EDITORIAL

Com este número 8, o Abecês completa dois anos de circulação trimestral ininterrupta. A equipe editorial tem consciência do cumprimento da proposta inicial de "mapear", através de notas e resenhas críticas, a produção da literatura regional, introduzindo, a partir do número 5, um interessante diálogo com a literatura produzida no resto do país, intercambiando informações e idéias.

Muito se fez, pouco se ouviu dos leitores. A nossa região do Grande ABC, não é de hoje, mostra-se refratária às coisas da palavra escrita. Provocamos, abrimos colunas aos leitores, falamos de livros, de acontecimentos literários, convocamos ao debate de idéias e o que prevaleceu foi o silêncio. O silêncio obsequioso, do preferir calar a discordar, a participar, a interferir. O silêncio da acomodação e da indiferença. Como ninguém é profeta em sua própria terra, fora de nossas fronteiras o Abecês e os nossos escritores vêm sendo recebidos cada vez com maiores elogios. Temos sido objeto de resenhas críticas e generosas notas por este Brasil afora, vários de nossos editados foram incluídos em coletâneas e antologias importantes dentro e fora do país, além de colaborar com publicações literárias igualmente de relevância nacional, e o "grupo de Santo André", como estão sendo chamados os escritores ligados à Alpharrabio Edições, vem angariando o respeito no mundo da literatura brasileira.

A nossa página www.alpharrabio.com.br , com a biobibliografia de mais de duas dezenas de escritores, vem merecendo elogios e uma crescente visita de interessados em literatura e cultura, projetando os nossos valores para muito além de nossas fronteiras.

A sede da Alpharrabio Livraria e Editora ganhou, depois da longa reforma, um espaço físico ampliado e mais condizente com o perfil de centro cultural que verdadeiramente já era, agora oferecendo, além do maior espaço, o conforto a seus usuários, acrescentando um charmoso Café.

Como se vê, o silêncio não nos atemoriza nem nos faz esmorecer. A resposta é o trabalho incessante, sério e contínuo que fez da Alpharrabio Livraria e Editora o que ela realmente é: uma referência cultural.

Desejamos, mais uma vez, patentear o nosso agradecimento ao decisivo e imprescindível patrocínio da Gráfica Bartira, além de reconhecer o não menos imprescindível apoio de parceiros como a Hanpa Express Bureau, as Faculdades IESA e o Fabricando Idéias, que tornam possível esta publicação.

Dalila Teles Veras

 


EU, LEITOR, CONFESSO:

Uma palavra vale mais do que mil imagens

Tive um professor de Matemática no colégio, já batendo nos seus 70 anos, extremamente gozador. Certa vez, entrou na sala totalmente sem voz. Pediu o mínimo de barulho porque podia apenas sussurrar. A classe, solidária, manteve um silêncio de cemitério. Ao final de cinqüenta minutos murmurando a aula, o velhinho iniciou a chamada com sua voz perfeita, fortíssima e metálica; tinha nos pregado uma peça.

Era o único professor de Matemática que corrigia erros de Português. Escritor, tinha vários livros publicados e um grande amor à palavra escrita. Quando nos via assassinando a língua, sempre dizia: "No meu tempo, quando queria flertar com uma moça, dizia ‘Vamos ao cinematógrafo?’; depois, passaram a dizer ‘Vamos ao cinema?’; hoje vocês dizem ‘Vamos ao cine?’ e daqui a pouco vão fazer apenas isso", e fazia um movimento de cabeça como quem convida para ir em uma direção.

Lembrei-me dele e dessa história, porque sua previsão parece estar se cumprindo. Vivemos a era da imagem, do ícone. A propaganda iniciou este processo, com o objetivo de comunicar o máximo possível com um mínimo de espaço e tempo. Veja a logomarca da Nike: é uma garatuja, menos que um ideograma. No entanto, basta vê-la para nos lembrarmos de tudo o que a propaganda colocou naquele símbolo. Somos condicionados de forma pavloviana e "salivamos" a cada comando dos semiólogos pós-modernos.

