EDITORIAL

O Abecês chega ao número 5, já no seu segundo ano de circulação, com cara nova e número de páginas duplicado. Mais: agora com uma versão virtual, abrigada na revista Loquens (www.loquens.hpg.com.br/abc.htm).

Graças ao decisivo e imprescindível apoio da Gráfica Bartira (São Bernardo do Campo, capitaneada por Adriano Souza) e a outros também louváveis e necessários apoios, como o da revista Loquens (editada por Marcos Sidnei Euzebio), Faculdades IESA e HanPa Express Bureau (Santo André), podemos abrir mais espaço não só à literatura produzida na região do Grande ABC, ainda e sempre nossa prioridade, mas também trazer outras vozes para dialogar com ela, troca sempre saudável e necessária, como bem o demonstra o encontro com os contistas Marçal Aquino, Marcelino Freire, Luiz Roberto Guedes e Ivana de Arruda Leite.

"Portas cada vez mais abertas ao leitor" foi a maneira encontrada pelo conselho editorial para evitar a armadilha comum a publicações literárias, ou seja, escritor a falar somente para escritor. Os escritores do ABC (e não só eles, todos os demais) querem e carecem de leitores, a fim de que sua palavra cumpra a função de literatura e se concretize através da leitura. Não é nossa intenção escrever para escritores, mas para seres humanos (que, eventualmente, podem até acumular a função de escritor). Somos escritores à espera dos ecos necessários à continuação da trajetória desse ofício quase imaterial, única resposta à incômoda sensação de falar sozinho.

Neste número, juntamente com as colunas "Livros Fora do Eixo – Notícias" e "Lesa-Palavra", espaços abertos ao diálogo continental, inaugura-se também a coluna "Memorial" que pretende resgatar nomes, fatos e textos relevantes da história regional, em especial a da nossa literatura, e já começa resgatando a memória de um importante nome ligado à dramaturgia na região, Heleny Guariba ("desaparecida" durante a ditadura militar).

O Abecês continuará, assim, porta-voz de A Literatura Mora ao Lado (campanha que virou permanente) e também arauto de toda ação voltada à divulgação e fomento da cultura e da literatura que sai das fornalhas do Grande ABC, do livro e da leitura, fronteiras essas agora alargadas mundo afora.

Dalila Teles Veras

     
     
   
    Sumário:

<> Palavra do Leitor

<> Nosso Século XXI também vai marcar Época

<> Lesa - Palavra - por Tarso de Melo

<> "Eu, Leitor, Confesso..." - por Marcos Sidnei Euzebio

<> Livros sobre Futebol ou Recordar é Viver - por José Reinaldo Pontes

<> "O que eu estou lendo..." - Milton Andrade, Luis Alberto de Abreu e Flávio Florence

<> "O que eu estou escrevendo..." - José de Souza Martins

<> Aos Olhos do Leitor - por Cecília Vertamatti

<> Resenha: O Teatro Amador em Santo André, de Paschoalino Assumpção - por Luis Alberto de Abreu

<> A Memória do ABC na Pauta: entrevista com José Armando Pereira da Silva

<> Memorial: Heleny Guariba - por Valdecírio Teles Veras

<> Livros Fora do Eixo: Notícias - por Dalila Teles Veras

<> A Literatura Mora ao Lado: Desdobramentos

<> A Mais Nova Prosa

<> A Palavra Inédita

     
     
   


PALAVRA DO LEITOR

"... Já li os Abecês, que me deixaram surpreso quanto à vitalidade do movimento literário na sua cidade, a qual infelizmente não conheço. Porto Alegre, que tem mais de um milhão e quinhentos mil habitantes, parece um tanto combalida diante de um quadro de debates, de ações, como o que está aí configurado..."

Eduardo Sterzi, poeta, Porto Alegre, por e-mail

"...continuo, como sempre, admirando esse trabalho, consciente e persistente, de defesa da boa literatura e do ABC."

Renata Pallotini, poeta e dramaturga, São Paulo, por carta

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NOSSO SÉCULO XXI

TAMBÉM VAI MARCAR ÉPOCA

A revista Livre Mercado publica Nosso Século XXI, "a maior obra coletiva da história do Grande ABC, de leitura obrigatória a quem pretende conhecer nossa região", conforme anunciou o jornalista Daniel Lima, diretor-executivo da Livre Mercado, e um dos 29 ensaístas que escreveram a obra, durante seu pré-lançamento realizado em 16 de outubro no Espaço Cultural do Hospital Brasil, em Santo André.

Segundo Daniel Lima, ao lançamento oficial de Nosso Século XXI, em noite de autógrafos a realizar-se em 13 de dezembro no Club Atlético Aramaçan, em Santo André, com a presença dos ensaístas, cerca de 3 mil convidados deverão comparecer para prestigiar o acontecimento, de cunho benemérito, cujo rendimento será integralmente revertido à instalação do Instituto de Infectologia da Fundação do ABC.

José Batista Gusmão, coordenador de marketing do projeto, divulgou por ocasião do pré-lançamento que várias empresas da região já haviam adquirido mais de 3 mil exemplares do livro, que será distribuído como brinde de fim de ano.

Os 29 textos constantes de Nosso Século XXI foram publicados mensalmente pela revista Livre Mercado, que agora os reuniu num volume de mais de 400 páginas ilustrado por artistas plásticos da região.

Assinam os textos os seguintes ensaístas: Ademir Medici, Aleksandar Jovanovic, Alexandre Takara, Angelo Gaiarsa Neto, Ana Claudia Marques Govatto, Antonio Possidonio Sampaio, Carlos Augusto César Cafu, Celso Daniel, Cláudio Rubens Pereira, Dalila Teles Veras, Daniel Lima, Fábio Vital, Fausto Cestari Filho, Jeroen Klink, Jerson Ourives, Jorge Hereda, Josué Catharino Ferreira, Klinger de Sousa, Luiz Marinho, Luiz Roberto Alves, Marta de Betania Juliano, Maurício Soares, Milton Andrade, Nadia Somekh, Paulo Eugênio Pereira Júnior, Rafael Guelta, Ricardo Alvarez, Silvio Minciotti e Virginia Pezzolo.

Com espírito semelhante, a Alpharrabio Edições, desde o ano 2000, vem publicando a Coleção Imaginário, através de diários de autores da região registrando o dia-a-dia do último ano do século XX. O fato desses diários serem escritos por pessoas atuantes em áreas diferentes confere ao projeto um caráter de múltiplas e significantes visões sobre a região, contrapondo-a a um cenário nacional e planetário. Apesar de se tratar de um projeto coletivo, sem precedentes na história da literatura brasileira, cada autor, individualmente, registrou os fatos que lhe pareceram importantes, ficando a critério de cada um o tratamento literário mais adequado.

O ABC, assim, mira-se no espelho de sua própria história, e reflete para crescer.

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LESA-PALAVRA

Tarso de Melo

O que posso dizer a vocês, aqui, assim, agora?

Pensando num bom começo de carreira para esta pequena coluna — lesa-palavra, como se diz lesa-pátria etc., pelo desrespeito que o prefixo encerra — não me vieram à cabeça mais que três ou quatro títulos já sobejamente resenhados, observados, comentados. Desses, claro, não me importaria tratar aqui. Importa, isso sim, ao menos é o que imagino, apontar diálogos interessantes, novos, instigantes, em meio ao grande número de lançamentos editoriais que acompanhamos diariamente. Mas como fazer isso se já é noite no nosso prazo e sequer temos ao alcance da mão uma biblioteca razoável?

