EDITORIAL

Hora de enfrentar o som e a fúria do mundo

O ano na região do Grande ABC começou feroz, rosnando sua violência, atingindo seres humanos covardemente pelas costas. A violência passou das páginas dos jornais para o nosso cotidiano real. Todos os dias um parente, um vizinho, um amigo, um conhecido é vítima dela. Não há mais nenhuma garantia de sair pela manhã e voltar vivo para casa. A insanidade mata a eito, atingindo, inclusive, pessoas que detêm cargos eletivos, como no caso dos Prefeitos Toninho, de Campinas e, agora, Celso Daniel, ambos assassinados de forma brutal, prova inegável de verdadeiro atentado aos princípios democráticos e de civilização. Estamos à mercê da bandidagem e, pior, da impunidade. Certamente, esta guerra não será ganha com armas de fogo.

Pretendemos, a partir deste número 7 do Abecês, abrir um debate com a finalidade de fomentar ações da sociedade civil organizada contra a barbárie destes nossos ferozes tempos: é hora de seguir o conselho do filósofo francês Pierre Bourdieu, falecido recentemente, que dizia ser preciso abandonar a "cidade do saber" e passar a enfrentar o som e a fúria do mundo.

Os textos dos professores Luiz Roberto Alves e Therezinha Malta, mais o poema de Drummond (poeta imprescindível, sempre, e mais que nunca nos seus 100 anos), publicados neste número, são o mote (quem sabe o norte) para o debate e as ações futuras. Mãos à obra, que nesta guerra valem a palavra e a ação cidadã. O que não vale é cada um recolher-se ao seu próprio "bunker", blindar seu automóvel e fingir que nada está a acontecer.

De nossa parte, apesar de tudo, temos boas notícias. A reforma e ampliação do espaço físico do Alpharrabio que consolidará sua vocação de centro de cultura, está quase concluída; a página na Internet já pode ser visitada (www.alpharrabio.com.br) e muitos e renovados projetos estão na pauta, sempre dentro de um conceito que desde a inauguração (em 21 de fevereiro de 1992) veio sendo construído e aprofundado: um pólo irradiador de idéias, um núcleo de referência da arte, da cultura e do pensar na região do ABC. Aguardem a programação de reinauguração.

Dalila Teles Veras

Editora


       
     
       
   
Sumário:

<> "Eu, Leitor, confesso..." - por Damara Bianconi
<> O que estou lendo - por Marcos Leme, Ivonice Satie e Alexandre Polesi
<> Livros fora do eixo - notícias - por Dalila Teles Veras
<> Lesa-Palavra - por Tarso de Melo
<> O que estou escrevendo - por Ademir Médici
<> Quando a catarse não mais ajuda - por Luiz Roberto Alves
<> Memorial - por Valdecírio Teles Veras
<> A salvação pela educação - por Therezinha Malta
<> Paisagens do Olhar - por Wagner Calmon
<> Diário do Mundo - por Tarso de Melo
<> "Os ombros suportam o mundo" - Carlos Drumond de Andrade

 
       
 
 
EU, LEITOR, CONFESSO:

O Livro como Razão e Paixão

Falar de livros é falar de amor e paixão, é criar uma inevitável circularidade entre os elementos que remetem à sua existência. Não pretendo em tão poucas linhas resolver tal complexidade, apenas tomar como fio condutor algumas passagens que envolvem a vida de um obsessivo por livros. Neste caminho é lógico concluirmos que só a paixão é capaz de sustentar e transportar uma biblioteca, ou ainda, só a razão com muita paixão coloca um indivíduo como servo de sua coleção.

Todas as vezes que tenho que mudar de casa, cidade, país ou simplesmente remover livros para uma nova prateleira ou mesmo limpá-los, me deparo com um questionamento. Será realmente necessário possuir tantas informações? Haverá realmente uma função lógica para tais maratonas? Ou simplesmente existe uma razão louca e tudo bem...

  Talvez devêssemos assumir nossa limitação frente à crescente capacidade de armazenamento de memória dos computadores e nos adaptarmos a essa nova forma de biblioteca para consultas. Mas ao mesmo tempo é maravilhoso possuir livros e manipulá-los, sim, isto é um privilégio. É como ter esperança impressa em sua vida o tempo todo. A possibilidade de ruptura com a realidade a qualquer momento, a certeza de outros mundos e a de ausentar-se deste para o universo da ficção, são possibilidades que outras pessoas sem livros amputam de suas vidas.

Esta análise por si só justifica uma coleção. Paixão sábia. O livro enquanto instrumento do conhecimento justifica minha razão interagindo com a paixão e me proporcionando o acesso ao saber. Neste sentido, a lógica de minha paixão por livros está nos princípios do Humanismo, pois sou a favor de todas as paixões que tornem a vida mais humana, que revolvam o mundo e resgatem o prazer e a sensualidade através do universo das publicações.

  Mas quando temos que transportar todo este complexo, nos sentimos como "burros de carga", literalmente. De que outra forma além da paixão e da razão justificamos esta complexidade? Em minha opinião, um livro depois de "degustado" deveria cumprir nova função. Por que carregá-los como suvenir de nossa existência como se fossem correntes, filhos, responsabilidade atroz? Quero enfim chegar a ponto do desapego, da doação para uma próxima ação, um outro destino para aquilo que já foi utilizado. Venda, doação, troca...

Neste momento todas as teorias se confundem e retorna a paixão irracional e, de forma reincidente, deixo tudo assim como está. Talvez numa próxima mudança cumpra-se o desapego.

Damara Bianconi - artista plástica

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O QUE ESTOU LENDO

<> Marcos Leme, ator, diretor e light design.

CRIME E CASTIGO

Fiódor Dostoievski
Tradução: Paulo Bezerra
Gravuras: Evandro Carlos Jardim
Editora 34, São Paulo, 2001

  A leitura deste clássico da literatura russa deve-se ao fato do curso de direção teatral que estou fazendo, orientado por Antônio Araújo. O romance é fascinante e podemos acompanhar a personagem central – Raskólnikov – justificar o assassinato que comete, declarando ser um homem honrado e se agarrando na teoria de que grandes homens que cometeram assassinatos foram absolvidos pela História.

N.R.: Justamente por conta desse curso, os exemplares de Crime e Castigo que havia na Alpharrabio rapidamente desapareceram das prateleiras. Aguarde que o estoque logo será renovado. Por enquanto, temos outros títulos de Dostoievski, como Os Irmãos Karamazov (R$ 8,00), O Jogador (R$ 6,00) e O Eterno Marido (R$ 6,00).

Ivonice Satie, bailarina e coreógrafa. Criou e dirige a Cia. de Danças de Diadema.