Quando a Internet possibilitou o correio eletrônico, pensei: "Ótimo, as pessoas vão resgatar a palavra escrita, vamos voltar a mandar cartas". Carlos Heitor Cony mostrou a mesma esperança numa coluna. Contudo, basta ler o texto de uma mensagem eletrônica, para nos desesperarmos. Não há acentos; "você" – que já é abreviatura de Vossa Mercê – vira v.; "beijos", vira bjs e, pasmem, "não", vira "naum", apenas porque o til exige toque simultâneo de duas teclas. Não há tempo nem vontade para isso.

O problema dessa opção pela imagem e pela redução da linguagem é que a palavra escrita nos liberta, enquanto a imagem é ditadora. Ao percorrermos um texto, por mais descritivo que seja, somos livres para formar qualquer imagem, isto é, imaginar. Minha Capitu é só minha; eu a criei a partir da descrição do Machado. O que são, para você, "olhos de ressaca"? Com certeza, são diferentes dos meus "olhos de ressaca"... Mas se alguém nos fornecer uma imagem dos olhos de Capitu, estaremos escravos da imaginação de outro. Abrimos mão de nossa possibilidade de criar e interpretar. Renunciamos à nossa capacidade de refletir.

O que existe hoje é uma grande preguiça. Meu filho universitário foi "obrigado" a ler Eça e Machado para o vestibular. Não gostou de nenhum, mas "suportou" Machado, sabem por quê? Porque Machado é mais conciso e Eça "passa muito tempo descrevendo minuciosamente os locais e as personagens". Para ele, a leitura não tem ritmo, é lenta. Claro, foi formado na velocidade de um filme de Spielberg (Caçadores da Arca Perdida) ou de George Lucas (Guerra nas Estrelas). Imagens alucinantes e efeitos especiais, na dinâmica de videoclipe ou comerciais de TV. Respostas rápidas, como num controle de videogame.

Um estudo científico parece ter comprovado que a geração do videogame tem maior número de neurônios e conexões nervosas. Para que servem os neurônios, além das funções vegetativas e de manutenção da homeostase animal? É exatamente aí que reside o maior problema: a leitura é essencialmente reflexiva e hoje em dia ninguém reflete, apenas deglute. Nunca houve tanta informação e tão pouca meditação. Só o cérebro participa do processo alucinado. O espírito, julgador crítico, precisa de mais tempo e por isso é excluído.

Não conseguimos passar para nossos jovens a graça de viajar na própria imaginação, levados por um texto bem construído. Não percebem que, além da informação, existe a fruição estética da forma, do encadeamento mágico das palavras e das reticências que todo texto deixa para que o leitor interaja livremente (!) com sua dinâmica emocional, criando a própria verdade.

O paradoxal é que essas são as palavras de ordem dessa geração: interação e liberdade. Justamente o que a imagem lhes nega e o texto lhes dá generosamente.

Paulo Chacon, cirurgião dentista

voltar

 


O QUE ESTOU LENDO

Maria Carla Corrochano, socióloga, mestre em educação, assessora do Programa Juventude - Ação Educativa,  e da equipe da revista eletrônica Loquens

"Leio no momento o livro Violência e Democracia, de Angelina Peralva (Ed. Paz e Terra, 2000).

Trilhar caminhos para compreensão do fenônemo da violência em nosso país foi uma das razões que me levou à leitura deste livro. Temos vivido um aumento considerável do sentimento coletivo de medo e insegurança diante da violência, mais fundamentalmente da criminalidade urbana praticada por adolescentes e jovens, sem que as raízes desse fenômeno estejam claras.

Angelina Peralva procura escapar das explicações simplistas que tomam um ou outro fator para análise da violência inserindo-a em uma crise e mudança social mais amplas. São quatro os eixos que elege para interpretar a violência em nosso país: a continuidade autoritária, a desorganização das instituições responsáveis pela ordem pública, a pobreza e a mudança social. 

