EDITORIAL

Abecês: Ano 2.
Alpharrabio: Ano 10.

O Abecês entra no ano 2002 recheado com muita literatura e conversas literárias, diálogos em várias direções, trocas. Páginas viradas da história, as histórias das muitas lutas de uma década são, entretanto, já história e merecem comemorações. Fisicamente o Alpharrabio da Rua Eduardo Monteiro, em Santo André, passa por uma grande reforma, ampliação necessária para abrigar as manifestações várias e propiciar maior conforto aos usuários, clientes da livraria. Notícias dessas e de outras atitudes/atividades poderão, a partir de agora, ser encontradas em sítio próprio (www.alpharrabio.com.br). A consulta, a opinião, o pedido, a interatividade virtual, do papel para a tela e vice-versa. A utopia da página impressa, no entanto, permanece, agora agregada a uma ferramenta moderna, infovia imprescindível nestes tempos velozes. O Abecês é do leitor. Agregue-se a ele, interaja, apodere-se de seu espaço. Agora, da região do Grande ABC para o mundo e do mundo para o Grande ABC. Que o ano nos seja leve e profícuo, de PAZ.

Saudações.com.2002.

Dalila Teles Veras

   
 


Sumario:

<> Editorial
<>
Palavra do Leitor,
<>
Eu, Leitor, Confesso, por Constança Lucas
<> O que eu estou lendo, por Antonio Petrin, Alexandre Takara e Eliana Borges
<>
O que eu estou escrevendo, por Isaias Pessoti
<> Lesa-Palavra, por Tarso de Melo
<>Encontrovérsia: o salutar hábito da controvérsia praticado há 21 anos
<> Alternâncias Ficcionadas, por Caio Porfírio Carneiro
<> Memorial: Jorge Amado e Santo André, por Valdecírio Teles Veras
<> "Um Livro a Seis Mãos", resenha de Um Mundo Só para Cada Par, por Rodrigo Petronio
<> Livros Fora do Eixo - Notícias, por Dalila Teles Veras
<> Leitura de "Inventor de Paisagens" de Milton Andrade, por Guilherme Vidotto
<> Sondagem de aluvião: Maravilta e a poética de garimpagem, por Ronaldo Cagiano
<> A Palavra Inédita, por Wagner Calmon Ferreira

   
 

PALAVRA

DO

LEITOR

Por E-mail

"Recebi o Abecês pelo correio. Está um primor! Parabéns."

Soares Feitosa (Fortaleza, CE)


"Amei ter recebido o "Abecês". Material de primeira, gente nova e boa no pedaço. Acho importante sua preocupação com a memória, com a leitura, o informativo. Coisas que aprendemos, graças a Deus, muito bem em nosso tempo meio marginalóide. Naquele tempo era impossível encontrar algo como o "Abecês", o primo milionário de nossos mimeografados. É isso. Gostei de tudo, meu respeito aumenta e fico por aqui relendo o "devaneio", poema maravilhoso."

Luiz Avelima (S.Paulo – Capital)


"Jornal-boletim - jortim? bolnal? - bonito, informativo, atraente. Papel reciclado, é? Abraços"

Cláudio Willer (São Paulo, Capital)


"Quero agradecer-lhe o envio do seu Abecês. É sempre bom ver mobilização em torno da literatura contemporânea, brasileira, sobretudo. Em dezembro lançamos Rodapé, uma revista dedicada à crítica de literatura brasileira contemporânea (em falta - para ser otimista – há pelo menos 30 anos) e que, finalmente, depois de dois longos anos, vem a público. Para o ano que vem espero lançar uma noveleta, cujos originais já foram deixados com a agente literária. Agora é torcer e esperar. Cordialmente,

Airton Paschoa" (São Paulo, Capital)

N.R.: A revista Rodapé já saiu e está ótima.


"Sou economista da Subseção DIEESE no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, e mestre em Regionalidade e Gestão pelo IMES. Infelizmente, até há pouco não conhecia o belo trabalho da Livraria Alpharrabio, para estimular produção dos escritores do Grande ABC. Vim a ter um primeiro contato com a Livraria após palestra da Sra. Dalila Veras, no IMES. Por isto, gostaria de saber se poderia ter acesso a uma listagem das publicações já editadas pela livraria. Agradeço antecipadamente,

Jefferson José da Conceição" (São Bernardo do Campo, SP)


"Apresso-me em acusar o recebimento de ABECÊS, agradecendo o carinho e a generosidade da referência elogiosa à antologia DANÇAR O NOME. É sempre uma honra e um prazer estar incluído numa publicação tão bem elaborada. Muito obrigado de todo o meu coração!!! Parabéns pela versão virtual do ABECÊS n. 5. Estarei divulgando entre os amigos internautas."

Fernando Fiorese (Juiz de Fora – MG)


"Venho agradecer os exemplares do mais recente ABECÊS, dando conta de nossa ‘caravana’ (com Ivana Arruda Leite, Marçal Aquino e Marcelino Freire) a Santo André, pra uma agradabilíssima Conversa de Livraria na Alpharrabio. Fico sinceramente comovido com a dedicação de vocês à ‘luta literária’ em nosso contexto tão adverso ao ‘pão do espírito’. Acredite que ser publicado no ABECÊS é uma honra e um grande prazer para mim, ainda mais, ao lado dessa portentosa escritora, a "terrível" Ivana Arruda Leite. De resto, gostaria de ver publicadas, sempre que possível, outras fotos de Luzia Maninha enfocando as inscrições rupestres da Serra da Capivara, Piauí. Meus genes índios ficam extasiados com esses pictogramas. Grande abraço e boa luta!"

Luiz Roberto Guedes (São Paulo, Capital)


"Parabéns pelo Abecês eletrônico. Ficou muito bonito. Muito bem feito. Gostei mesmo. Até melhor que a versão papel, mais cores etc. Parabéns e o abraço do

Kleber Mantovani" (Mauá-SP)


"Passei parte desta manhã com vocês, e está sendo muito bom. Que energia pulsa destes ABECÊS! Nesta semana recebi a edição de papel. Coisa boa ler no velho papel, poder riscar, dobrar, recortar, deixar amarelar na caixa dos "textos imperdíveis". Mas tenho que reconhecer que a edição virtual é também fantástica. Poder ler todos os ABECÊS, de uma só vez, na ordem que me dá na cabeça, é também maravilhoso."

Edival Perrini (Curitiba, PR)


"Muito obrigado pela informação sobre o Abecês virtual. Serei um leitor assíduo. Um abraço

Manuel Carvalho" (Canadá)


Impressa, envelopada e selada

"Grato por Abecês. De repente 16 páginas, e que papel! Tenho certeza que matéria, para cumprir as páginas projetadas, nunca faltará. Acho que somente nossa população não quer ver que gente (e quanta!) que escreve muito bem no ABC (aliás ainda estou falando como se continuasse aí. Saibo do cachimbo). Parabéns e obrigado."

Irineu Volpato (Santa Bárbara d´Oeste, SP)


TEM VIDA INTELIGENTE

NO ABC.

ABECÊS É PROVA DISTO.

ALPHARRABIANOS

SALVARÃO

PLANETA TERRA.

saudações

JUAREIZ CORREYA (Palmares, PE)


"O novo ABECÊS está com feição de um Suplemento Cultural leve e arejado. Aqui lhe envio alguns HAIKAI. O que aprecio acima de tudo é estar com vocês, ser partícipe desse clima de otimismo e confiança que transparece no que empreendem e dizem. Coisa boa."