Não sei, talvez fosse o caso de apontar para a produção de contistas novos que andam já pelas páginas deste ABECÊS, contistas que têm o faro da literatura futura, o fogo do melhor que já fizeram nossos escritores, a fúria de quem atenta contra os deuses da língua. E assim falar do impacto que os contos de Marcelino Freire (Angu de sangue, Ateliê Editorial, 2000) causaram já na primeira leitura, e da sucessão de surpresas ao ler os contos recolhidos pelo contista-organizador Nelson de Oliveira (injustamente auto-excluído) em Geração 90 — manuscritos de computador (Boitempo Editorial, 2001). Da mesma forma, seria justo citar novamente o encanto causado por Nada mais foi dito nem perguntado, de Luís Francisco Carvalho Filho (Ed. 34, 2001), em seus passeios burocráticos.

Mas talvez fosse melhor falar de poesia, de outras coisas. Ainda que pareça melhor voltar aos clássicos, e lembrar do monumental Borges no Brasil (org. Jorge Schwartz, Imprensa Oficial, 2001), que traça uma rica vivência brasileira do escritor Jorge Luís Borges através dos leitores que, em nosso país, de Mário de Andrade para a frente, se debruçaram sobre seus textos, suas idéias, sua personalidade. Falar, ainda, que apenas o levantamento bibliográfico ao final já bastaria para justificar sua edição... Ou ainda da bem-vinda reedição do romance PanAmérica, de José Agrippino de Paula (Ed. Papagaio, 2001), ou da longamente bela biografia que Toninho Vaz retirou do imaginário que circunda a vida do poeta Paulo Leminski em O bandido que sabia latim (Ed. Record, 2001). E por falar em Leminski lembrar de outras duas jóias que se juntaram ao seu percurso póstumo: Aço em flor (Autêntica, 2001), com a dissertação com que Fabrício Marques se fez mestre em Minas Gerais, e Anseios crípticos 2 (Criar Edições, 2001), recolhendo mais alguns dos tantos petardos teóricos que o polaco lançou na imprensa esparsa do Brasil.

Tanta coisa para ler. E já ia esquecendo das boas coisas que o centenário de nascimento do poeta Murilo Mendes pôs nas estantes: da reedição de seus livros de poemas à volumosa celebração do livro de Laís Corrêa de Araújo (Murilo Mendes: ensaio crítico, antologia, correspondência, Perspectiva, 2001). E que mais, e que mais, e que mais?

Pensei, pensei, e nada. Com desculpas, vai assim mesmo, seco, este primeiro naufrágio.

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Eu, Leitor, Confesso
...

Não.

Desculpem-me, mas não confesso nada.

Para confessar, é preciso ser sincero, ser capaz de sinceridade, e não sei o que é isso. Se tentasse, acabaria por falar da velha casa e seu quarto carregado de livros, e daquele menino com um volume colorido aberto sobre os joelhos. Mas isto não é, essa lembrança não é, ela mesma, tema literário, imagem adotada de algum livro? O menino, sentado no sofá de couro, com o aroma das tardes sem pressa envolvendo-o, fui eu? Ser criança em um mundo assim, habitado pela mãe, o pai, a nonna, não é falar de um mundo criado por dentro, e hoje habitado por mim naquele tempo? Não sei ser sincero, nem original - quanto de poeta português não existe nas frases confusas que me narram...

Sou incapaz de confessar porque não vivi: viveram em mim legiões logo que aberto, inadvertidamente, o primeiro volume. E paisagens e horizontes e mares e amores: tudo isso então eu era. E mais ainda tornei-me: um estranho oxímoro, um protagonista secundário, o Leitor, que insuflava vida às custas da sua própria, esvaziando-se ao preencher-se de tudo. Porque estou nos livros não como o peixe na água, que de um modo ou de outro a percebe separada, mas como a água na água, presa em um mundo sem limites.

Assim, transformou-se o amador na coisa amada, por virtude do muito imaginar. E como todos os homens de Babilônia, acabei também por ser procônsul; como todos, escravo, conhecendo a onipotência, o opróbrio, os cárceres, e acordando, certa hora, transformado não em inseto, mas em rapsódia.

Abri o primeiro volume inadvertidamente, e ele permanece aberto. Penso, algumas vezes, que se houvesse escapado do quarto carregado de livros, talvez fosse diferente, talvez algum eu sobrasse, para confessar. Mas não: a cada visita, algo se trocava, e isto aqui - a vida, como chamamos - foi ganhando os contornos não da felicidade (seria muito pedir isso aos livros), mas da beleza.

Não posso confessar: o Eu é um Outro, já escreveu alguém...

E tudo é Literatura - até esta tentativa frustrada.

Melhor permanecer quieto em meu canto.

Lendo.

Marcos Sidnei Euzebio é (?) doutorando em Filosofia da Educação
pela Universidade de São Paulo e editor da Loquens

<www.loquens.cjb.net>

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LIVROS SOBRE FUTEBOL

ou

Recordar é viver

Quem entrar numa livraria brasileira e perguntar pela seção de futebol, vai ficar decepcionado. Por melhor que seja a livraria, não haverá mais que uma dezena de livros, lançamentos recentes das editoras DBA e Griphus. No entanto, existem cerca de 350 títulos, desde a História do S.C. Rio Grande às História do Futebol em Manaus. O problema todo é que não existe, ou pelo menos não existia, um serviço sistemático de distribuição que permitisse que as publicações chegassem aos interessados. Observamos essa lacuna ao recebermos, através de nossa livraria em Campinas, um pedido da obra "História do Futebol em Santo André", vindo de um cliente do exterior. Ao encontrá-la (e para nossa surpresa, o autor do referido título, Paschoalino Assumpção, também publicara uma história do Corinthians de Santo André, intitulada "O Galo de Vila Alzira"), passamos a oferecer os dois livros aos nossos clientes interessados no tema (jornalistas, historiadores do esporte e colecionadores), com êxito total: todos adquiriram os livros. Após essa experiência, empolgados pelo resultado, começamos a pesquisar e conseguimos descobrir um sem número de publicações sobre o esporte bretão. Hoje, são 1000 títulos cadastrados, desde o "Guia do Futebol em São Paulo", de Mário Cardim, de 1903, até o "Divino: a vida e a arte de Ademir da Guia", recentemente publicado. O livro de Mário Cardim, ressalte-se, é a primeira publicação sobre futebol no Brasil.

E a partir de agora preparem-se para uma enxurrada de livros sobre futebol, pois várias editoras estão acolhendo originais para criar coleções sobre o tema. Já em boa hora, porque, do jeito que anda nossa seleçãozinha, só nos resta, através de livros, recordar os tempos áureos do futebol brasileiro, vividos até os anos 70.

José Reinaldo Pontes - Livreiro e Editor, de Campinas

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O QUE ESTOU LENDO

Milton Andrade, ator e poeta

Entre outros livros, releio "Óperas", obras completas de Antônio José da Silva, o Judeu (Edições Cultura, SP, 1944, em dois volumes), buscando um texto de interesse da juventude estudantil para ser montado no projeto "Curta Teatro" em São Paulo, patrocinado há 4 anos pelo Hotel Hilton. O que descobri de mais encenável é a peça "Guerras do Alecrim e da Manjerona", sobre intrigas amorosas.

     

Nota da Redação 1: Antônio José da Silva, o Judeu, nasceu no Rio de Janeiro em 1705 e morreu em Lisboa, em 1739, queimado pela fogueira da Inquisição. Considerado o primeiro autor teatral nascido no Brasil, representou uma das grandes expressões da dramaturgia em língua portuguesa. Era também poeta e, no dizer de Silvio Romero (em "História da Literatura Brasileira"), "Este ilustre fluminense é a antítese perfeita de José de Anchieta. Nascido no Brasil, retirou-se menino para Portugal e lá o fizeram morrer. Deverá ser contemplado na história brasileira? Creio que sim, por 3 razões principais: o nascimento, a família, que sendo fluminense, inoculou-lhe n'alma o sentimento nacional e, finalmente, a natureza do seu lirismo, que é brasileiro". Machado de Assis considerava "Guerras do Alecrim e da Manjerona" a mais perfeita de suas peças.