No momento, buscando subsídios de pesquisa para meu trabalho, debrucei-me na pesquisa do universo feminino. Nesse sentido, estou lendo o Dicionário Mulheres do Brasil - 500 Anos Atrás dos Panos (Editora Jorge Zahar), um levantamento sério e abrangente do mundo das mulheres. Por outro lado, procurei também uma visão que não fosse de mulheres consagradas nem ilustres e acabei lendo A Queda para o Alto (Editora Vozes), um depoimento impressionante de Herzer, pseudônimo de uma garota homossexual, egressa da FEBEM, envolvida com drogas e toda sorte de mazelas, que enfrenta com muita garra os previsíveis preconceitos sociais. Já no plano mais do espírito, leio nos intervalos o livro A Arte da Guerra, de Sun Tzu, escritor chinês, numa tradução de Thomas Cleary (Ed. Pensamento), que mergulha na temática da "guerra" de enfrentar você mesmo. Na fila de espera, também com finalidade de pesquisa para um futuro trabalho, está A Morte do Caixeiro Viajante (Editora Europa-América), de Arthur Miller.

N.R.: A Alpharrabio tem em estoque apenas um exemplar de Queda para o Alto (19a. ed., 1990, Ed. Vozes, 200 pg.). O preço é a bagatela de R$ 7,00.

<> Alexandre Polesi, jornalista.

Estou lendo o romance Ana em Veneza, (Editora Best Seller), de João Silvério Trevisan, que fala da mulher do escritor alemão Thomas Mann (autor de, entre outros, Morte em Veneza), Júlia da Silva Bruhns Mann, uma brasileira, e sua mucama, Ana. O livro - ganhador, inclusive, do prêmio APCA 1994 – é bastante interessante por fazer um apanhado da vida cultural e musical brasileira no começo do século XX. O compositor e regente brasileiro Alberto Nepomuceno, nacionalista, é também personagem do romance e, numa passagem curiosa, refere-se a um novíssimo e promissor compositor de nome Heitor Villa Lobos. O romance, a meu ver, de alguma maneira, também atualiza para a vida cultural brasileira a discussão estética entre nacionalismo e vanguarda na música, que o próprio Thomas Mann, grande conhecedor de música, já analisara em seu romance Doutor Fausto. Este é um livro que pode ser lido com prazer por pessoas que gostam de literatura e de música.

N.R.: Também há apenas um exemplar do livro Ana em Veneza nas prateleiras da Alpharrabio. Trata-se da primeira edição, 1994, de 579 pg. da editora Best Seller e custa apenas R$ 15,00.

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LIVROS FORA DO EIXO - NOTÍCIAS

Dalila Teles Veras

TRÊS POETAS DO PIAUÍ

O Piauí só aparece na grande mídia do sul maravilha por ocasião de grandes tragédias e da atuação (quase sempre desastrada) de seus políticos. O Brasil, que mal conhece o maior poeta daquele estado, o simbolista Da Costa e Silva, e pouco ficou sabendo da elegância de Mário Faustino e da irreverência e ousadia de Torquato Neto, sequer desconfia daquilo que hoje ali se produz e ali mesmo é consumido – terríveis e distantes fronteiras as nossas. Eis algumas breves notícias:

Viragens é o mais recente livro de Francisco Miguel de Moura, verdadeiro homem de letras, cuja luta vem da chamada literatura marginal (foi editor da revista Cirandinha, que circulou por vários anos em todo o Brasil, via correio) e outras estripulias, inclusive como editor da revista Cadernos de Teresina, mais recentemente. Crítico respeitado, contista e cronista, mas primordialmente poeta, gênero no qual exercita sua melhor criatividade. Em 1997 publicou uma reunião de sua obra poética, apropriadamente denominada Poesia in Completa, visto que o seu fazer poético é um trabalho em constante progresso. Este seu Viragens é prova disso e mostra um poeta dono de uma voz que passeia, segura, sobre os temas universais do amor ("cair amor / talhado / a teus pés, que de / leite! / eis o orgasmo estreito / do poema troncho, / do amor per / feito), da morte ("... Ou morrerei cedo, / sem palavras de amor, / com a baba na garganta") e a metafísica do próprio existir ("Somos só lembrança / ou / fragmento p / ousado / no anti-ontem"). O poeta Chico Miguel, como é conhecido em sua terra, sabe que "O poema é preciso / no grito / ou no tapa / o poema impreciso / ím / par perfeito / ou em la(r)vas. / O poema é vulcão".

Nem tente achar o volume em qualquer prateleira de nossas livrarias. É fora do eixo e das estantes. Recorra direto à fonte: Av. Luiz João Almeida, 1750, Cep 64049-650 – Teresina – PI.

Veneno das Horas é também o mais recente livro de Hardi Filho, um poeta que prima pela elegância do dizer e delicadeza do não-dizer, como os silêncios na música, música, aliás, da qual o poeta se vale para impregnar seus poemas de um ritmo reconhecível, marca pessoal que o identifica em poemas como estes: "DE NAVE(G)AR / Moça e linda vens de lá / jovem livre vou de cá. / Nesse encontro olho no olho / sou escolhido e escolho. (...)"; "DE QUATRO EM QUADRO / De silêncios entranhado / sem um divã que lhe acoite / eis o fauno debruçado / no parapeito da noite (...)" ou, ainda, "DE IDÉIA / A idéia da pedra e da água / nunca existiu antes da água e da pedra / assim como a nossa idéia / nunca existiu antes de nós. (...)" que mostram a preocupação do poeta, expressa neste verso que finaliza o poema DE IDÉIA: uma idéia de mim depois de mim. Criador de múltiplas facetas, além dos 7 livros de poesia publicados, é autor de vários ensaios e um diário (O Dedo do Homem), publicado em 2000, que bem retrata a sua "militância" de homem dedicado às letras.

Eis o caminho das pedras: Rua 7 de Setembro, 575 – S, Cep 64001-210 – Teresina – PI.

Por último e não menos importante, registramos o livro Rosa dos Ventos Gerais, de Elmar Carvalho, outra voz (re)conhecida no seu Estado, poeta explicitamente compromissado com as desigualdades sociais, que, no dizer do crítico Assis Brasil, "canta a consciência da vida e dos compromissos humanos". Mas a poesia de Elmar não trata apenas deste tema, é também lírica e telúrica. Este Rosa dos Ventos Gerais reúne poemas de diferentes fases, publicados em diversos livros e esparsos em publicações literárias, e mostra bem a diversidade de temas e preocupações de seu autor, que optou por dividir os poemas por temática e pretende, "a cada cinco ou mais anos, ir reeditando este livro, acrescido dos poucos inéditos que venha a compor". Uma obra, portanto, que dá a conhecer o poeta Elmar Carvalho por inteiro, incluindo fortuna crítica.