Maria José Giglio (Casa do Escritor – São Roque, SP)

voltar

   
 


EU, LEITOR, CONFESSO

Ler e reler - Inventar no inventado

Inventar no inventado, lembram-me do poeta e professor Vitorino Nemésio. Encontrei-me com ele algumas vezes na televisão portuguesa quando eu era bem pequena. Lá, sentada na frente da TV, ouvia-o, a imagem a preto e branco cheia de gestos fantásticos e olhares marotos, ele contava histórias da literatura, da história da humanidade e algumas vezes lembro-me de ele falar em poesia com umas palavras tão especiais que me marcaram para sempre.
 

desenho de Constança Lucas

Lia romances, aventuras dos cinco, dos sete e das baleias e de tudo o que aparecia na frente. Assim, depois nos meus 12, 13 anos, a poesia começou a ser parte integrante das minhas leituras que aconteciam pelo prazer. Lia sentida, bebia cada palavra com paixão numa embriaguez doce de palavras e sentimentos, lia sem grande critério, mas sempre quando me apetecia sem censuras. Borges dizia que ler é ler sem se importar com o quê. Com o tempo aprendemos a selecionar e a escolher, mas o importante é o prazer na leitura, sempre me pareceu a melhor forma de ver a leitura.

Somos resultado das leituras que fazemos e dos recursos anteriores de criação, neles fazemos as nossas invenções que nos levam por caminhos de palavras amadurecidas apanhadas como se fossem deliciosos frutos.

A leitura faz-se num saborear de paladares e odores, de sentires e dores, é uma companhia repartida e sempre presente. Recriamos os textos e imagens que lemos e relemos com o passar dos anos e assim fazem parte das nossas vidas como o afeto dos amigos.

Sempre me fascinei ao folhear alguns livros de arte que havia em casa dos meus pais, alguns em alemão ou inglês, mas o importante era as fotografias de pinturas e gravuras, o meu primeiro contato com Goya, Velasquez, Renoir, Delacroix, foi através desses livros que o meu pai tinha na estante do escritório dele em nossa casa, à qual tinha acesso livre, e hoje estão comigo quase todos. O impacto que produziu dentro de mim só é igual ao que hoje tenho ao criar um poema ou uma pintura.

A minha casa e o meu atelier têm grande parte dos seus espaços ocupados por livros que amo e convivo e sem os quais seria mais triste viver. Não imagino o meu mundo sem um pedaço de papel para desenhar, para escrever e para ler.

Constança Lucas - artista plástica

voltar

   
 


O QUE ESTOU LENDO

Antonio Petrin, ator

Estou relendo "As Vinhas da Ira", do John Steinbeck, um clássico que li há tempos e que agora ganhou outra dimensão, uma vez que à época a minha consciência social não era tão aguda como hoje. Poucos autores americanos fazem uma denúncia social com tamanha pungência e competência como o faz Steinbeck que mostra, inclusive, um espírito de desenvolvimento nos EUA já naquela época (1939), mas também que aquele país que viria a ser tão poderoso teve problemas semelhantes aos nossos atuais. Esta edição recente da Editora Record vem com uma ótima tradução de Herbert Caro e Ernesto Vinhaes, o que redobra o prazer da leitura.

Leio ainda, com prazer, uma excelente biografia de Shakespeare, ("Shakespeare – Uma Vida", de Park Honan, Cia. da Letras, 558 pgs.), elaborada a partir de pesquisa feita através das próprias obras e documentos de época e que reúne tudo que se conseguiu saber até hoje sobre Shakespeare. Um livro mais ligado à minha atividade profissional.

 

Alexandre Takara, professor da UMESP, atualmente ocupa o cargo de Secretário Adjunto de Cultura de Santo André.

Estou escrevendo um trabalho acadêmico sobre a história do maniqueísmo e essa história se confunde com a história da humanidade, estando muito presente nas religiões e na mitologia. Dessa forma, eu me vi obrigado a muitas releituras como o Velho e o Novo Testamento, nos quais há referências ao maniqueísmo (a luta entre e o bem e o mal, o céu e o inferno). Acabo de reler a peça Antígona, de Sófocles (442 a.C.), numa edição antiga sobre teatro grego, da Editora Clássicos Jackson, vol. 22, s/d, tradução de J. P. de Melo e Souza.

Antígona, a personagem, é filha de Édipo Rei e tem 2 irmãos, Polínice e Etéocles. Com a morte do pai, ambos os irmãos disputam o trono. Etéocles expulsa o irmão e se torna rei. Polínice se exila e consegue o apoio de um exército estrangeiro para voltar à sua cidade, Tebas, a fim de conquistar o poder. Há uma grande batalha e a vitória é de Etéocles. O exército estrangeiro foge e os irmãos se engalfinham numa luta, vindo ambos a morrer. Creonte, o tio, torna-se rei e decide que os dois cadáveres terão tratamento diferente. Por defender a cidade, Etéocles será enterrado com todas as honras. Polínice, considerado traidor, será execrado e seu corpo será insepulto e entregue aos corvos. Para os gregos não havia desgraça e humilhação pior que ser assim tratado depois de morto. O rei decreta que ninguém ouse sepultar o cadáver maldito pois será condenado à morte. Antígona não admite que o irmão seja pasto para os abutres e fica dividida entre duas fidelidades, à pátria vitoriosa ou ao irmão. Sem hesitar, opta pelo irmão e enterra o cadáver. Esse gesto é tido como solidariedade a um traidor da pátria e um ato de desobediência ao Estado e Antígona é condenada à morte. Eu vejo aí a questão do maniqueísmo, a luta entre o bem e o mal. Trata-se de uma tragédia, um clássico de um importante poeta grego, que sempre merece ser lida.

 

Eliana Borges, advogada, professora, diretora da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo

Leio no momento "Tempo de Transcendência – O ser humano como um projeto infinito" (Editora Sextante, RJ, 2000) de Leonardo Boff, um autor brasileiro conhecido por suas idéias acerca da chamada teologia da libertação, e que, após seu afastamento da ordem franciscana, passou a publicar textos mais acessíveis ao grande público, em abordagens ecológicas e sobre temas de interesse geral.

O enfoque desta obra é a vocação do ser humano para a sua própria transcendência. Para exemplificar, o autor cita, entre outras situações, uma lenda indígena que fala de um casal que vivia no paraíso, à maneira de Adão e Eva. Os personagens viviam em um paraíso e eram imortais, mas sofriam proibições. Se pescassem e comessem determinado peixe perderiam a imortalidade. Mesmo sabendo das punições e de que não mais seriam imortais, resolvem transgredir para transcender aquela sua realidade.

voltar

   
 


O QUE ESTOU ESCREVENDO

- Isaias Pessotti – Nascido em
São Bernardo do Campo, SP,
professor, cientista e escritor.
Formado em Filosofia pela
Universidade de São Paulo,
lecionou em instituições como a
Universidade de Brasília (UnB),
Faculdade de Medicina de
RibeirãoPreto (USP) e Universidades de
Pádua e de Milão, na Itália.

Nos últimos anos foi professor titular de Metodologia Científica em Psicologia, na Universidade de Urbino, Itália. Estreou na literatura em 1993 com o romance Aqueles Cães Malditos de Arquelau, vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Romance do Ano e Livro do Ano pela Câmara Brasileira do Livro, ao qual seguiram-se O Manuscrito de Mediavilla, em 1995, e A Lua da Verdade, em 1997, todos pela Editora 34. Em todos eles o autor imprimiu sua marca pessoal de erudição mesclada a ingredientes saborosos como gastronomia, arte e história que, aliados a outros ingredientes e à poderosa narrativa, fizeram um enorme sucesso de público. O seu trabalho científico também está publicado em inúmeros volumes, como A Loucura e as Épocas (Ed. 34, 1994) e O Século dos Manicômios (Ed. 34, 1996) e, ainda sobre o conceito da loucura, Os nomes da Loucura (Ed 34, 2000), entre outros.