N.R.2: Quem estiver interessado, há na Livraria Alpharrabio, disponíveis para venda, obras de Antônio José, consideradas raras: Operas - Obras Completas (as mesmas que Milton Andrade está lendo), em 2 volumes (R$ 40,00- as capas não estão em perfeito estado de conservação), e Duas Comédias de Antônio José, o judeu: A vida de Esopo e Guerras do Alecrim e da Manjerona, uma excelente edição, em volume único, da Editora Civilização Brasileira, com estudo e apresentação de R. Magalhães Júnior e estudo de Machado de Assis (R$ 35,00- a capa apresenta pequeno defeito).

  Luís Alberto de Abreu, dramaturgo e roteirista

Sempre leio muitas coisas ao mesmo tempo. Tenho interesse em geral por contos do mundo todo; estou lendo Contos Húngaros, organizados por Paulo Rónai (Edusp, 1991) e destaco principalmente dois dos contos do livro: O Enterro Alegre, de Déry Tibor; que versa sobre o tema da morte e Moeda Falsa, de Gelléri Andor Endre, um conto muito simples mas encantador; sobre uma pessoa do povo que cunha uma moeda falsa. Leio também Merlin (também denominado de O Encantador, personagem da tradição céltica e do ciclo do rei Artur; mágico e profeta, amante da fada Viviana), para adaptá-lo para o teatro, numa montagem especial para ser encenada por Antonio Petrin.

Nota da redação: lamentamos, mas estes títulos não fazem parte atualmente do acervo da Livraria Alpharrabio. Tente noutros sebos, onde sempre tesouros como estes podem ser encontrados.

Flávio Florence, regente titular da Orquestra Sinfônica de Santo André.

Estou lendo O Último Judeu, de Noah Gordon (Rocco, 2000). É o segundo livro que leio do autor - o primeiro foi The Physician, que saiu aqui como O Físico. Gosto dos romances históricos de Noah Gordon. Ele consegue recriar a vida de cidadãos comuns na Idade Média nos detalhes mais prosaicos. Mas infelizmente a tradução poderia ser melhor. Nem mesmo a portuguesíssima expressão "auto da fé" foi poupada: saiu como "auto-de-fé". Apesar disso, é uma leitura muito agradável.

     

Nota da redação: por tratar-se de uma publicação recente, O Último Judeu ainda não começou a circular no mercado de livros usados. Procure numa livraria convencional que é sempre bom vasculhar novidades.

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O QUE ESTOU ESCREVENDO

- José de Souza Martins – Sociólogo, licenciado em ciências sociais pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, onde fez o mestrado e o doutorado em sociologia. Professor associado junto ao Departamento de Sociologia da USP, foi Visiting Scholar do Center of Latin American Studies da Universidade de Cambridge e foi eleito fellow de Trinity Hall e titular da Cátedra Simon Bolivar da mesma Universidade. Em 1996 foi nomeado membro, pelas Américas, da Comissão de Curadores do Fundo Voluntário da ONU sobre Formas Contemporâneas de Escravidão. Entre outras obras publicou: SCS em IV Séculos de História (1957); Conde Matarazzo. O Empresário e a Empresa (1967); A Imigração e a Crise do Brasil Agrário (1973); Capitalismo e Tradicionalismo (1975); Sobre o Modo Capitalista de Pensar (1978); O Cativeiro da Terra (1979); Expropriação e Violência (1980); Os Camponeses e a Política no Brasil (1981); Militarização da Questão Agrária no Brasil (1984); Não Há Terras para Plantas neste Verão (1986); A Reforma Agrária e os Limites da Democracia na Nova República (1986); Caminhando no Chão da Noite (1989); Subúrbio (1992); A Chegada do Estranho (1993); O Poder do Atraso (1994); Exclusão Social e Nova Desigualdade (1997); Fronteira (1997); Diário de Fim de Século (1998).

As contingências de meu trabalho profissional, como pesquisador e professor da Universidade de São Paulo, me obrigam a escrever todos os dias: ou artigos científicos ou livros. Nos últimos tempos, tenho procurado, também, escrever crônicas sobre assuntos do momento. Os sociólogos são sempre tentados a opinar sobre os grandes dilemas da sociedade e, quando podem, fazem isso num terreno à margem das exigências formais do discurso científico propriamente dito.

Quase sempre trabalho em dois ou três livros ao mesmo tempo. Posso, assim, alternar matrizes de raciocínio e, portanto, "descansar numa perna enquanto uso a outra". Escrevo um longo trecho de livro, interrompo a redação por um bom tempo, e me dedico a outro. Uma espécie de rodízio da escrita. Acabo de entregar os originais de um novo livro a um dos meus editores, um livro que trata da exclusão social.

No momento, estou dando retoques no primeiro extenso capítulo do terceiro volume de "Subúrbio", cujo segundo volume foi publicado pela Editora Hucitec e ganhou o Prêmio Jabuti de Ciências Humanas. Dos cinco capítulos desse novo volume, dois estão escritos (cerca de 150 páginas). Trata-se de uma trilogia histórico-sociológica que tem como referência São Caetano do Sul. É um modo de pensar a história social do país a partir da margem, do agir histórico dos moradores de um lugar que não está no centro dos acontecimentos. Essa é uma opção metodológica que teve uma certa repercussão nas ciências sociais.

O primeiro volume também está parcialmente escrito. É possível que o terceiro volume fique pronto para o ano que vem, enquanto que o primeiro só estará pronto em 2003. O segundo volume, já esgotado, vai ser reeditado proximamente pela Editora da Unesp.

Estou, também, na fase preparatória de redação de um livro sobre linchamentos no Brasil, um estudo sociológico que cobre o último meio século e vinte anos de pesquisa, abrangendo duas mil ocorrências. Meu plano é tê-lo terminado no próximo ano e já há uma grande editora interessada em publicá-lo. Tenho trabalhado aqui e na Inglaterra, pois lá disponho de uma infraestrutura apropriada para a linha de interpretação que vou adotar, relativa ao sacrifício humano na constituição da sociedade moderna. Fui para Cambridge por duas semanas em outubro e para lá retornarei, por um mês, em janeiro e fevereiro. Espero voltar ao Brasil já com a estrutura definitiva do texto para redigi-lo até o final do ano que vem.

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AOS OLHOS DO LEITOR

Delicio-me por horas com tintas sobre telas. Tenho o privilégio de um trabalho prazeroso. Nele, as imagens silenciosas que vão se compondo na minha frente suscitam palavras. Encontro-me, então, em percurso inverso, com meus companheiros escritores – aqueles que pelas palavras suscitam imagens – meus colegas pintores das obras em letras sobre papel. – Oi! De coração eu os reverencio. Se percebo o acerto em um quadro meu quando nele entrevejo a poesia, quando ela pelas mãos de escritores faz um quadro, ele já nasce respeitável. Brincando com cores ou brincando com palavras, estamos guarnecidos pela mesma moldura, solidários.

Se eu posso afirmar que poetas e pintores trocam informações técnicas, elucido com alguns itens que fazem parte dessa confissão:

- Aprendi que valores tradicionais podem bem conviver com inovações nas pinceladas, assim como a erudição e a simplicidade fazem beleza juntas, por escrito.