O caso é o mesmo, recorra ao velho e bom correio: Rua Alboíno Alves de Meneses, 2745, Cep 64008-185 – Teresina – PI.

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LESA-PALAVRA

Tarso de Melo

Antecipações do jovem poeta

O livro recém-lançado por Carpinejar, Fabrício Carpi Nejar, poeta gaúcho nascido em 1972, tem um enredo propositadamente simples: um jovem projeta-se aos seus 72 anos para, desde lá, contar o que ‘aconteceu’ dali para trás. Até aí, tudo bem. Mas trata-se de um livro de poemas, em que aquelas reflexões ganham o colorido da mentira própria da poesia, e alguns leitores declarados de Terceira Sede (SP: Escrituras, 2001) parecem ter-se guiado apenas pela cadeia daquele enredo, sem ver, à frente dele, os poemas.

Li as elegias todas do livro com gosto, mas não porque tenha percebido, como estranhamente o fez Carlos Heitor Cony (o romancista para quem as metáforas são "pão e vinho da poesia"...), que "Carpinejar é um pesquisador da alma e dos apelos humanos, sintetizados e muitas vezes ampliados no território de sua vivência pessoal, na sua maneira de ver e sentir o mundo". Além de achar que esse seria um fardo muito pesado para qualquer poeta, não consegui ver isso em Terceira Sede, juro, a não ser na escorregadia leitura que supõe o próprio projeto gráfico do livro, pelos dedos trançados à capa ou pelas ilustrações que abrem cada elegia, onde algo como "espirais do tempo", num semi-apagado de cor (certamente paralelo a um semi-apagado de memória), arrastam objetos que costumam fazer a caricatura da ancianidade: bengala, cachimbo, guarda-chuva, mala, óculos, relógio (ou ainda pelo paralelo que pode ser imaginado no título com relação à expressão terceira idade).

O poema de Carpinejar mergulha muito mais fundo do que essa primeira superfície pode insinuar, e o poeta sabe disso, como deixou ver, por exemplo, numa entrevista recente, ao afirmar que sua "poesia é resistir na linguagem". A que resiste Carpinejar? Tomando por esse seu terceiro livro, percebe-se que o poeta opõe resistência, com as armas da linguagem, a quase tudo: ao espaço e ao momento históricos nos quais está situado, de que foge fazendo uso da "licença poética" de projetar-se ao ano de 2045 – como já dito, para observar desde lá – e, na mesma manobra, percebe-se, confronta a situação poética que o cerca.

O futuro, especificamente o futuro do poeta nos próximos 40 e poucos anos, em razão do "desvio" a que recorre Carpinejar em Terceira Sede, logicamente é visto como passado, de modo a converter o que seria expectativa e euforia num estado de alma próximo da nostalgia e de algum sentimento de perda (antecipado, é claro), sendo indispensável lembrar que isso não se limita aos porões da linguagem, mas que nela saltam inclusive pela escolha do tom elegíaco para traçar as linhas de sua observação. Não que isso implique, necessariamente, em concordar com o prefaciador do livro, Luís Augusto Fischer, quando afirma que "Poesia, para Carpinejar, é ainda e sempre um lugar de pensar a vida, feito acontecia antes da moda arte-pela-arte e parece que volta a acontecer agora, em parcela ponderável da arte de nosso tempo".

Dessa "moda" a que, segundo o crítico, Carpinejar foge, já não há muito o que falar em sua defesa, desde que percebeu-se (e já se vão alguns séculos...) que a maior contribuição da arte para fora de si viria justamente de aprofundar-se em si mesma. Isso é outro assunto. Porém, no entremeio, merece atenção o "pensar a vida" que Carpinejar, ainda segundo Fischer, abriga em sua poética, onde pode ser vislumbrada a resposta para outra questão que salta da afirmação colhida na entrevista do poeta: como ele opera sua resistência?

Em Terceira Sede, Carpinejar tem na base de seus poemas uma conjugação eficiente entre pensar a poesia como linguagem e como modo de vida, de ver a vida, de entender a vida. Seu livro, escrito desde outras datas, se lido palavra por palavra (ao invés da empreitada fácil de apontar o que visualmente sugere seu corpo), permite ver bem mais que um salto no tempo, um olhar para trás, deambulações pelo futuro. E esse mascaramento – do que no presente é claramente percebido em algo visto através do filtro de algumas décadas – constitui a principal estratégia de Carpinejar para resistir, a tudo, na linguagem de seus poemas.

Leia-se na terceira elegia, exemplarmente, como isso se dá: "Estive sempre de pé no ônibus, espremido entre o ferro / da cadeira e o rumor dos passageiros. / Educado a ser o último, cedi o lugar a gestantes e idosos. / Estive sempre de pé no ônibus, me defendendo / ao largo do corrimão de tantos rumos, / alianças e ponteiros com paradas diferentes. / E o brado irritante do cobrador ainda a exigir / um passo à frente" (p. 27).

O poeta toma o futuro como seu observatório, mirante, local de onde parte seu ponto-de-vista, e não propriamente como "objeto" dos poemas, pois a voz idosa que perpassa os textos volta-se para o que vive o poeta ‘hoje’, o nosso presente. Terceira Sede funciona, dessa maneira, como um diário deslocado no tempo (um memorial prematuro?), e o leitor verá, por trás dos cabelos brancos, o quanto essa desarticulação do olhar tem da juventude da poesia.

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O QUE ESTOU ESCREVENDO

<> Ademir Medici Nasceu em São Bernardo do Campo, SP, em 1950. Seus pais, avós, esposa, sogra e filhos lá também nasceram. Os oito bisavós foram imigrantes – sete italianos e um austríaco. Os oito chegaram ao Núcleo Colonial de São Bernardo entre as décadas de 1870 e 1880. Portanto, é "batateiro", apelido coletivo de quem nasce na antiga Vila e Freguesia de São Bernardo. É também jornalista, formado pela Cásper Líbero. Está na profissão desde 1968, uma carreira quase toda construída no Diário do Grande ABC. Dedica-se à memória regional. Tem 21 livros escritos sobre o tema (12 publicados e 9 inéditos), 13 contribuições em obras coletivas, 11 trabalhos diversos, 5 posfácios de livros de amigos, num total de 50 títulos.

  "Os últimos três anos ou quatro têm sido puxados. De repente, descubro que tinha assumido três desafios: pesquisar e escrever sobre a história da Sociedade Ítalo-Brasileira de Santo André no seu centenário (1900-2000), sobre a história do rádio e dos radialistas do Grande ABC e sobre os 80 e poucos anos do São Caetano Esporte Clube, para dar continuidade a uma série sobre o registro do futebol na região.