Histórias de vida e cenas cotidianas de jovens nos morros do Rio de Janeiro tornam a sua explicação ainda mais instigante e inovadora."

Renato Brancatelli, artista plástico e poeta

"Penso que, por uma razão genética, por ser um descendente de sicilianos, não posso me separar da mitologia grega, mesmo que o quisesse. Tenho estudado os mitos, há anos, o que me levou a questionar maduramente o paganismo versus cristianismo. Mas, optando pelo primeiro, estou estudando a intersecção histórica que ocorreu nos primeiros séculos da nossa era, entre pagãos e cristãos. A vida e a obra do imperador romano Juliano, o Apóstata (Constantinopla, 331-363 a.C.) é o moto da minha pesquisa agora. Além de uma novela iluminada e ensolarada de Gore Vidal (1925), sobre a vida do imperador que tentou conter o avanço do credo judaico cristão na civilização mesoocidental (Julian, Ballantines Books, 1962-1964 – 5a. impressão, 1991; Juliano – Editora Rocco, 4a. edição, 1986), estou lendo os escritos do próprio imperador, um homem jovem e idealista, um sonhador, um poeta proscrito pela Igreja (The Works of the Emperor Julian – Loeb Classical Library, Harvard University Press, 1996), onde ele tece odes aos antigos deuses como "Hymn to King Helios" ou "Hymn to the Mother of God", influenciado por autores que ele amava com devoção como Homero, Platão, Aristóteles, Plotino, Porfírio e Jamblico. Tudo numa linda edição bilingue grego-inglês, capa dura forrada em tecido verde e papel bíblia cor creme. A coleção da Harvarfd tem uma lista de outros autores gregos e latinos. Uma viagem no tempo sem máquina do tempo. Recomendo."

voltar


LIVROS FORA DO EIXO - NOTÍCIAS

Dalila Teles Veras

PRIMEIRA – Maria José Giglio (Casa do Escritor, São Roque, SP, 2002) - A primeira impressão de quem manuseia este volume de 32 páginas, grampeado, papel cuchê, que traz na capa, sobre um belo desenho de Cienfuegos, apenas a palavra "Primeira", é de que se trata de uma revista, o número um de uma revista. Abre-se a página e lá está, à maneira de revista, um editorial assinado por Maria José Giglio, poeta, fundadora e dirigente da Casa do Escritor. Na página seguinte, um título interno: "Para Violino Solo". Logo adiante um convite: "...uma música para os olhos. Uma música para ser vista em signos e intuída em ressonâncias". A partir daí, desfeito o mistério, é desfrutar dos belos poemas de Maria José Giglio que este volume contém. Uma poesia que parte da música para realizar-se e realiza-se linguagem-música, num diálogo que é, ao mesmo tempo, fusão. Se não, vejamos: "Toca a vespa / no vidro fixo da janela / uma fuga impossível. / Rascante rumor de patas / na transparência falsa. / Escala repetida / sem escape ou pausa. / Em surdina / agora inútil / o par de asas." Este é o "tom" dos 20 poemas-canções (Opus) que compõem esta preciosidade literária, que mereceria circular mais, ser lida, melhor apreciada e mais reconhecida.

Recolhida, há duas décadas, na cidade de São Roque, longe da vida literária e das confrarias da Capital, de onde veio, Maria José Giglio, sem alarde, vem construindo uma obra que angariou o respeito da crítica, mas que ainda é desconhecida do público. Autora de 12 livros de poesia publicados e um punhado de inéditos, entre eles o que chama de "Cahiers", anotações, ou diário, de 1965 a 2000.

A edição é realmente alternativa e os interessados deverão recorrer diretamente à autora: Casa do Escritor, Rua Lions Clube, 190 – Jd. Flórida, CEP 18133-030, São Roque – SP.