- Descobri que fundos neutros, margens de mistérios e toques camuflados são espaços, tanto para o observador quanto para o leitor colocarem-se e completarem a obra, além da nossa intenção de autores.

- Convenci-me de que, assim como o bom escritor espreme os versos para apurar o conteúdo, o pintor que sabe sintetizar seus temas está buscando o melhor artístico.

- Aceitei que uma obra artística, olhada por muito tempo, nos hipnotiza e que nós só poderemos fazer-lhe interferências felizes no retorno após um distanciamento, quer seja com lápis ou com pincéis.

Por crer que "a literatura mora ao lado", interessei-me pelas obras do quase vizinho Volpato e fui lendo e relendo todas que me chegavam. A memória fotográfica e a inventividade desse escritor, somadas à sensação visual que desperta, fazem-me ter nele um bom exemplo de colega para mencionar. Já vi o Rio Araquá sem nunca às suas margens ter ido. Recebi bandas em estações de trem que já não existem. Fartei-me de matizes de pôr-do-sol mais por ler do que por pintar.

"Cor de incêndio de dia indo embora"

Que ele nos desculpe a descoberta... mas só uma alma de cristal pode refletir o espectro solar com toda pureza, no figurativo e no abstrato.

"Em tarde a matar-se dia cansado

flamboiã galopado de poente

imensava suas cores de silêncio"

Os bons cursos de pintura deveriam abranger bibliografias dessas.

Soube que Irineu Volpato voltou a residir no interior de São Paulo. Foi, certamente, buscar modelos agrestes para novos quadros, no privilégio do tal trabalho prazeroso.

Que, mesmo mudando, o poeta e sua poesia continuem nos vindo para colorir esse nosso porto que em seus versos também amou.

Cecília Vertamatti, São Bernardo do Campo

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O Teatro Amador em Santo André:

um trabalho de prospecção e desbravamento

Paschoalino Assumpção é membro do GIPEM (Grupo Independente de Pesquisadores da Memória do ABC), o que não é pouca coisa. A organização e a atuação do GIPEM são uma das mais interessantes experiências culturais de que já tive notícia. A reunião de pessoas sem outro objetivo que não o levantamento da memória de nossas cidades, em todos os seus aspectos, sem mediação de uma estrutura burocrática ou instituição oficial; uma livre organização de trabalho e de vontade, aliada à consciência do valor inestimável do registro da memória para as futuras gerações, transformou o GIPEM numa dessas instituições inovadoras que nascem e permanecem espontâneas, desafiando o tempo, produzindo resultados, derrubando o ceticismo dos que não crêem na capacidade de iniciativas independentes da burocracia oficial. O GIPEM não gerou estatutos, regras, normas de condutas, hierarquias. Gerou o hábito, a prática, o saudável costume de registrar o passado e, principalmente, a consciência do alto interesse social e cultural dessa ação.

É dentro desse pensamento e ação que a obra de Paschoalino Assumpção, O Teatro Amador em Santo André – a Sociedade de Cultura Artística (SCASA) e o Teatro de Alumínio (Alpharrabio Edições, 2000), se inscreve. O autor procedeu a um minucioso exame de antigas publicações na tentativa de estabelecer o momento inicial dos registros das atividades teatrais em nossa região, em especial, Santo André. Não se trata de uma obra de reflexão histórica nem foi essa a intenção do autor. É mais um trabalho de prospecção, de desbravamento, no qual Paschoalino lançou mão de antigos jornais e de sua memória, testemunha ativa que foi, para registrar momentos importantes da famosa SCASA, Sociedade de Cultura Artística de Santo André. Os registros de Paschoalino tornam-se importante material para futuros trabalhos de reflexão histórica sobre o surgimento e desenvolvimento do teatro na região do Grande ABC.

Luís Alberto de Abreu Dramaturgo e Roteirista

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A MEMÓRIA DO ABC NA PAUTA:
JOSÉ ARMANDO PEREIRA DA SILVA

ABECÊS entrevista José Armando Pereira da Silva, autor dos livros "O Teatro em Santo André – 1944-1978", 1991, "Província e Vanguarda", e "A Cena Brasileira em Santo André – 30 anos do Teatro Municipal", que acaba de sair, além de organizador do ainda inédito "Guido Poianas", o primeiro de uma série denominada "Pintores da Cidade", que pretende, em 4 volumes, historiar a vida e obra de pintores representativos de Santo André (além de Poianas, Paulo Chaves, João Suzuki e Os Acadêmicos), todos imprescindíveis para o estudo e resgate da história local.

Abecês: Os 21 anos em que o senhor viveu e esteve envolvido com atividades culturais em Santo André (1963-1984) foram de grande intensidade, já que renderam a publicação de vários livros sobre a memória local. Fale dessa sua relação de amor e compromisso com Santo André.

José Armando: Cheguei a Santo André no início de 1963, atraído por um chamado de José Paschoal Rossetti, que me acenava o ABC como a Canaã de empregos e oportunidades. Para um jovem recém-formado era convite sedutor. Rosseti, que eu conhecia de Poços de Caldas por sua atuação em literatura e jornalismo, já se metera de cabeça na sua nova cidade e trabalhava nas sucursais da Última Hora e do Estado, onde também estava Enock Sacramento, vindo de Minas com um livro de poesia na bagagem. E andava por essas bandas o meu amigo e conterrâneo Milton Andrade, fazendo teatro em São Caetano do Sul. Essas, as referências pessoais que me ancoraram inicialmente.

A vida, os interesses, os projetos eram marcados, naquele momento, pelas circunstâncias políticas, que repercutiam no campo cultural. Estávamos nos tempos de Jango Goulart e de suas confusas démarches em direção a um governo popular e de esquerda. As palavras de ordem eram a favor da classe trabalhadora, dos camponeses, pela reforma agrária, contra o imperialismo americano (fonte dos males) e uma enorme simpatia por Cuba e Fidel Castro (um exemplo), que ressoavam na literatura (os Violões de Rua), no Cinema Novo, no teatro (o Arena) e nos empolgavam de tal maneira que sentíamos muito próximo o Brasil socialista. Entre os movimentos de organização popular desse momento em Santo André destacavam-se o Sindicato dos Metalúrgicos, pelo lado político, e o Centro Popular de Cultura, que funcionava dentro do próprio Sindicato, pelo lado cultural. Isto já foi tratado com detalhes nos livros de Cândido Giraldes Vieitez e Thimoteo Camacho.

Enock, Rosseti e eu já havíamos conseguido uma página de literatura e arte no semanário News Seller, onde por um ano tentamos fazer um pouco de agitação cultural. Naquela época os meus interesses eram um tanto difusos (como, aliás, são até hoje), mas estavam mais direcionados ao cinema e alimentados por contatos com o pessoal da Cinemateca Brasileira. E isso me levou a dar um curso de cinema, por iniciativa do Centro Popular de Cultura, na Associação dos Universitários, na rua Oliveira Lima, que resultou na fundação do Núcleo de Estudos Cinematográficos, um cine-clube que funcionou com muitos ciclos, conferências e até ensaio de alguma produção, como descrevo em meu livro Província e Vanguarda.

Por essa época (e falo do pós-64), Nair Lacerda e Miller de Paiva e Silva se encontravam na Secretaria de Educação e Cultura, e passaram a apoiar essa iniciativa. Desejando ampliar a ação cultural para outras áreas criaram o primeiro Conselho Municipal de Cultura, na administração de Fioravante Zampol, com várias áreas representadas. Entre elas, Teatro (representado por Antônio Chiarelli), Artes Plásticas (Enock Sacramento), Literatura (Virgínia Pezzolo) e Cinema (por mim representado). Não se pode dizer que o Conselho tenha alterado o panorama cultural. Mas aproximou os produtores culturais da administração pública e possibilitou, mais à frente, o aparecimento de projetos duradouros e importantes, como foram o Salão de Arte Contemporânea e o Grupo Teatro da Cidade. Havia um imenso trabalho a fazer na área de educação, que, graças ao empenho de Nair Lacerda, foi completado pela organização e expansão da rede de bibliotecas públicas.