Neste meio tempo surgiu um quarto desafio: produzir o diário de 1999 na onda deste projeto belíssimo e coletivo delineado em duas ou três reuniões inesquecíveis na nossa Alpharrabio. Vem a Livre Mercado, deste outro maluco chamado Daniel Lima, e solicita um texto de 15 a 20 mil toques (antigamente se falava laudas ou linhas de 70 toques) sobre o Grande ABC para o Nosso Século XXI.

Resultado: passei a tremer toda a vez que o telefone, aqui do lado, toca: Pronto, lá vem mais trabalho. Ou então: Pronto, lá vem cobrança.

Só sei que a única coisa que consegui manter em dia foram as colunas do Diário – porque elas têm que ser publicadas diariamente, uai!, de domingo a domingo.

Neste início do segundo trimestre de 2002 começo a respirar um pouco, já que, dos compromissos maiores, resta a parte final do livro do São Caetano, que absolutamente não ficará pronto no 1º de maio, data do 88º aniversário do clube.

Em compensação, o telefone não há de tocar e este pedido da Dalila para esta resenha me ajuda a organizar a bagunça. Estou mais ou menos compromissado com as seguintes instituições:

1. SESC São Caetano: quer um trabalho sobre a hidrografia do Grande ABC, a partir do vale do Tamanduateí. O tema pode resultar em quatro ou cinco exposições entre este ano e 2003.

2. A Acisa (Santo André) namora um livro sobre os seus 65 anos, a serem completados em fevereiro de 2003.

3. A Avape pede, a toque de caixa, uma revista só de 100 páginas sobre os seus 25 anos.

4. A Acisbec (São Bernardo) quer atualizar um livro sobre a sua história, que fizemos em 1994 e que aguarda revisão.

5. E a Dalila, o Teles e o Possidonio pedem o complemento daquele diário de 1999 – lembram? – em que falta passar para o papel as anotações da viagem de 40 dias a Europa.

Isso se o telefone não continuar a tilintar nervosamente!"

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QUANDO A CATARSE NÃO MAIS AJUDA

(...rumo à construção da seqüência do trabalho do prefeito Celso Daniel...)

1. a catarse duvidosa

Aristóteles nos ensinara sobre a evidência e o sentido da purgação, ou da catarse, no universo da tragédia, em que o entrevero supranatural determinava o destino humano. Em conseqüência, o nosso encontro com o pior poderia fazer-nos melhores. Já na arte mais próxima dos nossos tempos, a ruptura das unidades narrativas e o fluxo da consciência (que também compõem a nova complexidade social e científica) deslocam os indicadores da purgação para o campo do eu interior, da vida social e da interlocução necessária, lugares em que se deve buscar e quiçá se encontrem novas soluções para o drama concreto dos homens e das mulheres. A iluminação discursiva, na arte e nas ciências, tem buscado superar o exclusivo poder do impacto purgativo, ou catártico. O auto-de-natal pernambucano de João Cabral sinaliza que os discursos do texto e as falas da vida se encontram e confluem quando as respostas aos dramas humanos deixam de ser virtuais para se fazerem vida, vida que se vive, ainda que franzina e severina. Mas como a fala e o grito são suportes da consciência do viver, a expressão e a comunicação fazem-se indispensáveis nos tempos do impasse, do horror ou da decisão. Eis que esse é o nosso tempo e as criaturas sensíveis dos lugares onde vivemos buscam antes entender a perspectiva do seu próprio assassinato, simbolizado na violência contra o imprescindível prefeito Celso Daniel. Nós também morremos na morte do nosso interlocutor.

A purgação antiga, que cruza o tempo e ainda encontra lugar na expressão barroca, é companheira dos povos violentados pela colonização, pela devassa, pelas ditaduras e pelas mais diversas formas de injustiça e submissão. Ali anuncia-se a imagem do céu, mas ofuscada pelo jogo duro da vida infernizada. No entanto, ainda que cheguem à modernidade e à pós-modernidade, as purgações engendram reações que podem consumir-se como mercadoria e, no limite, chegarem à farsa, quando a ironia e o riso são parceiros do próprio horror. Aí, mesmo quando se sai do silêncio de espectador para o confronto da consciência e da participação e do ato irado e raivoso ecoam e escoam expressões e manifestações que purgam o horror vivido e sentido, ainda assim carece de novos suportes e novas referências para não banalizar a catarse e suas conseqüências renovadoras.

De fato, a boa nova, na sociedade autoritária do consumir e do consumar, não nascerá da ira ou do horror purgativos, nem da espera, mas da consciência audaciosa para inventar novos modos e novos pactos de comunicação e de gestão social. É isso o que desejo propor e, se possível, sugerir a encarnação do meu desejo, na medida em que ele tenha um valor coletivo.

2. o silêncio comunicável

Desde 20 de janeiro tenho preferido o silêncio. Fui mais ouvinte que falante. É verdade que nestes dias tenho pensado numa coisa só: o que é que se pode construir como novo e ampliadamente comunicacional que seja da natureza da ação do nosso prefeito morto? Que tenha o seu rosto! Algo que seja evidência de sua seqüência no mundo, seja símile de sua vida, sua redenção, jamais sua simulação. Algo muito superior ao seu nome nas praças, parques e ruas. O Celso Daniel redimido será o Celso continuado, ampliado na comunicação da memória por outros e outras anônimos e anônimas que também foram e são violentados e violentadas. Nossos amigos, conterrâneos, talvez nossos irmãos e irmãs.