"Tentei, ultimamente, escrever um novo romance. Comecei a tecer várias tramas, mas nenhuma vingou. Agora estou pesquisando em textos sobre filosofia antiga, pré-socrática, e em velhas enciclopédias, algumas pistas, que ligam os neo-pitagóricos dos primeiros séculos da era cristã a alguns movimentos culturais do renascimento. A idéia básica é a de que vários segredos ou mistérios que cercam a vida dos antigos filósofos foram muitas vezes criados ou mantidos propositalmente. Com qual finalidade? E por que, no Renascimento, reaparecem textos ditos herméticos, por alusão aos escritos de Hermes Trimegisto, do século III d.C.? Eis o que alguém procurará saber, no meu próximo romance. Um título, muito provisório, poderia ser "A chave do mundo". Certamente, nas escavações arqueológicas, no Egito ou na antiga Magna Grécia, por exemplo, não há só achados sobre batalhas, reis, colheitas e calendários. Há os restos artísticos e os registros de eventos populares ou de vida cotidiana, principalmente os referentes a personalidades marcantes, como eram, sem exceção, os filósofos pré-socráticos. É preciso ler os achados da arqueologia com olhos outros que o da história militar ou política dos povos antigos."

voltar

   
 


LESA-PALAVRA

Tarso de Melo

O Rumor das Imagens

Roger Bastide talvez não suspeitasse, à época de seus estudos sobre "a incorporação da poesia africana à poesia brasileira", que a conversa iria tão longe. Ainda hoje parece precisa a palavra "incorporação" para falar dos desdobramentos que tais relações sofreram desde aquele 1940 em que o professor francês se situava, pois não têm sido menos bem sucedidas as experiências que encontramos de lá para cá. Traduções, ensaios, poemas de certa inspiração africana, em meio a uma riqueza de diálogos, de confluência de vozes, forças, contribuindo decisivamente na proliferação daquelas "novas formas, que" – na análise de Bastide – "ainda nem pressentimos hoje, mas, em todo caso, a obra de transfusão está terminada; o sangue do homem de cor já corre nas veias da poesia do Brasil". Aqui, então, um dos resultados dessa transfusão.

Trívio (Belo Horizonte: Scriptum, 2001), do poeta mineiro Ricardo Aleixo, é um livro de convergência de vozes, sangues, poesias, e de cara cuida o poeta de circunscrever a dimensão da palavra-título, entre as que o dicionário oferece, à acepção de "reunião de três caminhos". E certamente é um daqueles livros de que o leitor se aproxima com certo temor das referências, todas profundamente convertidas na fala que o poeta cria para seus textos – o temor do leitor, exatamente nesse ponto, é o de não distinguir quais os caminhos a que o poeta se refere, e perder-se na "selva selvagem" de seus recursos verbais, visuais etc.

A poesia africana, no caso de Aleixo, vale ressalvar, é a dos cantos rituais próprios do culto aos orixás (bastante estudados e traduzidos, entre nós, nos últimos tempos, pelo poeta e ensaísta baiano Antonio Risério, autor também voltado ao diálogo com a poesia concreta), e a ela o poeta de Trívio se dedica há algum tempo, notadamente em seu livro anterior, que, não por menos, chama-se Orikis (1996), sem deixar jamais de tecê-la com as linhas da experiência poética recente, em boa parte firmado naquela cujo expoente, entre nós, é Augusto de Campos – a quem, aliás, o livro é dedicado.

A exploração da visualidade das palavras, dos espaços da página, ao redor e entre as palavras, uma orquestração que potencializa até mesmo a tipologia escolhida para poemas aparentemente "verbais", multiplicando seus sentidos – isso tudo Aleixo pode ter aprendido ao contemplar a "despoesia" de Augusto de Campos. Mas há ainda outra importante sugestão, dada pelo próprio poeta, que pode ajudar a abrir mais algumas portas de Trívio: a idéia de uma arte da poesia que seja "construir sobre ruínas", inscrição que surge na página para compor algo chamado, não por acaso, "Poética".

Logo após sua "Poética", num outro gesto de abertura ao leitor, em "Para uma eventual conversa sobre poesia com o fiscal de rendas", Aleixo relaciona os elementos constitutivos dessa massa de destroços, dessas ruínas sobre as quais escreve poesia: fortuna pessoal, bens, patrimônio, propriedade – e sua lista vai da "própria língua" à "própria idade", levando consigo o fígado, a clavícula, os dentes e as têmporas do poeta, junto a elementos menos concretos, como seu "próprio negro". E assim segue sua construção sobre ruínas. Provavelmente aquilo que Leminski chamou de "ruinograma", uma escritura cuja atenção, segundo o poeta paranaense, reside no "erro, claro, não na lei". Do mesmo modo, Aleixo observa o desvio, o atalho, o caminho "outro", e sua poesia mostra-se todo o tempo hesitando entre a representação do som e a da imagem das coisas – como um rico deslocamento daquela célebre hesitação a que se referiu Valéry – daí surgindo uma poesia que é dança, encontro de corpo e música. Lembre-se, novamente, o sociólogo que apontou, como marca daquela incorporação da poesia africana à brasileira, algumas "sílabas noturnas, ruídos surdos do sangue nas artérias".

Entre os tantos caminhos que sugere, Trívio escolhe seguir, com muita firmeza, o traço da enigmática epígrafe de Lezama Lima: "vi lo que no vi", levando os poemas de Aleixo a diálogos algo imprevisíveis (e bem sucedidos) no contexto da poesia atual, como um "radical a partir de si mesmo", na expressão de Sebastião Uchoa Leite.

De fato, diante de livros como Trívio, é arriscado incidir nos problemas do "New old criticism" de que o poeta fala ("para os amigos, / resenhas laudatórias", "para os outros, / releases e orelhas..."). Mas não sou amigo de Ricardo Aleixo, e posso trilhar, tranqüilo, em "duas laudas / com trinta linhas de setenta / e dois toques cada", minha boquiaberta senda de elogios – de que seu livro pode prescindir.

***

NA PRAÇA: na mesma prateleira em que se encontra agora Trívio de Ricardo Aleixo, o leitor poderá deparar-se com uma infinidade de lançamentos do ano de 2001. De prosa à poesia, da tradução à biografia, suspeito (pois ainda não vi as estatísticas!) que o ano passado foi um dos mais abastados no mercado (e no submercado...) editorial brasileiro. Não que isso queira dizer muita coisa para a literatura. Mas sempre há presenças louváveis e, apenas nos últimos meses de 2001, podemos destacar várias.