Minha atividade jornalística no News Seller e, depois, no Diário do Grande ABC aproximou-me do teatro e acabei me envolvendo diretamente tanto com os amadores como com os profissionais que se organizaram no Grupo Teatro da Cidade e depois na produtora Proa. Na direção da Federação Andreense de Teatro Amador penso que pude colaborar numa fase brilhante de grupos da região, cujas principais performances registrei no meu trabalho A Cena Brasileira em Santo André – 30 anos do Teatro Municipal. Digo da região, pois nesse meio tempo eu estava também na Escola de Teatro da Fundação das Artes de São Caetano, donde saíram importantes espetáculos. A vitalidade do teatro em Santo André ficou registrada em meu livro O Teatro em Santo André 1944-1978, onde percorro um caminho que vai dos amadores do Clube Atlético Rhodia até o Grupo Teatro da Cidade.

Para que isso tivesse acontecido foi muito importante o apoio do poder público. A administração pública não faz cultura, mas é importante que ela abra espaços, dê condições para o trabalho dos produtores culturais. Situação que não é e nunca foi pacífica, mas tem que ser por eles conquistada com obras de valor. Miller de Paiva e Silva foi uma figura determinante por um longo período, que vai até a administração Lincoln Grilo, fazendo a ligação dos produtores culturais com o poder público. Era um homem sensível, com diálogo, culto e aberto às inovações.

Abecês: Como o senhor avaliaria o movimento cultural na região hoje em relação à década de 60, quando exercia a crítica de cinema, teatro e artes plásticas no semanário News Seller e, posteriormente, no Diário do Grande ABC, período que é analisado com profundidade no seu livro "Província e Vanguarda"?

José Armando: Hoje encontramos condições muito diferentes daquela Secretaria de Cultura que conheci no início dos anos 60, com poucos funcionários e um espaço exíguo da Biblioteca, na rua Cel. Alfredo Flaquer, para as conferências e exibições de filmes. A cidade dispõe de um respeitável equipamento: teatros, bibliotecas, orquestra, museu, escolas de teatro e cinema, casas da Palavra e do Olhar, centros comunitários etc. Eu diria que isso representa a resposta da instituição pública à enorme evolução nesses últimos 30 anos, que se deve a uma vigorosa afluência cultural, com muita gente produzindo (poesia, teatro, artes plásticas, música, cinema, vídeo), com gente se profissionalizando (vide a expansão das escolas de comunicação e artes) e com o estabelecimento de veículos formais (jornais, revistas, editoras, livrarias), que fizeram de Santo André um pólo de referência.

Somos muitas vezes levados a cobrar da adminis-tração uma "política cultural", como a esperar suas diretrizes, esquecendo-nos que as manifestações culturais mais importantes são as que transgridem, que inovam, que não estão nos manuais. O que se deve cobrar do poder público é sensibilidade para reconhecer o criador como principal figura de seus espaços, pois só ele os justifica; é discernimento para saber da importância da atividade cultural e sensibilidade para estabelecer prioridades, distinguir valores, tomar riscos e abrir caminhos nos meandros sempre esterilizantes da burocracia."

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MEMORIAL:

Valdecirio Teles Veras

HELENY GUARIBA

Heleny Guariba (Bebedouro, 1941-1971?) não foi apenas uma diretora de teatro, mas era uma intelectual preocupada com o mundo político e, sobretudo, com o resgate da liberdade de expressão – uma revolucionária. Como ser humano, pelo olhar de Frei Betto, seu companheiro de lutas, era "De jeito alegre e cativante, pequena, arisca, bonita – beleza que a gente descobre e percebe que vem de dentro pra fora, enraizada no espírito ágil que lhe conservava, no corpo, o jeito de menina" ("Batismo de Sangue", 11ª edição, rev. e amp., Editora Casa Amarela – SP, 2000).

A obra de Heleny encontra-se esparsa, através de reflexões e artigos publicados em jornais dos anos 60. Tudo que fazia era pensado e direcionado para a conscientização política. Até hoje não se sabe se morreu nos porões das prisões da ditadura ou se "encantou". Nem seu sogro, um general aposentado, conseguiu descobrir. O certo é que amargou algum tempo em prisões e foi torturada.

Para alguns ela teria morrido após torturas e seu cadáver teria sido jogado no mar, em meados de 1971. O certo é que ela estava engajada num teatro mais político e sua proposta era de popularização e interiorização do teatro. Em 1964 formou-se em Filosofia, na USP, e no ano seguinte viajou à França onde permaneceu até 1967. Lá inscreveu-se em um curso de doutorado em Teatro, o que lhe possibilitou estágios em teatros franceses, principalmente o Theatre de La Cité, de Roger Planchon. Retornando ao Brasil, continuou lecionando na Escola de Arte Dramática onde aproximou-se de andreenses, seus alunos, encontrando a deixa para pôr em prática seu ideário de popularização e interiorização do teatro. Santo André era uma cidade operária, e havia também uma entidade representativa dos universitários, a Associação dos Universitários de Santo André, o que dava condições ideais para a criação de um movimento teatral semelhante ao desenvolvido por Planchon, em Lyon, cidade com características idênticas ao ABC. Daí nasceu seu amor à cidade de Santo André, campo favorável à conscientização política do povo através do teatro.

Surgiu, assim, o Grupo Teatro da Cidade, que tinha a alma e o sangue de Heleny. A primeira peça montada foi Jorge Dandi, de Moliére, coincidentemente uma das primeiras dirigidas por Planchon, em Lyon. Na época, conversando com Frei Betto, ela dizia ter fundado um grupo popular no ABC, referindo-se ao GTC. Através de um teatro popular, pensava no envolvimento político dos trabalhadores, esperando contar, para este mister, com a colaboração dos integrantes da AUSA que, segundo consta, não foram muito bem sucedidos na empreitada, pois o público para o teatro continuava sendo o estudantil. Sua atuação teatral não se resumia a Santo André; na capital, além do magistério universitário, trabalhou com Augusto Boal e Flávio Império, entre outros. Para aqueles que desejarem conhecer mais sobre Heleny recomendo a leitura de O Teatro em Santo André, de José Armando Pereira da Silva e Batismo de Sangue, de Frei Betto.

Pena que figuras como Heleny continuem no quase anonimato para a geração atual. Sua vida e obra precisam ser resgatadas. Heleny, hoje, é verdadeiramente uma personagem à busca de um autor. Quem se habilita?

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Alguns fragmentos do texto "Teatro e Comunicação", de Heleny Guariba, publicado no livro Teatro Paulista 1968 (Editora Gráfica Niamar Ltda, s/d), que documenta o movimento teatral em São Paulo no agitado ano de 1968, mostrando o elevado grau de preocupações estéticas, filosóficas e sociais da artista:

(...) Tem-se dito ser o Teatro um gênero em fase de superação na civilização contemporânea da imagem. Novas formas mais adequadas à comunicação de massa colocariam o teatro em aposentadoria. Tais afirmações, além de não se justificarem pela prática atual, implicam mesmo num total desconhecimento da técnica da comunicação teatral.