ATENTADOS POÉTICOS, Jomard Muniz de Britto (Edições Bagaço, Recife, 2002) – Jomard Muniz de Britto, poeta "inrotulável", pop-tropicalista, professor de filosofia e poeta-filósofo, namorador e cúmplice do poema-processo, acaba de publicar esta coletânea que parece (mas não é) antologia e, conforme seus editores, é "uma revisão e releitura de textos afins, harmoniosos e dissonantes" que andavam dispersos, inéditos em livros. Autor de 11 livros, textos audiovisuais e do CD Pop Filosofia: o que é isto?, Jomard sempre fez questão de desrespeitar gêneros e, sobretudo, cânones literários. Apesar da rebeldia, goza de grande prestígio intelectual e poético. Todo o talento inventivo e irreverência do autor podem ser conferidos nesta bricolagem literária da melhor que temos. Comunique-se com ele, valerá a pena: Rua João Fernandes Vieira, 367/406-A, Recife, PE, 50050-200.

SEM MEIAS PALAVRAS, Lau Siqueira (Idéia Editora Ltda, João Pessoa, 2002) – Mais um poeta de dupla cidadania brasileira (sulista-nordestino, nascido em Jaguarão -RS e radicado na Paraíba) nos chega pelo correio, meio ainda (e sempre) integrador e proliferador da palavra. Lau Siqueira recolhe, neste afiado novo volume, poemas que circulam com muita intensidade pela internet, em suplementos, jornais, revistas e fanzines literários. Com razão, destaca Moaci Cyrne na apresentação: "A Poesia de Lau Siqueira tem substância estético-literária". A fonte: Rua Josiana Felino, 370, Bloco 8, apto. 402, 58053-100 – João Pessoa – PB.

POEMAS VISUAIS E POESIAS, Hugo Pontes (Barcarola, SP, 2001) – Um panorama de uma trajetória poética de experimentalismo (de 1964 à atualidade), deste poeta mineiro que, conforme a análise do crítico Fábio Lucas, "utiliza com rara felicidade a combinação dos signos verbais com a expressividade da linguagem icônica". Pontes é um dos pioneiros no desenvolvimento da arte-xerox no Brasil, e hoje seu trabalho é reconhecido, principalmente no exterior, onde participa de inúmeras exposições e publicações do gênero. Vale conferir. Peça: Caixa Postal nº 922, Poços de Caldas - MG, 87701-970.

DELÍRICO, Dailor Varela (Editora Observação Jurídica e Literária, S. José dos Campos, SP, 2001). Delírico, o mais recente volume de poesia deste já veterano poeta, um dos líderes do poema/processo, repousa há meses na pilha de livros à espera de providências de (re)leitura e divulgação. Um poema do livro: "MEDO / Na vida / o medo se dissolve / Líquido rio visceral. Verme / no amarelo da fruta". Seus poemas estão publicados, entre outros, nos livros Os cem melhores poetas brasileiros do século, seleção de José Nêumane Pinto; A poesia norte-rio-grandense no século XX, org. Assis Brasil; Poetas do Modernismo, Coleção de Literatura Brasileira, vol. 6, do INL e NOR destinos, Coletânea poética do Nordeste Brasileiro, org. Pedro Américo de Faria - R. Bernardino de Campos, 338, Monteiro Lobato, 12250-000 - SP.

Restaria ainda outros registros indispensáveis como Grãos na eira (Ateliê Editorial, 2002), de Lenilde Freitas, poesia de fina tessitura que se reafirma a cada novo título; Nu entre nuvens (Ciência do Acidente, SP. 2002), livro de estréia de Reynaldo Damazio, que antes da poesia exerceu a crítica e nasce poeta pronto; Sazões Fugazes e Rosa Rosário, de Cyro Armando Catta Preta, delicados haicais que assinalam 45 anos de poesia do poeta de Orlândia (SP) e outros, muitos outros. Tanta poesia para tão curta vida...

voltar


LESA-PALAVRA

Tarso de Melo

Novo endereço, Fabio Weintraub

Os poemas de Fabio Weintraub em Novo endereço (SP: Nankin, 2002) criam para si a estranha atmosfera de um canto esquecido da casa, de um lado decadente da cidade (em oposição a um distante – mas sempre presente, em eco – lado "emergente"), de uma melancolia que lateja, de um triste misto de memória e nostalgia, que às vezes se deixa perpassar pela euforia repentina de algumas constatações felizes ou ligeiros motivos para exclamação. Tem, assim, muito de nosso espírito atual, além de quanto possa parecer confessional a concentração de diversos poemas na problemática pessoal do eu lírico. E provavelmente por isso já saiu da gaveta agraciado com o Prêmio Cidade de Juiz de Fora – Murilo Mendes.