De início, existe uma mensagem que nasce dos gestos do gestor Celso Daniel, a qual precisa constituir-se como história redimida. No raio de sua ação como prefeito e líder, era possível fazer, divergir e propor a favor da coisa pública sem precisar ser íntimo, amigo, partidário ou puxa-saco. Eu mesmo, e tantos outros, que jamais fomos seus íntimos, pudemos trabalhar intensamente ao seu lado. Não sendo uma lição de economia, de onde vinha esse aprendizado? Da sua precisa intuição no rompimento institucional e emocional da cidade, que deixou de ser construída para ser usurpada. Deste modo, no vislumbre inicial de sua reconstrução, o grande agente aglutinador dos nacos de contribuição teria de ser a polis e não seus dirigentes. Portanto, esse modo de agir do prefeito violentado já nos orienta para o sentido de sua permanência. Na cidade rompida, a vontade e o ato não batem continência, nem assinam fichas no cartório; ao contrário, afirmam-se como cumplicidade coletiva. Mas eu também fiz a leitura do conteúdo dos seus discursos, textos e falas. Acredito ter entendido a mensagem aglutinadora do Celso, que na crítica literária chamamos de obsessão do autor, motivo reiterado que traduzo deste modo: " é necessário institucionalizar as vontades e torná-las uma experiência participativa... noutras palavras, o novo cidadão, a nova cidadã é quem sai das periferias da vontade para o centro do desejo, lugar coletivo onde se encontra a cidade em construção. Onde estamos nós, pessoas dotadas de necessidade, inteligência e desejo, capazes portanto de decidir o modo, o processo, o objeto e o tempo da construção..." O pensamento do Celso se organiza pela técnica do gestor da nova cidade (mas também pelo modo como se organiza um bom filme) de ir encaixando subjetividades e objetividades, sinais, vontades e fatos dentro de um amplo movimento de xadrez capaz de conectar as memórias em um largo espectro do tempo, no qual o que importa não é que uma coisa supere a outra e a esqueça, mas sim que as coisas difusas ganhem rumo e direção na institucionalização participativa. Não teria sido isto o que a região do Grande ABC viu em seu trabalho desde 1989? Assim, o jeito de dizer e o significado das mensagens centrais do prefeito andreense podem definir o rumo da sua continuação redimida e nela a seqüência histórica. Não basta vê-lo como valor instrumental, alguém que, pela sua morte, estimula atos pretensamente renovadores na sociedade vítima da violência. Carece-se de vê-lo como quem buscou dar um tom das mudanças segundo um pensamento ordenado. Diante da forma de ser e do conteúdo de sua mensagem, não são mais as purgações capazes de ajudar e nem de longe ataques e artimanhas podem estimular o esquecimento e a acomodação. O que precisa ficar mais claro, nessa fase da história cultural brasileira, é que todos nós que pensamos, que fazemos propostas, que planejamos o amanhã, que ensinamos e somos ensinados no diálogo social estamos um pouco assassinados, mutilados e postos em xeque no próprio significado do que fazemos. Por isso, impossível será ficar sobre o muro. Ou interpretar tudo pela razão instrumental.

Antes de tudo, porém, precisamos superar o barroquismo purgativo. Diante do horror, ele sacraliza a catarse e, em nosso caso, cristianiza um discurso em torno da vítima, da barbárie, da ineficiência dos poderes. Nós o temos ouvido desde o domingo, 20 de janeiro. Esse discurso purgador vibra nos corações até o momento em que aparentes ou reais contradições e artimanhas são destiladas pelos poderes constituídos, o que leva nosso discurso altissonante à defensiva, diminuindo o fervor inicial em favor da espera angustiante das notícias, das operações midiáticas determinantes de julgamentos tantas vezes falsos. A celebração vira simulação. A defensiva abre flanco ao ataque e a memória historicamente violentada, difusa, desorganizada, arruma modos de acomodação no seu tempo e do seu jeito.

3. encarnar e redimir...

Devemos nos recusar à acomodação, tanto como princípio como estratégia. Coletivamente, para sermos fiéis à caminhada histórica da região em que vivemos e aos motivos reiterados pelo prefeito sacrificado. Por isso, a gente sensível do Grande ABC precisa criar encarnações na história da construção da cidade que queremos. O caminho não será somente o de acrescentar mais um projeto às centenas (entre os quais há muitos bons) que vão sendo arrancados das gavetas legislativas, executivas, judiciárias e de instituições da sociedade civil e que tratam de segurança, planejamento, prevenção, rigor jurídico, eficiência e competência repressiva, educatividade dos agentes etc. Cabe-nos, como sociedade organizada, o posicionamento seletivo perante os projetos de real valor humano e a vigilância cooperativa em sua implantação, avaliação e direcionamento. Porém, ainda mais. Que contribuamos pela audácia e pertinácia, cada qual e cada grupo segundo seu campo de inteligência, conhecimento e ação, para a criação de uma cultura da diferença como agregação produtiva e indispensável à construção da cidade. Que batamos hoje e sempre na tecla do esclarecimento da região, do estado e do país quanto a fazer da vontade difusa um centro de experiência participativa. Esclarecer é preciso, ainda que seja, como vimos tantas vezes (e mais agora), uma ação a contrapelo. Para tanto, e para criar encarnação, proponho construirmos nas sete cidades painéis da cultura da paz, feitos pelo nosso engenho artístico e operados comunitariamente para se constituirem em termômetros e cronômetros do avanço da justiça, que resulta na cultura da paz e da participação. Neles poderemos ir marcando metas e fatos construtores dessa cultura plural capaz de se tornar melhor, de superar a desagregação, de fazer ver a cidade do futuro, de garantir a justiça e de oferecer novos indicadores de qualidade de vida. Fatos tanto empíricos como subjetivos teriam lugar nesses painéis culturais da paz, cujos ponteiros assinalariam na história a partir de 20 de janeiro de 2002 que o dilema vivido nos dias deste início de ano não será maior do que a nossa força de vontade aglutinada, diferenciada, mas participativa. Deste modo, não purgaremos, pela memória ou pela reprodução, os dias de janeiro e os que os seguem, mas os faremos reais parceiros da redenção da vida, trabalhada pela construção da cidade plural e saudável.

Luiz Roberto Alves - Professor junto à Escola de Comunicação e Artes da USP e coordenador do Laboratório de Gestão da Sociedade Regional, do IMES (São Caetano do Sul). Atual Secretário Municipal de Educação e Cultura de Mauá. Publicou, entre outros, Culturas do Trabalho – Comunicação para a Cidadania (Alpharrabio Edições, 1999)

NR: Achamos oportuno publicar este texto do prof. Luiz Roberto Alves, lido em um ato público, realizado no Teatro Municipal de Mauá, em memória de Celso Daniel, prefeito de Santo André, brutalmente assassinado em 20 de janeiro de 2002, por entendermos que o mesmo ultrapassa a ocasião e, agora impresso, propicia uma reflexão profunda que vem ao encontro de nossas preocupações e de nossa proposta ao atual debate, conforme anunciado no editorial deste número.

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MEMORIAL

Valdecirio Teles Veras

O lendário João Ramalho e a Villa de Santo André

Cidade Assassinada, de Antonio Callado, peça teatral editada no ano de 1954 e estreada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, pela Companhia Dramática Nacional, justamente no IV Centenário de São Paulo, retrata o nascimento de São Paulo e o assassinato de Santo André. Versa sobre hipotética polêmica entre Anchieta e João Ramalho. Um impondo a transferência de Santo André para São Paulo e o outro defendendo, com unhas e dentes, a sua Santo André. A peça foi também montada pelo Grupo Teatro da Cidade, de Santo André, sob a direção de Antônio Petrin, inaugurando o Teatro Conchita de Moraes, em 5 de abril de 1970, em Santo André, como registra José Armando Pereira da Silva, em Cidade Assassinada: Uma Tragédia Cristã (Revista Virtual Loquens) .

