O Rumor das Imagens
Roger Bastide talvez não
suspeitasse, à época de seus estudos sobre "a
incorporação da poesia africana à poesia
brasileira", que a conversa iria tão longe.
Ainda hoje parece precisa a palavra
"incorporação" para falar dos
desdobramentos que tais relações sofreram desde
aquele 1940 em que o professor francês se situava,
pois não têm sido menos bem sucedidas as
experiências que encontramos de lá para cá.
Traduções, ensaios, poemas de certa inspiração
africana, em meio a uma riqueza de diálogos, de
confluência de vozes, forças, contribuindo
decisivamente na proliferação daquelas "novas
formas, que" na análise de Bastide
"ainda nem pressentimos hoje, mas, em
todo caso, a obra de transfusão está terminada; o
sangue do homem de cor já corre nas veias da poesia
do Brasil". Aqui, então, um dos resultados
dessa transfusão.
Trívio (Belo Horizonte:
Scriptum, 2001), do poeta mineiro Ricardo Aleixo, é
um livro de convergência de vozes, sangues, poesias,
e de cara cuida o poeta de circunscrever a dimensão
da palavra-título, entre as que o dicionário
oferece, à acepção de "reunião de três
caminhos". E certamente é um daqueles livros de
que o leitor se aproxima com certo temor das
referências, todas profundamente convertidas na fala
que o poeta cria para seus textos o temor do
leitor, exatamente nesse ponto, é o de não
distinguir quais os caminhos a que o poeta se refere,
e perder-se na "selva selvagem" de seus
recursos verbais, visuais etc.
A poesia africana, no caso de
Aleixo, vale ressalvar, é a dos cantos rituais
próprios do culto aos orixás (bastante estudados e
traduzidos, entre nós, nos últimos tempos, pelo
poeta e ensaísta baiano Antonio Risério, autor
também voltado ao diálogo com a poesia concreta), e
a ela o poeta de Trívio se dedica há algum
tempo, notadamente em seu livro anterior, que, não
por menos, chama-se Orikis (1996), sem deixar
jamais de tecê-la com as linhas da experiência
poética recente, em boa parte firmado naquela cujo
expoente, entre nós, é Augusto de Campos a
quem, aliás, o livro é dedicado.
A exploração da visualidade das
palavras, dos espaços da página, ao redor e entre
as palavras, uma orquestração que potencializa até
mesmo a tipologia escolhida para poemas aparentemente
"verbais", multiplicando seus sentidos
isso tudo Aleixo pode ter aprendido ao
contemplar a "despoesia" de Augusto de
Campos. Mas há ainda outra importante sugestão,
dada pelo próprio poeta, que pode ajudar a abrir
mais algumas portas de Trívio: a idéia de
uma arte da poesia que seja "construir sobre
ruínas", inscrição que surge na página para
compor algo chamado, não por acaso,
"Poética".
Logo após sua
"Poética", num outro gesto de abertura ao
leitor, em "Para uma eventual conversa sobre
poesia com o fiscal de rendas", Aleixo relaciona
os elementos constitutivos dessa massa de destroços,
dessas ruínas sobre as quais escreve poesia: fortuna
pessoal, bens, patrimônio, propriedade e sua
lista vai da "própria língua" à
"própria idade", levando consigo o
fígado, a clavícula, os dentes e as têmporas do
poeta, junto a elementos menos concretos, como seu
"próprio negro". E assim segue sua
construção sobre ruínas. Provavelmente aquilo que
Leminski chamou de "ruinograma", uma
escritura cuja atenção, segundo o poeta paranaense,
reside no "erro, claro, não na lei". Do
mesmo modo, Aleixo observa o desvio, o atalho, o
caminho "outro", e sua poesia mostra-se
todo o tempo hesitando entre a representação do som
e a da imagem das coisas como um rico
deslocamento daquela célebre hesitação a que se
referiu Valéry daí surgindo uma poesia que
é dança, encontro de corpo e música. Lembre-se,
novamente, o sociólogo que apontou, como marca
daquela incorporação da poesia africana à
brasileira, algumas "sílabas noturnas, ruídos
surdos do sangue nas artérias".
Entre os tantos caminhos que
sugere, Trívio escolhe seguir, com muita
firmeza, o traço da enigmática epígrafe de Lezama
Lima: "vi lo que no vi", levando os poemas
de Aleixo a diálogos algo imprevisíveis (e bem
sucedidos) no contexto da poesia atual, como um
"radical a partir de si mesmo", na
expressão de Sebastião Uchoa Leite.
De fato, diante de livros como Trívio,
é arriscado incidir nos problemas do "New old
criticism" de que o poeta fala ("para os
amigos, / resenhas laudatórias", "para os
outros, / releases e orelhas..."). Mas
não sou amigo de Ricardo Aleixo, e posso trilhar,
tranqüilo, em "duas laudas / com trinta linhas
de setenta / e dois toques cada", minha
boquiaberta senda de elogios de que seu livro
pode prescindir.
***
NA
PRAÇA: na mesma prateleira em que se
encontra agora Trívio de
Ricardo Aleixo, o leitor poderá deparar-se com uma
infinidade de lançamentos do ano de 2001. De prosa
à poesia, da tradução à biografia, suspeito (pois
ainda não vi as estatísticas!) que o ano passado
foi um dos mais abastados no mercado (e no
submercado...) editorial brasileiro. Não que isso
queira dizer muita coisa para a literatura. Mas
sempre há presenças louváveis e, apenas nos
últimos meses de 2001, podemos destacar várias.