O jovem poeta, nascido em São Paulo em 1967, vindo da depurada poesia de Toda mudez será conquistada (1992) e de Sistema de erros (1996), seus livros anteriores, projeta com este novo livro algumas questões sobre as quais normalmente o debate (e também a simples digladiação) sobre a poesia contemporânea não costuma pousar. O tom é cinza, baixo, cabisbaixo; os fatos por trás dos poemas – e ao leitor compete o devaneio de achá-los verdadeiros ou não – são tristes. E provavelmente foi neste ponto que Priscila Figueiredo viu, nos poemas reunidos por Weintraub, que "é o fracasso, o forte sentimento de desagregação e exclusão, que secreta o enlace da subjetividade com o outro, ou melhor, com a vida popular". Novo endereço não é um livro efusivo em seu "sentimento do mundo", mas um sutil passeio por entre diversas dores (que afligem diversos), como a do "tigre que arrancou a própria pata" ou a do amigo que está a cada dia mais magro. Noutro poema, Weintraub decreta: "Quem tiver paciência / verá a máscara de dor / armar-se sobre o rosto amado".

O que Weintraub escreve em Novo endereço é, sem dúvida, muito diferente de grande parte da poesia jovem que tem sido julgada representativa atualmente. Assim, há quem prefira, para simplificar a exegese e fugir da conversa, afirmar que tratar daquelas coisas é pieguice típica de um patético "drummond-bandeirismo". E esses, com isso, nada dizem. Weintraub, quando escreve, certamente já sabe que vão dizer isso (basta abrir os jornais, os sites, as janelas), e às vezes parece estar (ainda que certamente seja redutor atribuir a característica de inscrever nos poemas tais respostas, do que não pode ser acusada a poesia de Weintraub) provocando a rasteira dessa "interpretação". Provoca de modo difuso e não-declarado – tal comentário, aqui, inspira-se especificamente num poema, "Cadela".

Vale a longa transcrição: "Eu devia ter a mesma idade da prima: / seis, sete anos no máximo / Fomos juntas à vizinha / ver a ninhada recém-parida / a cria da vira-lata // Sete bolinhas de pêlo / sete tufos de ternura: / três café-com-leite / dois brancos, um preto / e o derradeiro pintado / como a mãe // Sete eram, ficaram cinco / já que a vizinha / com toda a nossa insistência / não teve como negar / dois cachorrinhos de empréstimo / para a tarde de folguedo // Duas primas, dois filhotes / e a tarde estendida à frente / como tigela de leite // Deitadas na cama da mãe / pusemos sobre os lençóis / os cãezinhos pequerruchos: / no colo, na cabeça / entre as pernas / ah, entre as pernas / os focinhos gelados / nas pombinhas glabras // Eu mais a prima / o leite da tarde / seis, sete anos / a porta do quarto fechada / os cãezinhos sedentos / as calcinhas no chão // Fechada a porta do quarto / a cama imensa da mãe / os cães com seus focinhos / mamando nas pipitas / as línguas muito velozes, velozes e pequeninas / lambendo nas xixoquinhas / todo o nosso / leite ninho".

Weintraub, como é fácil perceber neste poema, provoca, por exagero, por abuso. Pois abusa das formas diminutivas com suas "bolinhas de pêlo" e outras; abusa de imagens como "tufos de ternura" e "tarde estendida à frente / como tigela de leite"; abusa de um vocabulário que vai de "cãezinhos pequerruchos" a "pombinhas glabras", passando por um "mamando nas pipitas" até alcançar a surpreendente chave-de-ouro em "leite ninho"; abusa de construções sintáticas como "entre as pernas / ah, entre as pernas". Abusa, ainda, fazendo a narrativa do poema sair da voz nostálgica de uma das priminhas envolvidas, com os cãezinhos da vizinha, na travessura de uma tarde de sol. E estes abusos são pura provocação.