O enredo é simples e circunscreve-se à mudança da vila de Santo André para São Paulo por inspiração dos jesuítas que ali fundaram um colégio. A "catequese" de José de Anchieta e Manuel da Nóbrega era uma e a de Ramalho era bem diversa: precisava de homens para o trabalho, não queria santos. O mais importante era ter braços para construção da riqueza da cidade e o seu povoamento através de uma nova raça. Para os jesuítas, interessados na fundação de uma nova cidade, que viria a ser São Paulo, ele não passava de um aventureiro, escravizador de índios e, além de tudo, um depravado, pois incentivava a procriação das índias. Ele tinha um incalculável número de filhos, afinal de contas, segundo o próprio, a região precisava de homens dispostos a trabalhar. Uma nova raça deveria nascer da fusão índio/colonizador.

A verdade verdadeira sobre a vida de João Ramalho ainda não foi contada. Ele fazia mistério sobre sua chegada ao Brasil. Para muitos, teria chegado antes de Colombo, seria ele o verdadeiro descobridor da América. Teria nascido em Vouzela, no norte de Portugal e falecido já centenário. Fala-se na existência de um testamento em que teria falado sobre sua vida, mas tudo é lenda até que esse documento apareça. Muitos são os seus detratores, mesmo entre aqueles que elogiam a audácia e coragem dos bandeirantes. Esses, com suas "entradas e bandeiras", também preavam índios. Sobre eles também não se divide o que é lenda e o que é história. Um desses bandeirantes, Domingos Jorge Velho, o fundador do Piauí, numa dessas "entradas", teria voltado com 260 pares de orelhas de índios, segundo romanceia Assis Brasil (Bandeirantes – Os comandos da morte, IMAGO, 1999). Pela proeza teria sido elogiado até pelo bispo de Belo Horizonte. Portanto, deve-se julgar o homem João Ramalho pela época em que viveu, pelos idos de 1500. Os bandeirantes, cerca de um século depois, eram mais prepotentes que ele e dispunham de homens para impor suas vontades. Já Ramalho, não. Que poderia ele fazer logo após o descobrimento do Brasil, sem homens e sem recursos? Era um simples português, um aventureiro que se casou com Bartira, filha de Tibiriçá, e chegou a ser alcaide da Vila de Santo André.

Voltemos ao ponto inicial, o resgate do livro de Callado, tão ficcional quanto a lendária vida de João Ramalho. É sabido que há um interesse em resgatar a vida desse pioneiro, inclusive por parte da cidade onde teria nascido, e deste esforço bem que Santo André poderia compartilhar. Se, de um lado, nasceu em Vouzela, de outro fez nascer a vila de Santo André. Na peça de Callado, Ramalho demonstra uma grande estima pela cidade, sentimento de que ela carece e que espera, ainda hoje, de seus munícipes. Mas meu propósito é o de apenas fazer um resgate do livro, para que esse não seja apenas uma raridade nos sebos ou centros de referência, como o Alpharrabio.

Apenas para aguçar a curiosidade dos leitores, transcrevo alguns diálogos da peça de Callado. É João Ramalho quem se apresenta: "Eu sou o Alcaide-mor desta Vila de Santo André da Borda do Campo. Quando cheguei a esta parte do Brasil nenhuma bota de homem branco tinha marcado a areia da praia. Quando o primeiro donatário chegou eu já tinha umas três famílias. Naturalmente, devo obediência ao Governador Geral desta terra e até mesmo a Sua Majestade El-Rei, lá em seus paços em Lisboa... A contragosto fui levado – digamos – suspender temporariamente minhas fidelidades ao Governador Geral e outras autoridades que, sob a capa de dar maior proteção à comunidade branca do planalto em que nos achamos, pretendem que eu transfira para o Colégio dos Jesuítas em São Paulo os foros de vila e o pelourinho de Santo André da Borda do Campo".

Alguns recados de João Ramalho a Anchieta: "Escuta, Padre, eu luto com pólvora e com aço, não luto com versinhos de autos ou histórias de catecismo. Diz a quem te mandou me insultar que aqui não ponha os pés. Santo André da Borda do Campo há de viver muito mais do que todos nós – e muitíssimo mais do que esse sacristão temerário, fabricante de autos, se daqui se aproximar". Prosseguindo, em resposta a Padre Paiva, que dizia ser Anchieta um santo: "E lugar de santo é o céu! Aqui em Santo André eu preciso de homens de carne e osso, de escopeta e de arco. Até padres podem vir. Eu preciso de padres como preciso de pedras, como preciso de tábuas – mas quero padres que digam a esses índios vadios que Deus lhes ordena que trabalhem...".

O encontro de Anchieta com Ramalho não se consuma. Na peça, antes do encontro de ambos, o fundador de Santo André morre. Diante de seu corpo, Anchieta diz: "Assim, tua alma agreste e tormentosa evitou até o fim o nosso encontro. Faltou ao meu redil a ovelha buscada com maior paixão. Vamos levar em procissão o corpo de João Ramalho para a vila de São Paulo de Piratininga. Este pelourinho, por ordem de Sua Majestade e por comando do Governador Geral, deve ser transportado para São Paulo – mas em São Paulo ele se fincará sobre o túmulo cristão de João Ramalho, lobo de Deus, fera do Senhor. Até para fazer uma cruz é preciso derrubar uma árvore: João Ramalho foi o lenhador de Deus. Cidades de sangue e de paixão precisam existir para que delas surja uma Cidade de Deus: João Ramalho foi o pedreiro dos alicerces do Senhor. – Levemos em nossos ombros, pelas trilhas que sua bota terrível abriu como lanhos na terra do planalto, o corpo de João Ramalho. Como o grão de trigo que cai na terra e morre, para frutificar, ele cairá na terra de São Paulo, por nós semeado, e frutificará".

Sim, em cada lenda há sempre um fundo de verdade. Uma verdade aqui, outra ali, formam-se outras verdades e a verdade verdadeira, 500 anos depois, torna-se difícil.

Mas não impossível. Frei Gaspar da Madre de Deus teria lido o testamento de João Ramalho, mas onde teriam guardado tão precioso documento? Enquanto não o encontram, contentam o leitor as deliciosas lendas de Antônio Callado.

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A SALVAÇÃO PELA EDUCAÇÃO

Não estaremos lutando contra moinhos de vento.

Afirma a sabedoria popular que "o lobo perde o pêlo, mas não perde o vício". Verdade, sim.

Educadora, docente por trinta e seis anos profícuos, tenho comigo uma certeza: é na escola que se encontra a fórmula capaz de desvendar o mistério da salvação do mundo.

Utopia?

Não, fé, convicção.

E por que na escola ou principalmente nela?

Porque, se na família nasce o ser biológico, é principalmente na escola que se forma o ser social.