§§§ O poeta Ronald
Polito passa a integrar a coleção dedicada à
poesia brasileira contemporânea Janela do Caos, da
Nankin Editorial, com seu quarto livro de poemas, De
passagem (SP: Nankin, 2001), e
reafirma alguns traços centrais de sua poética,
exemplarmente aquele destacado por uma resenha de
Alécio Cunha: "A seiva bruta de
seus textos é terra desolada, desértico estado de
coisas onde o ser está sempre à deriva, derrapando,
rarefeito, num paradoxo entre o frágil e o forte".
§§§ Reynaldo Damazio
lança-se como poeta em livro com Nu
entre nuvens (SP: Ciência do
Acidente, 2001). Com esse primeiro livro, ao lado de
sua intensa atuação crítica e na animação
cultural, como a do projeto Poetas na Biblioteca do
Memorial da América Latina, Reynaldo Damazio acena
para uma poética que, como a palavra amor num poema,
"sobrevive intransitiva / em estado bruto de
conceito / esqueleto de semântica / oca de
metáforas / sem nada a oferecer / senão a exígua
lembrança / do Paraíso Perdido". §§§ E por falar no
projeto literário desenvolvido na Biblioteca do
Memorial, em São Paulo, acaba de ser lançado Poetas
na Biblioteca: antologia (SP:
Fundação Memorial da América Latina, 2001),
reunindo os vinte primeiros poetas a participar das
leituras e debates que ocorrem desde agosto de 1999.
O livro apresenta uma seleção de poemas de
brasileiros como Horácio Costa, Roberto Piva,
Claudio Daniel e outros, além das presenças
internacionais de Reynaldo Jiménez e Douglas
Messerli. §§§ O carioca
Carlito Azevedo acaba de lançar Sublunar
(RJ: 7Letras, 2001), em que reúne sua
produção poética até então. Ou seja, seus quatro
livros. Carlito optou por organizar sua "obra
completa" tematicamente (à maneira da Antologia
Poética de Drummond), e assim
constituiu, para Silviano Santiago, algo que "materializa
o poeta como a mais fascinante figura da geração
literária que despontou na década de 1990".
Mas Carlito parece não se abalar com tais rasgados
elogios, e anota, na porta do livro, que apenas
escolheu, entre seus poemas, "aqueles
que melhor me iludem com a impressão de que
[...] entre o inútil do fazer e o
inútil do não-fazer, alguma vez escolhi com
felicidade o inútil do fazer",
como um bom (e destacado) aluno de João Cabral. §§§ "A
poesia que temos agora é tanto uma poesia de
confronto, porque a percepção lhe abastece a
linguagem, quanto uma poesia de desolamento, na qual
a força da imagem expulsa o presente percebido em
favor da experiência da recordação"
assim Benedito Nunes entrega aos leitores o
novo livro de Fernando Paixão, Poeira
(SP: Ed. 34, 2001). O poeta, nascido em Portugal e
vivendo no Brasil desde a infância, mais que
recordar imagens originais da pequena aldeia em que
nasceu, encontra nesse novo livro, entre "pedras
na sombra" e "envelopes em bolhas de
silêncio", um interessante caminho
(luso-brasileiro?) para sua poesia. §§§
Outro lançamento recente é a biografia do poeta
Ferreira Gullar na coleção Perfis do Rio. De
autoria do jornalista George Moura, Ferreira
Gullar: entre o espanto e o poema
(RJ: Relume Dumará, 2001) relata de forma sucinta os
mais de 70 anos do poeta maranhense (que está numa
coleção dedicada a cariocas em razão de viver no
Rio de Janeiro desde a década de 50), com ênfase no
período ditatorial, exílio, abertura etc., mas
sempre tocando os limites (e até mesmo os
bastidores) da criação poética, constituindo,
assim, uma interessante contribuição à
bibliografia sobre Gullar. §§§ Há alguns anos
Haroldo de Campos lançava sua
"transcriação" do primeiro canto da Ilíada
e seus leitores (e também os simples detratores) já
imaginavam que, apesar do belo texto resultante,
tratava-se de mais uma experiência concretista de
tradução por amostragem. Logo depois, veio à luz o
segundo canto do mesmo poema homérico na versão
haroldiana, mas não era o suficiente para inverter a
imagem inicial. Agora, todo esse travo foi por água
abaixo com o volume 1 de Ilíada de
Homero (SP: Mandarim, 2001), em que
Haroldo reúne, numa bem cuidada edição bilíngüe
grego-português, a cargo do Prof. Trajano Vieira, os
extensos doze primeiros cantos do poema. Um grande
trabalho. A promessa, numa nota de Haroldo na
abertura do volume de quase 500 páginas, é de que
um segundo volume traga, em breve, os restantes doze
cantos do poema, dos quais o tradutor anuncia já ter
traduzido mais da metade. Soma-se agora, à já rica
e extensa obra tradutória do poeta Haroldo de Campos
(que vai de Mallarmé a Joyce, do Teatro Nô à
Bíblia), outra realização grandiosa e digna do
meio século que Haroldo tem dedicado à poesia.
T.M.
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