(...) Em termos da teoria da comunicação, ler um texto é apreender a mensagem codificada pelas estruturas lingüísticas. Entretanto, há uma possibilidade de formas variadas de comentário do receptor, porque a codificação da mensagem pelas estruturas lingüísticas põe o problema da redundância. A linguagem é redundante. Ela apenas expressa uma "quase objetivação" de nossa experiência que é produto da prática social global (...). A redundância da língua é que impossibilita falarmos de um pretenso conteúdo objetivo do texto. O texto transmite signos que são comentados pelos "interpretantes" do receptor. É este comentário, isto é, o conjunto de signos despertados pela mensagem, que confere um conteúdo ao texto, como um momento da experiência do receptor.

(...) A prática contemporânea produz novos sistemas de signos, novas formas ideológicas, ensaios de objetivação da prática, dos quais não podemos nos desprender. Este problema se exprime no teatro contemporâneo através da posição dominante da direção. O Gênero se renova pelas exigências da direção. Há o descompasso entre o avanço dessas exigências e o estado da dramaturgia. Vai ser comum em nossos dias o aparecimento de dramaturgos diretores de espetáculos. O diretor deve ainda construir o espetáculo. Nesta construção ele utiliza uma nova linguagem: a escritura cênica.

(...) a opção por um sistema de signos não é, como se pensa correntemente, uma opção de caráter estético e sim de caráter ideológico. O diretor, conscientemente ou não, escolhe dedicar o seu espetáculo a um determinado grupo ou mesmo faixa social. E é essa escolha que comanda em definitivo a construção do espetáculo. Isso se dá mesmo quando, ignorando o público, pretende exprimir apenas sua subjetividade, pois ela é situada social e ideologicamente e é sempre expressão das inquietações de um grupo.

O artista não tem a alternativa de se colocar no "além do ideológico"; sua única alternativa é decidir por repetir, ou interferir, no sistema ideológico de seu público.

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LIVROS FORA DO EIXO - NOTÍCIAS

Dalila Teles Veras

Pretendemos, nesta coluna que se inaugura no Abecês nº 5, comentar livros "fora do eixo", ou seja, simbolicamente representados por autores "fora do eixo" das capitais Rio-São Paulo. Mas não só, autores que também, discreta e silenciosamente, ainda que residindo nessas capitais, vêm construindo sua obra de filigranas delicadas e valiosas, mas indiferentes à moda ou a ditames de mercado (ou seja, "fora do eixo canônico e mercadológico"). Desejamos falar dessas vozes que raramente são encontráveis nos catálogos das megaeditoras ou nas prateleiras das megalivrarias ("fora", portanto, também delas), vozes universais mas desglobalizadas, desterritorializadas.

MINAS, HÁ SEMPRE MAIS

Sim, é de Minas, terra onde poeta pega de galho e sempre surpreende pelos bons frutos, que nos chegam as notícias dos poetas aqui destacados.

1) "Dançar o Nome" (Editora UFJF – Brasil, 2000) é o nome de uma antologia reunindo poemas de 3 poetas mineiros, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Edimilson de Almeida Pereira e Iacyr Anderson Freitas, todos de trajetória semelhante. Os três nasceram em 1963, os três são estudiosos das ciências das letras, todos possuem título de "mestre em literatura" e, juntos, participam há longos anos de várias estripulias poéticas, desde os tempos heróicos da chamada literatura marginal (segunda dentição – década de 80), quando o grupo editou o folheto "Abre Alas" e a revista "D´Lira". Terminam aí, no entanto, as coincidências e semelhanças. Daí pra frente falam individualmente suas respectivas obras.

"Dançar o Nome" é um livro de requintada concepção gráfica, acompanhado de um CD, no qual os poetas dizem seus poemas, acompanhados de fundo musical incidental apropriado.

Apesar de reunidos, é possível ouvir as respectivas dicções de cada um, enfoques e amálgamas diferentes. Num, o mito e o mundo do imaginário é a tônica (Fiorese), noutro a delicadeza do referencial literário e filosófico (Iacyr) e o mundo real a misturar-se a mitos religiosos de outro (Edimilson), o que faz desta obra uma deliciosa mostra de boa poesia, já inserida no universo da melhor poesia brasileira deste turbulento iniciar de século. Nesta dança de nomes, dança (no melhor sentido) a poesia.

Onde encontrar o volume? Sei não (como diria outro brasileiro, meu parceiro nordestino). Tente com um dos autores: Fernando Fábio Fiorese Furtado, R. Coronel Pacheco, 92 – 36025-210 – Juiz de Fora - MG

2) "Lentus in Umbra", de Andityas Soares de Moura, é um livrinho fininho (52 páginas) editado pelo próprio autor, lá em Barbacena, com projeto visual também do autor e distribuição idem. Não fosse a curiosidade em abri-lo, dado o amadorismo da capa, este seria mais um "livrinho" entre a enxurrada de outros "livrinhos" que nos chegam via correio e que pouco ou nada acrescentam à literatura brasileira. Neste caso, o invólucro escondia um poeta interessante, explicitamente ligado a referenciais trovadorescos, poetas latinos e toda sorte de clássicos, mas de curioso "sotaque pós-moderno", mistura que resultou em poemas como este: "Tomás de Aquino / toda prece / verdadeira termina / em um gozo inacessível / de / magnólias / torturar os gostos / séculos a fio / até que saibas / lamber com / a língua / laranjas nos laranjais / :o prazer / do dia / que se acaba".

Vocábulos latinos ("contrapunctus", "Spem in Alium", "epigrammata") são pincelados nos poemas de maneira tal que, do velho latim, surge a palavra nova, dando-se, assim, o estranhamento e o impacto saudável que todo bom poema provoca.

Se quiser saber mais, só mesmo com o autor, pois nenhuma livraria, acostumada ao delírio da cor e do milagre gráfico, aceitaria um livrinho assim magrela e com aquela tão... digamos assim, cara de trabalho escolar. Sorte de quem não se importar com esses detalhes visuais externos, que a poesia de Andityas dispensou. Rua Dr. Theobaldo Tollendal, 144 – Centro – 36200-010 – Barbacena – MG.

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A LITERATURA MORA AO LADO – DESDOBRAMENTOS

De tanto fazer água bater nos costados da comunidade do Grande ABC, eis que a literatura que por aqui nasce vai despertando interesses, transformando-os, finalmente, em ações concretas. Eis alguns momentos, no segundo semestre deste ano, em que os escritores locais deram as caras e as palavras para bater e debater:

A Cidade Escrita: Razões da Palavra

Dando seqüência à serie de encontros realizada no primeiro semestre deste ano (A Cidade Escrita: a literatura mora ao lado), uma parceria entre a Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer e a Alpharrabio Edições, está em andamento mais uma série de quatro encontros, coordenados pelo poeta Tarso de Melo, na Casa da Palavra, com depoimentos de autores que expõem sua motivação para escrever, aliando também a palavra cantada. Para o primeiro encontro, realizado em 12 de setembro, foram convidados os poetas Marcelo Montenegro (S.Caetano do Sul) e Cláudio Daniel (S.Paulo) além do músico André Calixto (Santo André). No segundo, dia 10 de outubro, o dramaturgo e roteirista de cinema Luís Alberto de Abreu (Ribeirão Pires) e o contista Marcelino Freire (S.Paulo), tiveram os seus depoimentos completados com a música de Luciano Garcez, de S.Bernardo do Campo. No encontro de novembro, os escritores Dalila Teles Veras, Cláudio Willer e o músico Lamartine Bueno e, em dezembro, comparecem os escritores Filadelfo P. de Souza e Caio Porfírio Carneiro e Davilson Assis Brasil (músico). Dessa forma, além de dialogar com o público presente, a literatura do Grande ABC também dialoga com a literatura vinda de todos os lugares.