Ali, a criança individualista, egocêntrica, vai aprendendo, paulatinamente, de modo objetivo e sistemático, valores humanos entre os quais: reconhecer o outro, senti-lo, colocar-se em seu lugar, prerrogativa que, na verdade, segundo Aristóteles, faz a diferença entre o homem e os outros animais.

Nos anos de jornada pela escola nasce o homem social. Então a criança descobre que o mundo é maior do que ela imaginava. Aprende a respeito de si e de tudo que a cerca. Desenvolve a capacidade de apreciar uma flor, admirar uma estrela, ouvir a canção do vento, inspirar-se com a cantilena da chuva, amar a música e a poesia, onde quer que se encontrem.

Nasce o homem artista, desvenda o belo.

Aprende a descobrir, no vôo da borboleta, a essência da liberdade; no sorriso das crianças, a inocência dos que chegam; na curiosidade do olhar infantil, a sede dos que ainda não conhecem; nos cabelos brancos do ancião, a história de uma vida; busca respostas para perguntas que emergem, muitas das quais jamais serão respondidas.

Nasce o homem pensador, volta-se para dentro de si, debruça-se sobre o Uno e sobre o Verso.

Aprende a importância do dever e o valor intrínseco do direito – o respeito à pátria, à sua história e à memória dos que as construíram – aprende a necessidade de participar da vida, como elemento de criação e de transformação.

Nasce o homem cidadão, reconhece-se parte ativa da sociedade. É sujeito.

A possibilidade de melhoria do mundo está inevitavelmente acorrentada à formação do indivíduo do futuro, presente na criança e no jovem do agora.

Formar é mais viável que reformar. Tem-se buscado as transformações pelas armas, pela macro-revolução. Pouco se tem conseguido. O sucesso para tal busca reside, na verdade, na micro-revolução ou "Revolução Humana", traduzida na revolução íntima de cada ser. Parte dessa incrível tarefa se incumbe à escola. É ela que detém a chave do segredo.

Fantasia? Não. Fé. Convicção.

Se a escola assim não crer, se não marchar na direção desta meta, estará descumprindo seu papel. Se limitar-se a apenas informar, eximindo-se do dever de formar, será uma instituição pela metade, e aí então, as douradas esperanças de um mundo melhor, de um Homem Gente, se diluirão nos desvalores e nos descaminhos da ambição, do egoísmo, do desamor.

Amigos educadores de todos os "fronts", se realmente quisermos seremos capazes; nossa voz não se perderá no deserto, nem estaremos lutando contra moinhos de vento.

O Tempo dirá.

Therezinha Malta, educadora, professora aposentada da rede pública. Autora, em parceria, de A Grande Assembléia e A Redoma Invisível (Ed. do Brasil), livros para o público infanto-juvenil.

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PAISAGENS DO OLHAR

Paisagens do Olhar (Alpharrabio Edições, 2001) é um livro desvendador dos conflitos do homem sensível, questionador das atitudes pessoais e sociais em relação ao tempo-físico e tempo-vida. Os sentimentos do poeta são ampliados para dúvidas generalizadas sobre o que somos, para que vivemos. Somos mascaradamente confraternizados, enquanto indivualistas "egos-servis", compromissados com um sistema que nos cobra obrigações coletivas, com as quais até desempenhamos papéis razoáveis, nunca satisfatórios, plenos. Não compartilhamos medos, dúvidas, vida. Representamos socialmente e enclausuramos nossas angústias. Qual a nossa medida? Descobrimos a felicidade em "grãos, quando a almejamos eterna". Mesmo a palavra satisfaz em termos como criação, momento fugaz, menos como satisfação. Sonhos são ilusões; a vida, rotina de amores e violências. O tempo, um compasso de espera. Há um destino ao qual nos subjugamos e não há que negar uma insônia criativa, pesadelos poéticos.

O livro nos convida, através da poesia, a uma auto-análise e só por esta razão é merecedor de uma leitura lenta e reflexiva.

Wagner Calmon é professor, poeta, cronista e músico.

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www.alpharrabio.com.br

Cliquem todos, urgente: está no ar o sítio eletrônico Alpharrabio, que já nasce como o mais completo pólo virtual da cultura no ABC, dando conta num só ambiente das principais notícias sobre as atividades culturais (leituras, autógrafos, exposições de arte plástica, apresentações teatrais e musicais), editoriais (os lançamentos da Alpharrabio Edições e seus parceiros), comerciais (as raridades do acervo da livraria e os títulos do catálogo próprio), além de informações importantes sobre os autores da casa e também sobre a vida da livraria em seus dez anos de intensa atividade. Claro, os visitantes mais atentos perceberão que www.alpharrabio.com.br está em fase de ajustes, mas devem saber que a equipe – capitaneada pela artista plástica e webdesigner Constança Lucas – continua trabalhando, revendo, acrescentando: nosso sítio foi pensado para ser um rápido repositório do que ocorra ao redor das tantas atividades da casa, afirmando-se como a ponte necessária entre o Alpharrabio e os inimagináveis transeuntes do mundo virtual. Website, site, sítio, o que seja, mas sempre vivo: viva!

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DIÁRIO DO MUNDO

Coleção Imaginário

<> ABC no Fim do Milênio, Antonio Possidonio Sampaio. SP: Alpharrabio, 2000 – 224 págs.

<> Minudências, Dalila Teles Veras. SP: Alpharrabio, 2000 – 120 págs.

<> Na Trilha do Trem, Valdecirio Teles Veras. SP: Alpharrabio, 2000 – 136 págs.

<> Além da Prosaica Realidade (quase diário / 1999), Alexandre Takara. SP: Alpharrabio, 2001 – 200 págs.

<> Idos e Vividos (a cota diária do meu samburá), Marília Magalhães Pedrosa. SP: Alpharrabio, 2001 – 128 págs.

Todos os livros podem ser encomendados à Alpharrabio Edições (Rua Eduardo Monteiro, 151, Santo André/SP, 09041-300 – tel. 4438.4358 – e-mail:

alpharrabio@alpharrabio.com.br) e custam R$ 20,00 cada.

"Esportistas precisam de bola, muitas vezes de tênis ou de um cavalo; escritores lidam com palavras. Ambos podem ser vistos freqüentemente viajando a pé: uns pelas pistas, os outros a caminho da linguagem. E a Europa é um continente difícil de ser atravessado a pé e que tem uma extraordinária profusão de linguagens" – tendo esta idéia por base, um grupo de cem escritores embarcou num trem em Lisboa e seguiu até Berlim, cruzando cidades como Madrid, Paris, Bruxelas e Moscou, durante 44 dias (de 4 de junho a 16 de julho de 2000), com o intuito de averiguar uma nova identidade européia (genuinamente internacional), rastrear novas linguagens, entender o que unifica e divide seus países. Entre as regras de Literature Express Europe 2000, caberia a cada um dos autores relatar em forma de diário o que visse pelo caminho e, depois, redigir um texto sobre essa tal "identidade européia" – textos que serão traduzidos para as cerca de cem línguas daquele continente (veja em www.literaturexpress.org).