§§§ O poeta Ronald Polito passa a integrar a coleção dedicada à poesia brasileira contemporânea Janela do Caos, da Nankin Editorial, com seu quarto livro de poemas, De passagem (SP: Nankin, 2001), e reafirma alguns traços centrais de sua poética, exemplarmente aquele destacado por uma resenha de Alécio Cunha: "A seiva bruta de seus textos é terra desolada, desértico estado de coisas onde o ser está sempre à deriva, derrapando, rarefeito, num paradoxo entre o frágil e o forte". §§§ Reynaldo Damazio lança-se como poeta em livro com Nu entre nuvens (SP: Ciência do Acidente, 2001). Com esse primeiro livro, ao lado de sua intensa atuação crítica e na animação cultural, como a do projeto Poetas na Biblioteca do Memorial da América Latina, Reynaldo Damazio acena para uma poética que, como a palavra amor num poema, "sobrevive intransitiva / em estado bruto de conceito / esqueleto de semântica / oca de metáforas / sem nada a oferecer / senão a exígua lembrança / do Paraíso Perdido". §§§ E por falar no projeto literário desenvolvido na Biblioteca do Memorial, em São Paulo, acaba de ser lançado Poetas na Biblioteca: antologia (SP: Fundação Memorial da América Latina, 2001), reunindo os vinte primeiros poetas a participar das leituras e debates que ocorrem desde agosto de 1999. O livro apresenta uma seleção de poemas de brasileiros como Horácio Costa, Roberto Piva, Claudio Daniel e outros, além das presenças internacionais de Reynaldo Jiménez e Douglas Messerli. §§§ O carioca Carlito Azevedo acaba de lançar Sublunar (RJ: 7Letras, 2001), em que reúne sua produção poética até então. Ou seja, seus quatro livros. Carlito optou por organizar sua "obra completa" tematicamente (à maneira da Antologia Poética de Drummond), e assim constituiu, para Silviano Santiago, algo que "materializa o poeta como a mais fascinante figura da geração literária que despontou na década de 1990". Mas Carlito parece não se abalar com tais rasgados elogios, e anota, na porta do livro, que apenas escolheu, entre seus poemas, "aqueles que melhor me iludem com a impressão de que [...] entre o inútil do fazer e o inútil do não-fazer, alguma vez escolhi com felicidade o inútil do fazer", como um bom (e destacado) aluno de João Cabral. §§§ "A poesia que temos agora é tanto uma poesia de confronto, porque a percepção lhe abastece a linguagem, quanto uma poesia de desolamento, na qual a força da imagem expulsa o presente percebido em favor da experiência da recordação" – assim Benedito Nunes entrega aos leitores o novo livro de Fernando Paixão, Poeira (SP: Ed. 34, 2001). O poeta, nascido em Portugal e vivendo no Brasil desde a infância, mais que recordar imagens originais da pequena aldeia em que nasceu, encontra nesse novo livro, entre "pedras na sombra" e "envelopes em bolhas de silêncio", um interessante caminho (luso-brasileiro?) para sua poesia. §§§ Outro lançamento recente é a biografia do poeta Ferreira Gullar na coleção Perfis do Rio. De autoria do jornalista George Moura, Ferreira Gullar: entre o espanto e o poema (RJ: Relume Dumará, 2001) relata de forma sucinta os mais de 70 anos do poeta maranhense (que está numa coleção dedicada a cariocas em razão de viver no Rio de Janeiro desde a década de 50), com ênfase no período ditatorial, exílio, abertura etc., mas sempre tocando os limites (e até mesmo os bastidores) da criação poética, constituindo, assim, uma interessante contribuição à bibliografia sobre Gullar. §§§ Há alguns anos Haroldo de Campos lançava sua "transcriação" do primeiro canto da Ilíada e seus leitores (e também os simples detratores) já imaginavam que, apesar do belo texto resultante, tratava-se de mais uma experiência concretista de tradução por amostragem. Logo depois, veio à luz o segundo canto do mesmo poema homérico na versão haroldiana, mas não era o suficiente para inverter a imagem inicial. Agora, todo esse travo foi por água abaixo com o volume 1 de Ilíada de Homero (SP: Mandarim, 2001), em que Haroldo reúne, numa bem cuidada edição bilíngüe grego-português, a cargo do Prof. Trajano Vieira, os extensos doze primeiros cantos do poema. Um grande trabalho. A promessa, numa nota de Haroldo na abertura do volume de quase 500 páginas, é de que um segundo volume traga, em breve, os restantes doze cantos do poema, dos quais o tradutor anuncia já ter traduzido mais da metade. Soma-se agora, à já rica e extensa obra tradutória do poeta Haroldo de Campos (que vai de Mallarmé a Joyce, do Teatro Nô à Bíblia), outra realização grandiosa e digna do meio século que Haroldo tem dedicado à poesia.

T.M.

voltar

   
 


ENCONTROVÉRSIA:
O SALUTAR HÁBITO DA CONTROVÉRSIA PRATICADO HÁ 21 ANOS

Dando continuidade ao nosso diálogo literário interurbano, a nossa Conversa de Livraria, desta feita, foi realizada virtualmente, conectando diretamente o poeta Edival Perrini, um dos componentes do Grupo Encontrovérsia, que nos respondeu às perguntas abaixo.

O namoro com este singular grupo literário já dura algum tempo e o conhecimento físico desses escritores deu-se em 1996, quando, em carne e osso, o Encontrovérsia veio a Santo André para uma Conversa de Livraria na Alpharrabio. Desde então, foi um crescente trocar de poemas, livros e idéias.

Abecês: Quando e como surgiu o Encontrovérsia?

Edival Perrini - O Encontrovérsia foi imaginado para incentivar o encontro, o estudo e a partilha do que lemos e escrevemos. Ele segue sendo assim, reunindo-se quinzenalmente, sem interrupção, desde 21 de junho de 1980. O grupo não está comprometido com escrever livros ou artigos mas com manter um olhar sobre a criação de prosa e poesia de autores do Brasil e do mundo, além de ser um espaço de crítica sobre a própria produção de seus participantes.

Abecês: Quem são os seus fundadores? Permanecem os mesmos até o presente momento?

Edival - O Encontrovérsia é composto, hoje, por Jandyra Kondera Mengarelli, Luiz Alberto Pena Kuchenbecker, Leopoldo Scherner e eu (Edival Perrini). Seus fundadores fomos nós quatro mais Cláudia de Pina, Deisy Camargo e Luiz Carlos Cabanas.

Neste período, outros poetas participaram do grupo mas acabaram se afastando. Nós quatro estamos, ininterruptamente, desde o começo.

Abecês: Quais os livros publicados pelo grupo e o trabalho literário de uma forma mais ampla por ele praticado?

Edival - Os três livros publicados até agora amadureceram espontanea-mente do trabalho grupal:

Em 1982 publicamos LUARA ; em 1986, LIMO A LEME NENHUM; e em 1995, DIVERSO.

Há uma nova antologia em gestação, cujo "nascimento" ainda não nos é preciso. Sem pressa, o novo trabalho vai ganhando corpo.

Abecês: Qual a mágica para um grupo permanecer atuando durante tanto tempo?

Edival - Não há nenhuma mágica. Reconheço em nós um profundo respeito pelas nossas diferenças e uma autenticidade nas críticas que trocamos. Este binômio, somado ao encanto que a poesia e a prosa exercem sobre nós, nos mantém aguardando ansiosamente o próximo encontro.

Talvez complemente dizer o que escreveu o Prof. Édison José da Costa, da UFPR:

"As reuniões que o grupo efetiva quinzenalmente testemunham o empenho na preservação do ser coletivo. Elas são o espaço para reflexões teóricas, para a discussão de textos literários e para a apresentação do trabalho realizado individualmente. Propondo-se como interlocutor exigente e como crítico atento, o grupo define claramente, não obstante, o incentivo à autonomia criadora de cada participante. Não é por outra razão que aglutina, no próprio nome, os sentidos presentes nos vocábulos "encontro" e "controvérsia". A circulação e o consumo interno do trabalho do poeta, assim assegurados, amenizam a sede de outra forma incontrolável de divulgação imediata e evitam a publicação de trabalhos que, muitas vezes, o artista na sua maturidade acaba por renegar. Os poemas do grupo, quando chegam ao público externo, receberam já, muito provavelmente, sua forma definitiva".