Claro, quem passar com pressa pelo livro não verá as coisas assim. Desatento, dirá, até, que Fabio Weintraub não leva jeito para o ofício. O poeta sabe que, lido na perspectiva da influência de Drummond e Bandeira, sua obra será vista apenas como retrabalho, revisita, eterna submissão ao projeto poético de esmagadores poetas anteriores. Mas não é por isso que dará as costas àquelas que são suas verdadeiras influências. Daí que, sem sair do horizonte delas (claro, somadas a muitas outras de antes e depois), acaba por subvertê-las extremando, para hoje, os "abusos" que a seu tempo plantaram na poesia brasileira. E Novo endereço é repleto daquela fina observação do cotidiano que, tramada numa linguagem atenta para a fala corriqueira, marcou a produção definitiva dos poetas que o inspiram.

É justo, depois do que foi dito, aceitar, entretanto, que o leitor não goste de Novo endereço. Até mesmo que se desfaça do livro, sem mais. Mas que não seja por não tê-lo lido, aplicando-lhe previamente a tarja – já de si criminosa por ser sobre a bela capa extraída de uma fotografia de Mario Rui Feliciani – do preconceito obcecante que tem grassado por aqui, subdividindo a poesia brasileira em suspeitíssimas fatias de "seguidores" de Cabral e poesia concreta, de Drummond e Bandeira, de fulano e sicrano, como se isso dispensasse por si só a leitura de seus livros além do necessário para enfeixá-los em tais fatias.

voltar


ENTREVISTA

José de Souza Martins

Professor José de Souza Martins concede entrevista exclusiva ao Abecês, por ocasião do VII Congresso de História da Região do ABC, realizado no mês de julho último, em Rio Grande da Serra, SP

Abecês Na apresentação do livro com os anais do I Congresso de História da Região do ABC, realizado em Santo André, em 1990, do qual o senhor foi idealizador e ativo participante, o senhor falava do "reduzido e mutilado patrimônio regional", resultado do "desdém, pouco caso e irresponsabilidade" com que esse assunto fora tratado até então nos nossos municípios, não só por "ignorância dos responsáveis pelos assuntos públicos", mas também pelo "desconhecimento, passividade e omissão da população local" em nome de uma "suspeitíssima ideologia do progresso". Passados 12 anos, o que mudou por aqui no aspecto da preservação do nosso patrimônio?

José de Souza Martins Infelizmente, nada mudou. O poder público, embora pouco menos omisso, continua agindo de modo desinformado, ignorando o conhecimento que sobre a história da região se acumulou ao longo do período de realização dos sete congressos. Ainda que as prefeituras tenham dado alguma contribuição material e institucional para que os congressos se realizassem e os prefeitos tenham feito discursos na respectiva ocasião, de fato as administrações municipais não se empenharam em aprender com os congressos a respeito da história de seus municípios. Rigorosamente falando, tudo continua como dantes no quartel de abrantes. Os reiterados problemas envolvendo a questão de Paranapiacaba, que acompanhei muito de perto como membro do Condephaat, com todo mundo metendo o nariz no caso, não raro sem a menor competência, constituíram cansativa demonstração de que não houve avanço no trato do problema do patrimônio histórico. O projeto das escavações arqueológicas na área da antiga sede e capela da Fazenda de São Caetano, apesar da USP ter oferecido seus serviços especializados gratuitamente, continua interrompido. Ainda nestes dias recebi do Ministério Público uma solicitação de parecer técnico em relação a obras públicas em São Bernardo, numa área em que no passado foram encontradas evidências arqueológicas de construções do século XVIII, que pode se desdobrar numa ação contra a municipalidade.