No IMES – Centro Universitário

Em outubro, a professora Vilma Lemos, do curso de comunicação do IMES, convidou os escritores Valdecirio Teles Veras, Antonio Possidonio Sampaio e Dalila Teles Veras para uma conversa informal com duas classes (Jornalismo e Rádio e TV) sobre o projeto Imaginário (diários do ano de 1999) do qual esses autores participam. Esta foi, no dizer da professora – que há muito acompanha e se interessa pela produção literária local – uma introdução a um projeto de aproximação entre os alunos do IMES e a literatura do Grande ABC, a ser efetivamente concretizado no próximo ano letivo.

Na UNI-A – Centro Universitário de Santo André

Desta feita, foi a vez de Wagner Calmon comparecer à UNI-A para uma apresentação no curso da Terceira Fase da Vida. Antes, em 3 outros encontros, também falaram para as irrequietas, curiosas e sempre atentas alunas daquele curso, Dalila Teles Veras, Margarete Schiavinato, Jurema Barreto de Souza, Alexandre Takara, Marília Guimarães Pedrosa e Irineu Volpato.

Aliás, é interessante ressaltar que "as meninas e meninos" da terceira fase da vida descobriram, entre várias expressões artísticas, uma veia literária que não quer mais deixar de pulsar: só neste semestre, saíram de suas salas de aula, nada menos do que três livros; "Nunca é Tarde", uma coletânea com textos de nada menos do que 52 alunos, "Entre Papoulas e Trigais – Minha Aldeia, Minha Vida", uma narrativa em forma de memórias, de Leonor Domene Pedrão e "Retalhos em Poesia", de Anália Rangel dos Santos.

Na Fundação Santo André

Uma mesa-redonda com 10 autores do ABC encarregou-se de levar a uma platéia lotada uma leitura de textos seguida de um vibrante debate com alunos do curso de Letras daquela Instituição. O evento fez parte da Semana de Letras e contou com a participação dos escritores Dalila Teles Veras, Antonio Possidonio Sampaio, Tarso de Melo, Fabiano Calixto, Kleber Mantovani, Valdecirio Teles Veras, Sérgio Simka, ao lado de José Marinho do Nascimento e Luzia Machado Ribeiro de Noronha que, além de poetas, também são professores daquela instituição.

Na UMESP – Universidade Metodista de São Paulo

Durante todo o mês de novembro, por iniciativa da professora Sonia Galvão Gatto, coordenadora do curso de Letras da UMESP, que vem desenvolvendo um meritório e bem-vindo projeto de "memória literária do ABC", um pequeno exército de escritores do Grande ABC foi convidado a comparecer àquela instituição de ensino superior para, durante a I Jornada Literária do ABC, falar de seu trabalho aos alunos dos cursos de Letras e Pedagogia, no total de sete encontros. A jornada, iniciada no dia 5, justamente na abertura da Semana de Letras, prolonga-se por todo o mês, às segundas e quintas-feiras. Todos os gêneros literários serão abordados: poesia, conto, crônica, romance, diários e dramaturgia. Participam das atividades escritores de quase todas as 7 cidades do Grande ABC: Dalila Teles Veras, Tarso de Melo, Cláudio Feldman, Valdecirio Teles Veras, Antonio Possidonio Sampaio e Wagner Calmon, de Santo André; Kleber Mantovani e Guilherme Vidotto, de Mauá; Paulo Franco, de Rio Grande da Serra; Alexandre Takara, Irineu Volpato, Marília Guimarães Pedrosa e Teresinha Malta, de São Bernardo do Campo; Milton Andrade, Filadelfo de Souza e Gilberto Tadeu de Lima, de São Caetano do Sul.

Em Mauá

Numa parceria com a Secretaria de Educação e Cultura de Mauá, o projeto A Literatura Mora ao Lado foi a Mauá e vingou, uma vez que está sendo transformado em encontros permanentes: no primeiro encontro, realizado em setembro, na biblioteca Cecília Meireles, Dalila Teles Veras falou do projeto Imaginário (diários de 1999) e apresentou os convidados Marília Guimarães Pedrosa, Antonio Possidonio Sampaio e Valdecirio Teles Veras que também falaram de seus livros, integrantes desse projeto. Num segundo encontro, no Colégio Terezinha Sartori (Viscondão), Dalila falou sobre a importância da leitura, para alunos do curso de pedagogia.

O projeto A Literatura Mora ao Lado deverá prosseguir com encontros mensais em Mauá, coordenados pelo poeta Guilherme Vidotto, da Secretaria de Educação e Cultura de Mauá.

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A MAIS NOVA PROSA

Foi no último 20 de outubro, logo após uma pancada de chuva em meio à tarde do sábado, que chegou a Santo André uma breve caravana (na verdade, um único carro...) trazendo o que de melhor é produzido na prosa brasileira da atualidade. Pessoalmente, apenas quatro autores. Mas traziam na bagagem o suco das discussões que têm feito alguns apontarem até mesmo um novo boom do conto (em reedição ao dos anos 70).

Ivana de Arruda Leite, Luiz Roberto Guedes, Marçal Aquino e Marcelino Freire, estes os nomes dos ilustres visitantes. Os dois primeiros: Ivana, uma contista-revelação com um livro novo no forno e trazendo no curriculum uma entusiástica apresentação do cronista Mario Prata, que chega a situar seu primeiro livro, Histórias da mulher do fim do século (Hacker Ed., 1997), entre o que de melhor se produziu no gênero (pouco?); e Guedes, um poeta-trovador que se manifesta, entre outras formas, nas dimensões do conto, autor das peças que recheiam o poemário Calendário lunático (Ciência do Acidente, 2000), que leva sua palavras entre as trabalhosas línguas de Camões e Dante.

Os outros dois visitantes, não seria prematuro dizer que já são "grandes nomes" do conto entre nós (e olhe que o Brasil não tem poucas centenas de melhores contistas!). Marçal Aquino, jornalista e roteirista de cinema (do filme Ação entre amigos, por exemplo), leva, em seus rodapés, um prêmio Nestlé pelo livro As fomes de setembro (1991) e um Jabuti com a penúltima reunião de seus contos, O amor e outros objetos pontiagudos (Geração Editorial, 1999), e acaba de trazer à praça Faroestes (Ciência do Acidente, 2001): tensão social e maestria literária construindo "confrontos" monumentais. Marcelino Freire, pernambucano de origem, mora em São Paulo e, além das desleituras visuais que fez de provérbios em eraOdito (a ser relançado ainda este ano pela Ateliê Editorial), lançou seus contos nos livros AcRústico (1995) e Angu de sangue (Ateliê Editorial, 2000), que em menos de um ano arregimentou um já extenso cordão de entusiastas, liderado por um leitor do calibre de ninguém menos que seu prefaciador, João Alexandre Barbosa.

A idéia de trazer essa turma para a Conversa de Livraria (que ocorre mensalmente na Livraria Alpharrabio) surgiu no momento em que descobrimos que esses novos prosadores se reuniam aos sábados em São Paulo, na livraria-sede da Editora Hedra, em Pinheiros, para ler seus contos inéditos, trocar figurinhas, conversar sobre o percurso de cada um e de todos, girando sempre ao redor de uma dezena de participantes.

E este era, de fato, o melhor momento para trazê-los a Santo André. Momento em que Marçal acaba de lançar seus Faroestes, que o Angu de sangue de Marcelino ainda não esfriou, e especialmente porque acaba de vir à luz a antologia Geração 90 – manuscritos de computador (Boitempo Editorial, 2001), organizada por Nelson Oliveira (que infelizmente não pôde vir, mas que também acaba de publicar livro novo, O filho do crucificado), que apresenta contos inéditos de Marçal e Marcelino em meio a outros ótimos contistas que um dia ainda passarão por aqui, como Amilcar Bettega Barbosa e Altair Martins.