Conheça mais sobre o trabalho do grupo visitando a homepage: www.edivalperrini.com.br

 

 


Viver é assim:

para curar uma ferida

abrir outra.

A cicatriz?

É o que você fecha

quando não está mais lá.

Jandyra Kondera Mengarelli

 

 


Eu não me cansei,

não parei no meio do caminho

e não me cansei:

quero mais um copo de vinho

e mais um pedaço de pão:

eu não me cansei

e não estou cansado.

Leopoldo Scherner

 

amor perfeito gosta mesmo é de circo:

tua camisola, meu pijama,

no trapézio do varal.

Luiz Alberto Pena Kuchenbecker

 



Fiar do desejo

a saudade

Descansar

como quem vigia

Edival Perrini

 


voltar

   
 


Alternâncias Ficcionadas

São tantos os meandros por onde se infiltra o conto moderno que fica difícil dizer por quais deles os trabalhos que Gilberto Tadeu de Lima reuniu em Terapias Alternativas (Alpharrabio Edições, 2001) encontraram guarida. A flexibilidade do conto contemporâneo é variadíssima, tal como se dá com a poesia. E tudo neste livro se torna difícil justamente porque tudo aqui é aparentemente fácil: histórias "corridas", flagradas do cotidiano, como contadas em roda de amigos. Acontece, todavia, que é justamente por aí onde o autor faz um curioso treliçar cênico e lúdico do narrativo com o descritivo e transfere quase sempre para as falas, com particular habilidade, a riqueza psicológica das histórias. Por outro lado, ou por isto mesmo, o autor as inicia como encaminhando-as para a novela curta, porque abre bastante o visor panorâmico de cada uma delas. Vai contando, vai contando, numa impressão imediata de despretensiosidade. Embora o autor denomine estes contos de causos, descobre-se que esse aparente informalismo é apenas o ponto de partida. Os tais causos transformam-se e transmudam-se, ao correr dos textos, em arte literária da melhor qualidade. É que o autor sabe contar, valendo-se de uma simplicidade narrativa notável, aquela simplicidade nascida da intuição criadora que conduz imediatamente ao lírico. Sem comparação possível, o que tem o conto Missa do Galo, de Mestre Machado? Nada. Um nada que tem tudo em poucas páginas.

 
Estes contos são, pelo como dizer do autor, histórias comuns da vida. Não têm nada de novo. E têm tudo de Vida e de suas perplexidades. Porque a vida é isto, seja na solidão particular, em família ou na sociedade. E como o autor alcança, com aguda sensibilidade, essas "tragédias miúdas", esses "acidentes de percurso" na vida dessa classe média sufocada entre a mais alta e a proletária... "No Balanço do Trem", que abre o livro, é uma peça literária de qualidade invejável. A menina do trem está perenizada aqui. E dela ou sobre ela o autor praticamente não fala nada.

Por trás desse estilo cristalino flui, em subjacência constante, um universo de emoções. O contista joga como quer com o psicológico, a solidão, o amor, o humor, o anedótico... Num despiste de alegoria vai da alegria à dor, e universaliza muito as histórias para além da geografia urbana em que estão centradas. Gilberto Tadeu de Lima trabalha muito bem com personagens femininas e dialoga com grande espontaneidade e senso de oportunidade, sem desvios para o teatro.

Fica ainda a impressão (sempre a impressão...) de que o autor escreveu estes contos sem tomar fôlego, de uma corrida. É que é o seu jeito de escrever, é que é a sua personalíssima maneira de narrar. Na contra-corrente dessa espontaneidade, no seu contra-espelho, no rio subterrâneo que os acompanha, palpita um mundo de emoções que vão do pulsar pungente ("Infeliz Coincidência") ao humor à flor da Pele ("Ao Pé da Letra"), para só citar estes dois contos, que cada um tem suas surpresas e emoções próprias.

Obra para ser avaliada mais detidamente, que ela é uma roldana dentro da ficção curta.

Terapias Alternativas, já pelo título, diz a que veio, porque aqui as alternâncias emocionais são muitas, e as terapias, como todas as terapias neste mundo tão necessitado delas, não lhes dá solução, eis que as emoções são as raízes da própria vida.

Caio Porfírio Carneiro escritor, publicou mais de duas dezenas de títulos, destacando-se O Sal da Terra (romance, adaptado para o cinema)

voltar

   
 


MEMORIAL

Valdecirio Teles Veras


JORGE AMADO
E
SANTO ANDRÉ

retrato feito por Jordão de Oliveira

 

"Subterrâneos da Liberdade" – trilogia de autoria de Jorge Amado – chega aos 50 anos de sua publicação. Composta dos livros "Os Ásperos Tempos", "Agonia da Noite" e "A Luz do Túnel", a obra não é uma das mais lidas do autor baiano, mas com certeza é a que mais se relaciona ao ABC paulista, mais precisamente a Santo André, motivo em que se justifica este memorial.

Na trilogia, Jorge Amado, recentemente falecido, fala de Santo André, não propriamente da cidade, mas do "operário de Santo André". Na sua leitura pode-se viajar – quem era o operário, como era a cidade àquela época (1937). A obra, escrita na fase engajada do autor de "Capitães da Areia", tem como tema principal o movimento político sob a ótica do Partido Comunista. Quando da primeira leitura, eu ainda era jovem e o fiz por sugestão de um amigo, ficando gravadas em mim as torturas sofridas pelos comunistas nos porões das delegacias. Mas os livros também falavam de Santo André, a cidade que eu viria a conhecer uma década depois da leitura, passados 30 anos desde os fatos narrados. É bem provável que Santo André tenha ficado gravada em meu subconsciente. O certo é que Santo André não era a minha cidade, tampouco meu sonho de vida. Ficou, sim, fixado que em São Paulo existia um lugar chamado Santo André, onde havia operários comunistas. Isto em 1937. Mas Santo André não era uma cidade tão pequena, era importante, e dava até para o operário esconder outro comunista! Ninguém sabia, mas a Polícia sabia. Se houve época no Rio de Janeiro em que se recolheu mendigos para mostrar aos olhos de visitantes ilustres uma cidade linda e sem problemas sociais, numa visita de Getúlio Vargas, para evitar problemas em São Paulo, os comunistas foram recolhidos: "Famílias eram acordadas pela madrugada, operários arrancados dos seus leitos pobres, centenas de pessoas jogadas nos cubículos da polícia central. Nas cidades industriais próximas, Santo André, São Caetano, Sorocaba, Campinas, Jundiaí, surgiram os investigadores vindos da Capital, trazendo com eles a ordem de uma ‘limpeza’ completa". (...) "No ‘tintureiro’ onde o meteram estavam já alguns homens... O velho, cuja perna dolorida o impedia de equilibrar-se, tombou com o empurrão, sobre um homem sentado. E mesmo na escuridão o reconheceu: era um operário de Santo André, companheiro do Partido". (...) "O operário de Santo André, a cabeça aparecendo na porta do carro celular, começou a dizer: ‘Vamos presos porque somos comunistas, lutamos pelo bem de todos’..."

