lembra-se?), na qual os companheiros de longa data e nós, os novos, estávamos no Alpharrabio e não em Praia Grande, como queriam Da Luz, Serafim, Ondina e outros. E agora, Dr. Bahia, não nos deixe sem saber qual foi sua impressão após o encontro com os Companheiros. Um forte abraço de seu leitor e admirador, Valdir Barreros <voltar> |
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SOMBRAS EM RELEVO A capa do livro Sombras em Relevo de Kleber Mantovani (Alpharrabio Edições), ao primeiro olhar, sugere a dúvida entre o que é sombra e o que é relevo. Sombras em relevo - sombras em destaque, a evidência do que está obscuro, o que não recebe luz, mas existe pelo confronto de luz e da sua ausência. Sombras que não estão estampadas e sim saindo do plano. Sombra que oculta outra sombra criando relevos. |
| Numa
análise lógica, o que está ao redor da sombra é o que
está em relevo - relevo de luz, a sombra que molda o
plano que não recebeu luz (forma da coisa) está
minimamente inferior ao plano (com luz) onde as cercanias
da sombra se projetam. Diga o leitor o que este título sublinha. Lancei um olhar atrevido na busca de saciar-me da sagacidade dos poemas, tirar o sumo e o belo, o surpreendente: o transbordo de imagens e sensações óticas. Não tive olhos para outras coisas - meu estilo de vida. Recebi um convite irrecusável do autor para também ser criador, seu co-autor. Ao romper a inércia do livro fechado abri uma pequena caixa de surpresas, sem fundo... A poesia estava ali mais cedo, um segundo atrás da minha atenção - no ato de torcer a palavra que ora resume e ora em dilúvio, pude vislumbrar algumas propostas: O poema "quase" é um encontro marcado com o espírito de Sombras em Relevo: um ajuste de luz e cores, o movimento das sombras que avança e retroage. A imprecisão (quase) das cores leva a uma instalação em degradê no pensamento - abertura de um leque, enfim, oportuno exercício do olhar e da procura que se repete em "qual chão", "olhar", "abstrato" e "ausência". Um ritual de luzes e sombras perfaz "árvore-sol" quando o tempo é alterado pela luz que se altera diante do tempo - o signo brilha até mesmo à noite. Num olhar desfocado para o interior, "espreita" busca o "eu" imperceptível (distraído - não integrado) do poeta que não quer se revelar no poema - briga de eus poéticos. O autor se mantém em vigília, autófago. Do mesmo modo, em "eco". Deparo com o tempo em movimento nos "áspera" e "escrevo", sendo que, neste último, Kleber Mantovani homenageia os signos moribundos da língua "el molo" e seus últimos interlocutores, mas, de outro lado, registra o próprio cotidiano poético: a mudança dos significantes. Remetendo-me ao poema "de frestas", o autor visita o cotidiano granulado, repintando-o em "sobre a estante" com sua transcendência para fora das molduras no iluminado "um". O desfecho do livro, o poema "momento", é seu índice de memória - sintetiza o próprio fazer poético - a dinâmica do livro. Kleber ata e desata nós imperceptíveis ao longo dos poemas que não estão a passeio, mesmo, por vezes, invisíveis. Eu, estradeiro, rompi páginas no lombo de um cavalo de carrossel - nos dizeres do próprio poeta "momento estático no movimento". Guilherme Vidotto - advogado, poeta e membro dos "Trovadores de Mauá"
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