Eles já se foram de Santo André. Esperamos que sua passagem deixe a melhor marca, que seus livros plantem por aqui o imprescindível diálogo para o qual a Livraria Alpharrabio imagina ter contribuído com um voluntarioso pontapé inicial. (TM)

* Leia, abaixo, contos inéditos de Ivana de Arruda Leite e Luiz Roberto Guedes, gentilmente cedidos ao ABECÊS. Para conhecer contos de Marçal Aquino e Marcelino Freire, procure a antologia Geração 90 — manuscritos de computador (org. Nelson de Oliveira, Boitempo Editorial, 2001, 264 pp.), à venda na Livraria Alpharrabio por R$ 26,00.

 


SOBRAS DO DIA

O sujeito sujo e esfarrapado sentou-se à porta da lanchonete com seu saco de estopa e um caixote de madeira. O gerente da casa apressou-se em despachá-lo. Fazia parte de sua rotina:

a) impedir que vendedores ambulantes incomodem os clientes

b) botar porta afora crianças de rua que venham pedir "tio, me paga um lanche"

c) e quando qualquer miserável vier catar e comer restos do lixo empilhado na calçada, berrar da porta, "Ei! Você não pode comer aí não!".

Veio enxotar mais este. O fulano nem lhe deu atenção. Ficou por ali, alheio. Baixote, escuro, cabeça raspada. Parecia egresso de um manicômio. Falava sozinho, dirigia discursos desconexos a ninguém. De quando em quando, sacava do saco um espelhinho de mão e estudava o próprio rosto, fazendo caretas, arreganhando dentes amarelados. Pouco depois, exibiu um talento especial. Envolveu um pente de plástico num pedaço de celofane e soprou Carinhoso, de Pixinguinha, nesse instrumento improvisado. Executou a peça com todas as notas, numa surdina tão delicada, que impressionou a todos, passantes e comerciantes. Aquilo divertiu o gerente. Autorizou balconistas e garçonetes a dar ao homem, no fim da noite, as sobras do dia.

Tendo forrado o estômago com esfihas, kibes e coxinhas, ele manifestava sua satisfação através da música. Imitando um trombone com a boca, sincopava chorinhos, marchas-rancho, o hino de um time de futebol. Ou ressoava o rádio ligado na lanchonete, macaqueando a falação frenética dos locutores, fragmentos de canções num inglês macarrônico. Fazia seu caixote de atabaque, e jorrava um rock selvagem da garganta, rugindo uma guitarra distorcida. Ganhou então o apelido de Rádio — e consolidou sua condição de pária de estimação da casa. Em pouco tempo, até os motoristas de ônibus, parando no cruzamento da avenida, sorriam ao ouvir o trombone melodioso sobrepujar motores e buzinas. Revérbero de todos os sons, Rádio atualizava continuamente seu repertório. Deu de soltar um "aaaai" agudíssimo, dolorido como de criança prestes a rebentar no choro, tão prolongado que espantava os transeuntes, até que, no pico do grito, cantava em tremolo: "amoooor"...

O povo ria, reconhecendo o refrão de um hit sertanejo do momento. Uma vez, Rádio quase teve seu minuto de celebridade. Um repórter de telejornal tentou entrevistá-lo para uma matéria sobre personagens curiosos da cidade. Mas Rádio emitiu somente solfejos, clarinadas, grunhidos de guitarra e frases soltas, "estaéasuarrrádiorrrock!". O gerente e sua equipe assistiram com prazer a esse pequeno sucesso de Rádio.

Adotado pela vizinhança, ele costumava cruzar a avenida aos saltos, para ir ganhar um mimo do vendedor de castanhas de caju e amendoim torrado. Certa tarde, trincando amendoins na outra calçada, viu um gari recolher seu caixote e seu saco de estopa da porta da lanchonete. Aflito, atirou-se entre os carros. Atingido por um automóvel, ricocheteou em outro, sofreu um terceiro impacto, descreveu um giro no ar e estatelou-se no asfalto. Camelôs interromperam o trânsito, fizeram um cordão de isolamento em torno dele. Garçonetes e balconistas correram para fora. Rádio gemia, sangue na boca, sangue formando uma poça sob sua cabeça.

Não mexam nele, o gerente advertiu, e chamou a PM pelo celular.

A ambulância chegou uivando. Paramédicos agiram com rapidez: ajustaram o colar cervical no pescoço, botaram na maca, embarcaram o acidentado.

A ambulância arrancou velozmente avenida abaixo. A bordo, Rádio esgoelava o lamento da sirene.

Luiz Roberto Guedes

   
 


O CARRO DE TONINHA

Toninha quis comprar um carro, foi lá e comprou. O que guardou do salário de faxineira deu certinho pra comprar um fusquinha 68. Vermelho? Bordô? Roxo? Um pouco de cada. Eram muitas as cores, as marcas de batida, capotamento, ferrugem. Medalhas conquistadas ao longo de muitos anos. Um carro com história visível, inscrita na lataria.

Feliz da vida, Toninha voltou para casa de carro novo. Ela, no banco do passageiro, o marido dirigindo. Toninha nunca teve cabeça pra tirar carta. E além do mais era analfabeta. Mas obrigava o marido a levá-la para onde quisesse. Supermercado, Santos, feira, casa da sogra, tudo de carro. Toninha indicava o caminho e o marido guiava, de saco cheio. Mas ela era A Dona do carro, podia mandar em ambos.

Um dia o marido sumiu de casa com o carro de Toninha. Três dias, quatro e nada de notícia. No emprego, disseram que ele estava de férias. "Eu mato esse desgraçado, andando por aí com o meu carro e, provavelmente, com uma vagabunda dentro".

Toninha foi à delegacia e deu parte. Não do sumiço do marido, mas do roubo do carro. "Um carro como esse é fácil de achar", lhe disse o delegado. E foi mesmo. No dia seguinte, o marido foi encontrado na Praia Grande. Voltou puto da vida.

– Porra, você nem dirige, pra que quer esta bosta de carro?

– Não dirijo, mas quero o carro parado aí na porta, pra enfeitar. Vou encher ele de samambaia.

O marido foi embora a pé. Maria Luísa o esperava no ponto do ônibus. O carro foi devorado pelas samambaias. Acabou apodrecendo dentro delas, feito um xaxim.

Ivana de Arruda Leite

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A PALAVRA INÉDITA

       


Do amor como possibilidade

Entardece
no macerar desejos
:
o amor sonhado

Anoitece
nos corpos-amálgama
:
o amor possível

 

Devaneio

Um beijo automático
(amorantigo)
a lembrar outro beijo
sabor a chegada
(amorardente)
como só pode mesmo ser
um amor em começo

   
   


Dalila Teles Veras, do livro "POESIAquaseTODA", a sair pela Alpharrabio Edições

   

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ABECÊS é uma publicação da Alpharrabio Edições e conta com a parceria cultural da Gráfica Bartira e da revista virtual Loquens - 4º trimestre de 2001 · Editora executiva: Dalila Teles Veras · Editores: Antonio Possidonio Sampaio, Rosana Chrispim, Tarso de Melo, Valdecirio Teles Veras · Projeto Gráfico e Editoração: Isabela A. T. Veras · Capa sobre tela de Sarah Affonso: Retrato de Senhora · Jornalista Responsável: Rosana Chrispim MTb 16.651 · Redação: Rua Eduardo Monteiro, 151 – Santo André – Fone: 4438-4358 Fax: 4992-5225 – e-mail: alpha@canbrasnet.com.br

 
       
   

 
 


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Abecês 4