O livro relata episódios a partir de 1937, ano do golpe de estado de Getúlio Vargas. Houve muita perseguição política, principalmente contra dirigentes sindicais. Em Santo André, Marcos Andreotti, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, foi preso e viveu alguns anos na clandestinidade. O movimento operário, apesar da repressão, continuou forte e, em 1947, elegeria para Prefeito e para a maioria da Câmara "os candidatos de Prestes", sob o manto do Partido Social Trabalhista, já que o Partidão estava na ilegalidade.

Novamente na visão de Jorge Amado: "Sabia que da Praça da Sé partiam ônibus para Santo André. Mas em que parte da cidade estaria ele, longe ou perto da Praça da Sé? Trancado no carro de transporte de presos não ficara com nenhuma idéia do lugar onde tinha empreendido a fuga".

"Em toda a redondeza, só em Santo André existe alguma coisa parecida com organização, isso devido a Ramiro. Pensamos em tirá-lo de lá para levantar outros bairros operários, Santo André quase vem abaixo, ele teve de voltar para não perdermos o que já havia. No interior, só nos ficaram uns brotos de Partido em Santos, em Sorocaba, em Jundiaí. Um quase nada..."

Quem seriam esses comunistas que fazem parte da obra de Jorge? Aí começa a viagem. A ficção fica com o escritor e a realidade, com o leitor. Santo André, cidade operária. Ipiranguinha, Pirelli, algumas de suas indústrias. Operários da capital vinham trabalhar na cidade. Os sindicatos nas mãos dos comunistas. E os operários comunistas, quem eram? Se nomeados, entre eles estaria Armando Mazzo, que foi deputado e, em 1947, eleito prefeito de Santo André, não tomou posse? Poderia ter sido Marcos Andreotti, fundador do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e seu presidente de 1930 a 1937? Andreotti foi eleito vereador, na chapa dos candidatos de Prestes. Morreu comunista, contrariando aquilo que um dos personagens do livro dizia: "essa coisa de comunismo e integralismo é como o sarampo que todos os meninos têm, em certa idade. Os intelectuais o têm também, mas depois, com a idade, passa...".

Como uma história puxa outra, recomendo a leitura de "Marcos Andreotti – Um titã do primeiro movimento operário do ABC paulista", de Cândido Giraldez Vieitez ( UNESP –1988), "Memórias de um militante político e sindical no ABC", de Armando Mazzo (Prefeitura do Município de São Bernardo do Campo, 1991), "O ABC dos Operários", de John D. French (Editora Hucitec, 1995), "9 de novembro de 1947: A Vitória dos Candidatos de Prestes", de Ademir Medici (Fundo de Cultura de Santo André, 1999), entre outros.

voltar

   
 


UM LIVRO A SEIS MÃOS

Um Mundo Só Para Cada Par, livro publicado pela editora Alpharrabio em 2001, é um conjunto de poemas de temática amorosa dividido em três blocos, cada qual assinado por um dos autores que idealizaram a proposta: Fabiano Calixto, Kleber Mantovani e Tarso de Melo. Se o amor é tomado aqui como leitmotiv que unifica todas as peças da obra, não eclipsa a individualidade criadora, já que cada autor mantém sua dicção e desenvolve seus motivos a partir da concepção de mundo e da tradição poética a que se vinculam. Fabiano é o de tom mais amargo de todos; revisitando a aridez da paisagem já esboçada em Fábrica, seu livro lançado pelo mesmo selo em 2000, os seus poemas indicam uma experiência amorosa que, ao mesmo tempo em que procura unidade de sentido em todas as coisas circundantes e não só na relação a dois, nos mostra que é justamente essa mesma realidade que a fragmenta e lhe impede a totalidade que toda contemplação amorosa demanda. Essa aporia já vem marcada expressamente no poema de número I e atinge seu ápice no de número V, os melhores escritos sob a rubrica de seu nome e – creio – os melhores do livro. Já Kleber Mantovani cria uma cadeia verbal em seis Momentos, apresentados de trás pra frente, e que delineiam um filme reversivo que vai da recusa em rever uma foto tirada pela amada à situação onde a cena foi apreendida, no quintal; entre a reflexão amorosa e o estalo dos galhos e do talo das folhas corre a apreensão do afeto, associado à transitoriedade frágil destes mesmos seres da natureza. Seu melhor momento é o de número V. Tarso, por sua vez, fia o tema que dá matéria à obra em uma estrutura sintática bastante livre, cuja irregularidade e os cortes de versos dão vazão a um conjunto de metáforas e de imagens bastante flexível, apto a se moldar tanto à descrição da cena amorosa quanto a relacioná-la a fenômenos da natureza ou a referências literárias, introduzidas e apropriadas dentro do discurso com o intuito de atingir uma síntese conceitual. Seu melhor poema é "A Mão".

Uma das virtudes da obra é a unidade existente entre os poemas, dado o caráter espontâneo e não programático que lhe deu ensejo e, principalmente, a fuga com êxito dos lugares comuns, da falação e da facilidade nas quais o tema amor geralmente redunda, talvez o tema mais perigoso e difícil que um poeta possa trabalhar. Gostaria apenas de fazer algo que está mais próximo de uma advertência do que de uma crítica: há, nas letras atuais, um mito chamado João Cabral.


O mito em quase nada se aproxima do poeta, já que consiste em uma apropriação apriorística de sua poética de luz e aridez que muitas vezes faz o percurso inverso àquele que percorreu o poeta pernambucano – parte de uma doxa, uma espécie de profissão de fé ou idéia fixa que aposta todas suas fichas na poesia como fruto da construção, em detrimento da poesia como inspiração, e chega, assim, ao fim e ao cabo, à confecção da obra, o que me parece que traz consigo algumas implicações perigosas, pois vive no meio-fio tênue que separa a apologia ao deserto da esterilidade. É óbvio que isso não ocorre aqui. Mas tendo em vista que os três poetas parecem manter algum tipo de dívida para com essa estética do sinal de menos e para com a faca só lâmina daquela flor que se queria fezes, creio que seja interessante colocar a questão. Não existe na História da Arte nenhum autor que, seduzido pela sereia das idéias sem tê-la antes desentranhado do ventre de sua escrita, tenha produzido obra de peso. A defesa da construção, mais do que um procedimento, é parte de um ideário político ultrapassado e simplista – pode ser uma bela mulher que nos seduz, mas que também nos mata. E, parafraseando Hamlet, há mais coisas entre a construção e a inspiração do que supõe a nossa vã ideologia. Se cuidem rapazes!

Rodrigo Petronio é poeta, autor de "História Natural"

voltar

   
 


LIVROS FORA DO EIXO - NOTÍCIAS

Dalila Teles Veras

ARQUITETURA DE ALGODÃO

Tempos atrás. Um sebo, sempre relicário da literatura. No pó, um minúsculo livro, encantador. O nome de seu autor de há muito me era familiar. Arquiteto que fala de arte e cidades com invulgar propriedade em várias publicações culturais destes brasis. Não por acaso o título do livrinho de poemas é Arquitetura de Algodão. Os poemas, sibilinos, são fiéis à arte praticada por seu autor, Almandrade: "nudismo abstrato", conforme a classifica Décio Pignatari. O livrinho, artesanal, vai para o pódium, a minha estante dos bons poetas brasileiros, à qual sempre acorro, questão de sobrevivência.