Entre nós, revelando algo que precedeu a idéia dos europeus, a Alpharrabio Edições dá à luz a Coleção Imaginário, em que reúne diversos diários de um mesmo ano, enfocando um mesmo espaço e, certamente, também em busca de fixar a identidade do local em que vivem os autores – basicamente, tinham seus olhos voltados para uma região, o Grande ABC paulista, formada por sete cidades que, juntas, abrigam mais de dois milhões de pessoas. Os números impressionam, os diários também.

De início, conforme divulga a editora, eram cerca de vinte autores, entre escritores e jornalistas, mas nem todos concluíram a "tarefa", e até agora cinco foram publicados. Os autores editados, Antonio Possidonio Sampaio (idealizador do projeto e autor de ABC Cotidiano – cotidiário, experiência similar, originalmente solitária, realizada em 1992), Dalila Teles Veras, Valdecirio Teles Veras, Alexandre Takara e Marília Magalhães Pedrosa, não embarcaram em nenhum trem específico, não tinham local de partida nem de chegada predeterminados: apenas o compromisso de escrever um diário do ano de 1999, um detalhado ano da biografia desses autores, correndo paralelamente à dos demais e, assim, permitindo a leitura panorâmica da realidade que os circunda.

Nesses diários, tudo – o cotidiano, as reflexões, a memória instigada por fatos novos – deveria convergir para a revelação do imaginário político e cultural segundo as características que de cada um chamassem mais atenção dentre a mesma "extraordinária profusão de linguagens" que, no espaço europeu, cativou os escritores do trem.

As características da vida urbana desvendadas por esses autores lograram, ao final, dar a dimensão precisa do que ocorreu no desfecho do século/milênio num lugar antes marcado por servir de sede da esquerda operária nacional e de berço do sindicalismo e que – pelos contrastes de um momento histórico de crise generalizada – reproduz fielmente, à face já pós-industrial, todos os lugares do planeta atingidos pela nova mercantilização. E, também, deixaram perceber que suas vidas são a vida de todo mundo.

É importante aqui ressaltar, como têm feito muitos estudiosos, que pelas mais diversas razões as biografias – com autoria de terceiros ou como confissão autobiográfica, na forma romanceada ou de pesquisas meticulosas – vêm ampliando sua parcela no mundo das letras e, de forma marcante, na esfera editorial, recheando as prateleiras com as vidas das mais variadas "personalidades". Analisando com propriedade essa crescente utilização, mais ou menos proveitosa, das notações biográficas como substrato literário, a prof. Thaïs Ferreira Drummond afirma que "...o reconhecimento de que o eu só existe enquanto representação vicária de uma identidade inalcançável estimula a produção de textos literários que, de forma expressa e intencional, tecem o trabalho biográfico com a trama da ficção" ("Ensaio biográfico e crítica da cultura", em Declínio da Arte/Ascensão da Cultura, org. Raul Antelo. SC: Abralic/Letras Contemporâneas, 1998).

Exatamente isso, nas mais de oitocentas páginas que somam os diários publicados até agora, é o que salta aos olhos: ao passo que o compromisso de guiar o diário pela temática da vida coletiva, com a inserção da subjetividade nesse universo, necessariamente encaminha a experiência literária para uma fidelidade aos fatos, aos dados do mundo observado (fidelidade que, diga-se de passagem, dela não é própria), por outro lado, em todos os diários pode ser percebida a preocupação dos autores em manter proximidade com o modus da ficção, pois a história pessoal, as indagações, as idéias e o "jornalismo" peculiar aos diários sempre aparentam pertencer a uma realidade ficcionalmente elaborada, desenvolvida, moldada pela imaginação/criação dos autores.

De resto, esse recurso garante às palavras desses "diaristas" transcender o primeiro plano que interessava ao projeto (a vida no espaço urbano de determinada região), desse modo afastando o foco demasiado caseiro que muitas vezes orienta as experiências no gênero, centradas numa individualidade que as obceca. Umbigo, talvez.

No breve espaço de resenha não seria possível apreciar a diversidade de linguagens e de horizontes que os diários apresentam. Cada autor, suas táticas; cada dia, suas vozes. Não há notícia de que, em outro tempo ou lugar, escritores tenham-se reunido com semelhante propósito – seja o do trem, seja o dos "diaristas". E poucos anos de nossa história (talvez 1964, talvez 1968) foram registrados com o tamanho detalhamento e virtude estética que dedicaram ao 1999 os autores da Coleção Imaginário.

Por cumprir essa função – cultural, política, literária – diários como ABC no fim do milênio, Minudências, Na trilha do trem, Além da Prosaica Realidade e Idos e Vividos, e aqueles que prometem chegar, já mereceriam a melhor atenção dos leitores. Mas não é demais lembrar que estamos todos na transtornada paisagem em que se fixou essa fértil experiência entre literatura e realidade, e sequer nos damos conta disso.

Tarso de Melo

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OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Carlos Drummond de Andrade

 
  Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.  
  Tempo de absoluta depuração.  
  Tempo em que não se diz mais: meu amor.  
  Porque o amor resultou inútil.  
  E os olhos não choram.  
  E as mãos tecem apenas o rude trabalho.  
  E o coração está seco.  
  Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.  
  Ficaste sozinho, a luz apagou-se,  
  mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.  
  És todo certeza, já não sabes sofrer.  
  E nada esperas de teus amigos.  
  Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?  
  Teus ombros suportam o mundo  
  e ele não pesa mais que a mão de uma criança.  
  As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios  
  provam apenas que a vida prossegue  
  e nem todos se libertaram ainda.  
  Alguns, achando bárbaro o espetáculo,  
  prefeririam (os delicados) morrer.  
  Chegou um tempo em que não adianta morrer.  
  Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.  
  A vida apenas, sem mistificação.  
     
 

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  ABECÊS é uma publicação da Alpharrabio Edições e conta com a parceria cultural da Gráfica Bartira, da revista virtual Loquens (www.loquens.cjb.net) e de nossos anunciantes - 2º trimestre de 2002 · Editora executiva: Dalila Teles Veras · Editores: Antonio Possidonio Sampaio, Rosana Chrispim, Tarso de Melo, Valdecirio Teles Veras · Projeto Gráfico e Editoração: Isabela A. T. Veras · Jornalista Responsável: Rosana Chrispim MTb 16.651 · Redação: Rua Eduardo Monteiro, 151 – Santo André – Fone: 4438-4358 Fax: 4992-5225 www.alpharrabio.com.br - e-mail: alpharrabio@alpharrabio.com.br  
     
 


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