Graças a esses caminhos sempre insuspeitados por onde se cruzam as almas cativas da arte e da palavra, chega-me via correio um outro minúsculo livro, desta vez enviado pelo próprio Almandrade: "A Arte de Almandrade – Textos de Décio Pignatari, Haroldo Cajazeira e Luiz Rosemberg Filho. Pronto, estava ali confirmada, por outras vozes mais abalizadas, a minha suspeita sobre a excelência do artista-poeta: "Objetos bons para pensar, os trabalhos de Almandrade se divertem com a inteligência, são como que máquinas devoradoras de leitura" (Haroldo Cajazeira). Falava o crítico dos trabalhos-esculturas-instalações plásticas mas essas interpretações poderiam perfeitamente servir para pensar os seus poemas, também eles trabalhos visuais.

Agora, novamente pelas vias do velho correio, chega-me um belo volume, 130 páginas, com o mesmo título daquele minilivro (ensaio deste?), editado pela Secretaria da Cultura e Turismo da Bahia, numa primorosa edição, com o subtítulo "Poesia reunida" a confirmar, mais uma vez, a faceta de poeta deste artista que, entre outras importantes mostras, já expôs no Museu de Arte da Bahia e na Bienal de São Paulo. Difícil saber onde começa o artista, o arquiteto, o poeta. O certo é que eles estão amalgamados, como bem o mostra este poema: "Arquitetura sem Parede" – "Na suavidade / de um toque / o gozo roça o desconhecido / o saber descobre imagens / a respiração é a vibração / de um mundo imaginado / a pintura revela / o azul obsceno da paisagem".

Se não tiver paciência de esperar um desses exemplares chegar a um sebo (isso às vezes demora anos), tente com o autor que mora na própria Rua Da Paciência, 207, ap. 102, 40210-220, Salvador – BA.

 

XILOGRAVURAS E POEMAS

Livro não serve apenas para ler e refletir, mas também para acariciar, apalpar, folhear, cheirar, ver, "vler". Quer um exemplo? Procure nas livrarias o volume Valdir Rocha – Xilogravuras; com poemas de Álvaro Alves de Faria, Celso de Alencar, Eunice Arruda e Raquel Naveira a dialogar com as formidáveis xilogravuras do artista (Escrituras, SP, 2001).

Ao entrar em contato com a arte de VR, "não há como não ser tocado desde logo por uma singularidade: a onipresença de cabeças (isoladas, quase sempre sem corpo), como motivo único das peças ou telas. Motivo que, pela repetição, acaba se transformando em ícone: cabeças-máscaras que lembram totens – formas arcaicas que aparecem aqui e ali na arte contemporânea", como bem aponta Nelly Novaes Coelho em seu profundo e ilustrativo prefácio.

Desafio aceito, os quatro já calejados poetas, palavra testada, conferida e aprovada, mergulham nessa arte que a madeira transforma em misterioso dizer. Cabeça a cabeça ("Cabeça voltada / para trás / De tanto perscrutar / o futuro / vôo dos pássaros" – Eunice Arruda); emoção a emoção ("Vi aquele que meu coração ama / Nu, / Narciso, / Nêspera, / De frente / Para mim." – Raquel Naveira); palavra e traço ("As palavras vivem em mim / confusas e devotadas" – Celso de Alencar); olhos multiplicados ("A farpa do dia / na jarra de cristal / o olho olha alheio / além do que vê / no círculo de seu espanto." – Álvaro Alves de Faria). Um livro que vale a pena, por tudo que em suas páginas e no seu dizer encerra.

voltar

   
 


Leitura de "Inventor de Paisagens" de Milton Andrade

(Alpharrabio Edições, 2001)


Como falar da obra sem desaguar no autor? Milton Andrade é gente de extensa folha cultural, persona-grata em qualquer lugar sensato. Com a receita na mão, fui, ao modo de uma ampulheta, esvaziando o poeta e me enchendo da poesia. Neste caso a casa é de ferreiro e o espeto é de ferro: os poemas são carregados de oralidade, inseparável forma de expressão do sempre ator.

O inventor de paisagens no poema inaugural – roteiro do livro – tenta se eximir das responsabilidades pelo invento, impróspera tentativa. É evidente que Milton as inventou e continua a inventar sua Itapira sempre que joga seu discreto olhar atento, ainda que para ondular no tempo. O poeta realiza seu desejo de simplicidade e reparte o pão, feito palavra, com seu leitor que começa em lugar qualquer e termina, inevitavelmente, pelos lados do Rio do Peixe, da Avenida dos Biris, sob o sol itapirano (ou itapirense), num calendário com data circundada pela vida. Podemos sentir a respiração de seus contemporâneos. É marcante a universalidade impressa nos poemas em que a cidade é oferecida ao leitor (em bandeja de prata) como se o poeta observador só a narrasse com paixão, mas, com freqüência e surpresa, pode-se constatar que ele, pela intensidade da integração, retoma para si a cidade e o tempo.

A ironia distante e o cansaço marcam os poemas intitulados "pensamentos", vale conferir :

No trem, pelo menos,

havia sempre uma esperança.

Um tanto vaga, mas expressa em tabuleta:

"Em caso de perigo, puxe a correntinha !"

Os poemas eróticos incitam quem ama como homem e como bicho, sem pejo, sem palavras que sirvam como cortinas que escondem os hábitos.

E assim, mesmo guardada em gavetas por muito tempo, a poesia de Milton Andrade tem cheiro de papel novo.

Guilherme Vidotto é advogado, poeta e membro dos Trovadores de Mauá. Atualmente, coordena o Núcleo de Literatura da Secretaria de Educação, Cultura e Esportes de Mauá.

voltar

   
 


Sondagem de aluvião:
Maravilta e a poética de garimpagem

Está na hora de a grande imprensa do eixo Rio-São Paulo voltar os olhos para a boa literatura que circula na periferia dos círculos acadêmicos e evitar as polarizações em torno do que é apenas publicado por grandes editoras. Fora do nicho midiático, com suas condescendências, favores e bafejos, há uma legião de poetas e ficcionistas que produzem trabalho de igual ou melhor nível. Infelizmente, os cadernos de cultura e suplementos literários pontificam em torno de irmandades literárias e igrejinhas poéticas; acabam por guetificar uma elite literária, em detrimento de outros nomes que vicejam à margem do processo editorial, este cada vez mais mercantilista e aferrado à apologia dos donos das verdades estéticas. Uma espécie de burocratização da poesia e da prosa acaba circunscrevendo a um reduzido clube os que têm lugar, vez e voz nas redações. Prescrevem-se, ditatorialmente, na esteira do monopólio dos releases das grandes editoras, determinadas obras e autores, enquanto há um movimento criativo que pulsa longe dos holofotes e constitui-se numa geração de escritores que, abstraídos das legiões canônicas da literatura brasileira, formam sua base poética do melhor quilate, em nada devendo aos autores proclamados e instituídos pela crítica dita especializada ou atraídos pelos fabricantes de vanguardas.

Entre esses autores que já possuem obra sedimentada, embora sem as mesmas loas do baronato intelectual, destaco Erorci Santana, mineiro de Governador Valadares, há quase três décadas radicado em São Paulo e visceralmente ligado à arte poética, numa vertente comprometida não em desafiar os cânones ou a tradição, mas oferecer uma dicção própria, sem as amarras das camisas de força estilísticas e livre dos condicionamentos escolásticos. Um poeta verdadeiramente consciente da responsabilidade de sua arquitetura, preocupado na confecção de uma poesia que busca uma sondagem profunda na condição humana, como aqueles raros garimpeiros, que vão no mais fundo aluvião buscar a pérola preciosa.

Maravilta e outros cantares (Alpharrabio Edições, Santo André/SP, 2001) reúne a produção recente de Erorci Santana e ratifica uma produção poética calcada numa profunda relação do autor com o universo cognitivo, em que estão presentes imagens clássicas, alusões metafísicas, construções que remontam à cultura helênica, um viés sentimental com uma inclinação à melodia, às metáforas, no empenho em resgatar a memória histórica, impulsionando o leitor a um exercício de reflexão sobre os valores não só da própria arte como da existência humana. Assim é que nos versos que fecham com chave-de-ouro a obra – Escrevo. E toda vez que o faço / ponho abaixo uma Babel o autor acaba por resumir a sua preocupação ao destronar as verdades pré-estabelecidas e proclamar a necessidade da catarse. E só a palavra lhe faculta esse salto, pois, talvez único instrumento de resistência capaz de enfrentar o "status quo" e reclamar a beleza perdida de todas as coisas.

Como deduz o poeta, Maravilta é um neologismo construído a partir do substantivo mar e do verbo aviltar. Ele nos lembra sua mineiridade e o mito do mar distante e requerido mentalmente, que deflagra o desejo de explorar a imensidão do desconhecido e provoca o estranhamento e o assombro quando expõe-se ao oceano pela primeira vez. Com isso, o autor instaura o seu mergulho, não nos mares geográficos, mas no pélago da alma, um nostálgico mergulho nesse mar de incompreensões que é a vida humana, pesquisando o quase insondável território de nossas realidades, a presente e a subjacente.

Seus cantares de teor intimista, psicológico e outras emoções desbastadas pelo refinamento da linguagem, ora com invocações medievais, ora com um apelo popular e místico, promovem uma incursão no seu confessionário interior, lá onde os dramas humanos e as inquietações contemporâneas exigem-nos um enfrentamento mais poético do que psicológico. É nessa esfera que Erorci vai regurgitando fantasmas, com um acento nitidamente humanista, próprio dos sonhadores, daqueles cuja única alucinação é não perder de vista a necessidade de indignação.

Erorci Santana, neste Maravilta, forja uma poesia de finíssima tessitura, sob o influxo de uma semântica delicada, permeada de nostalgia e lirismo, de contemporaneidade e medievalismo, com referências ao passado histórico, ao amor não correspondido, às raízes mineiras, ao degredo íntimo, ao exorcismo dos fantasmas que incomodam a arte e a vida. Presente um jogo formal em que a subjetividade motiva o discurso e estatui um fluxo poético carregado de imagens que explodem numa coreografia provocante, de grande prazer estético para leitor e de apaziguamento para o autor.

Tendo publicado outros livros, entre os quais Carnavras (1986), Estatura Leviana (1989) e Concertos para Rancor (1993), com Maravilta e outros cantares, Erorci Santana consolida seu nome entre os melhores de sua geração e demonstra a vitalidade da poesia que ainda se produz, com talento, no Brasil, a despeito da mercantilização da cultura e dos "ismos" que deformam a paisagem literária. Trata-se de um poeta que constrói meticulosamente o seu artesanato, na linha de uma pesquisa de linguagem, verdadeira artesania e dedicada escavação, recursos que lhe permitem o apuro do verso e uma intimidade com o leitor. E sua arte é uma proclamação, na linha de um Shakespeare: "Enquanto houver viventes nesta lida, / Há de viver meu verso e te dar vida".

Ronaldo Cagiano é escritor, crítico literário e advogado, autor de Palavracesa, Prismas – Literatura e outros temas e Canção dentro da noite.

voltar

   
 


A PALAVRA INÉDITA

Wagner Calmon Ferreira

Enigma Rosa I

Desço as escadas, mas não resisto ao apelo da rubra rosa. Inebria-me. Das outras recebo o ciúme. É preciso ter cuidado com as rosas, charme e perfume! Botões sim, são anjos, mimos d´alma, lábios infantis aos beijos das manhãs. Pensando melhor, ambos têm açúcar. Cuidados em redobro, cumprimento-os, mães e filhos. O vento me sopra Bilac: "Ora direi ouvir as rosas! Certo perdeste o senso!" Perdi-o mesmo! Imagino sentir-me um cravo azul! Clarice me redime de insensato: "Impessoais na sua extrema beleza. Na sua extrema tranqüilidade perfeita de rosas!" Ah! Essa Lispector! Persigo meus propósitos adiante: "– Mais um louco chega à tenda!" Cumprimentos gerais. Cora Coralina abraça-me. Entende de flores e recita:

Eu sou aquele teu velho muro

Verde de avencas

Onde se debruça

Um antigo jasmineiro

Cheiroso

Na ruinha pobre e suja

Não sei porque olho a rua! Camões se exalta, à minha direita.

Se flores deseja

Por ventura delas

Das que colhe, belas

Mil morrem de inveja.

Leminski divaga, de uma estante ao fundo.

Meio-dia... três cores.

Eu disse vento

E caíram todas as flores!

Enfrento um complô de lirismo? Cecília requer ouvidos.

Achei lugares serenos

E aromas de fontes extintas

Raízes fora do tempo

Com flores vivas ainda.

E eu, perplexo, diante de um jogo de tênis, ouço Drummond, o Carlos, voz em vale de Itabira.

No meio do caminho tinha uma pedra!

Que a mim parece soar:

No meio do caminho tinha uma rosa!

A gerente-poeta tenta quebrar-me o encanto:

Wagner, deu pra falar sozinho?

 

Enigma Rosa II

 

Olá, pessoal, já chego aí!

Castro Alves me detém e se faz eloqüente

Onde vais à tardezinha?

Mucama tão bonitinha

Morena flor do sertão?

A grama um beijo te furta

Por baixo da saia curta

Que a perna te esconde em vão!

Sim senhor, esse românticos! Gilberto Freyre cogitava disso? Divirto-me por conta das rosas. E aí ouço Mário de Andrade, à mesa, junto ao grupo.

Oh! Espelho Oh! Pireneus! Oh! Caiçaras!

Se um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Adianto-me ao grupo, próximo à parede de artes. Conversas afins, pausas ao café e à cerveja. Retome-se o corriqueiro, renove-se a espontaneidade, às vezes sem eira nem beira. E daí? Quem é escritor é meio destrambelhado, único agente ocioso. Vez em quando ouvindo livros que falam, os autores que exigem participação: E nós, como ficamos? Algum poeta mais doidivana se defende: – Vocês são nossa consciência! As rosas são seus portais! Quererem mais? Dê-nos a chance de ser poeta nesta casa rosa!

Nega-se o silêncio à anuição. José Martí expressa com veemência sua rosa de paz

Cultivo una rosa blanca

En Julio como en enero

Para el amigo sincero

Que me da su mano franca!

A palavra é amiga nesta casa há exatos 10 anos. Ar de graça, bar sensato, poema vertido à taça. O Alpharrabio!


voltar

   
   
   


ABECÊS é uma publicação da Alpharrabio Edições e conta com a parceria cultural da Gráfica Bartira e da revista virtual Loquens (www.loquens.cjb.net)- 4º trimestre de 2001 · Editora executiva: Dalila Teles Veras · Editores: Antonio Possidonio Sampaio, Rosana Chrispim, Tarso de Melo, Valdecirio Teles Veras · Projeto Gráfico e Editoração: Isabela A. T. Veras · Jornalista Responsável: Rosana Chrispim MTb 16.651 · Redação: Rua Eduardo Monteiro, 151 – Santo André – Fone: 4438-4358 Fax: 4992-5225 –
www.alpharrabio.com.br e-mail: alpharrabio@alpharrabio.com.br

 
       
   

 
 


Abecês 1


Abecês 2


Abecês 3


Abecês 4


Abecês 5