Abecês O senhor também falava que aquele congresso tinha a pretensão de "aliciar as novas gerações para a reflexão científica, técnica e artística da região". A pretensão foi cumprida? A pesquisa acadêmica sobre a história regional evoluiu?

José de Souza Martins Não sei se a palavra apropriada é "evoluiu", no sentido de ampliação dos horizontes teóricos e do refinamento na pesquisa empírica. Mas, certamente, cresceu o interesse dos pesquisadores acadêmicos pela história e pela realidade da região do ABC. Mais dissertações e teses foram produzidas a respeito de temas regionais em nossas universidades e aumentou o número de trabalhos acadêmicos publicados como livros ou como artigos em periódicos científicos. Não parece, porém, que tenha havido alguma interação significativa entre os autores desses trabalhos e o próprio esforço regional de debater e registrar aspectos de sua história. Compreendo, embora lamente, que os pesquisadores acadêmicos prefiram a solidão de seu ofício e evitem o trabalhoso ato de dialogar com não especialistas, mesmo que sejam depositários de impressões, lembranças e informações de grande valor documental. Além disso, os congressos têm optado preferencialmente pelo memorialismo histórico, desdenhando, com algumas exceções, a importância documental da arte e da literatura na formulação da consciência social da região. É pena. Os organizadores dos congressos poderiam ter evitado esse distanciamento se, informados a respeito de novos trabalhos acadêmicos, literários e artísticos, instigassem os pesquisadores das universidades ou os convidassem a apresentar seus trabalhos também no congresso.

Abecês Num encontro recente de pesquisadores o senhor referiu-se à ausência de uma agenda de trabalho que pense criticamente e destaque as omissões e distorções da memória regional e tentativas de instrumentalização da memória histórica do ponto de vista de conveniências políticas, partidárias e até religiosas. A comunidade acadêmica instalada nos campi da região mostra-se disposta e preparada para essa tarefa?

José de Souza Martins Aparentemente, não. A necessidade de uma agenda surgiu, justamente, da multiplicação de trabalhos acadêmicos e de memorialistas. Há uma certa "desordem" no elenco de temas abordados. Está na hora de localizar lacunas e estimular seu preenchimento enquanto é tempo. Daí a necessidade da agenda, de uma certa definição de urgências e prioridades, sem deixar de considerar o que pode ser produzido espontânea e rotineiramente. Mas é necessário que a partir de uma sugestão de agenda, pesquisadores e memorialistas se dediquem também a temas propostos por editores e conselhos editoriais das poucas publicações que temos. Por seu lado, a comunidade acadêmica responde pouco a estímulos como o congresso de história regional e não é muito sensível à riqueza de possibilidades de pesquisa, sobretudo histórica, sobre temas da região que não estejam na lista de temas não raro relativos a outros países. O subúrbio não parece ter a fosforescência e o prestígio associados aos grandes temas da historiografia contemporânea. Ora, o subúrbio é, justamente, a nossa novidade brasileira e latinoamericana. Num congresso anterior, um dos membros da respectiva comissão organizadora queria trazer para a conferência de abertura nada menos do que Eric J. Hobsbawm, o historiador inglês. Pura fosforescência e pura alienação em relação à região e ao próprio conhecimento dos temas pertinentes. Por outro lado, é evidente que falhamos em algum ponto e em algum momento no relacionamento com o pessoal acadêmico. É verdade que o pessoal acadêmico é, às vezes, um pessoal difícil, muito fechado em suas próprias preocupações e não raro avesso a celebrações como o congresso, cuja referência é uma região e não uma área especializada do conhecimento. Mas esse é justamente um momento de encontro, de troca e de aprendizado. A presença e a participação deles faria bem a todos, especialmente a eles mesmos.

Abecês Ao reler os anais dos Congressos realizados em Santo André e São Caetano, infelizmente os únicos publicados, podemos perceber a enorme contribuição dos memorialistas naquilo que acreditamos pudessem ser as "dicas" para aprofundamento pela comunidade acadêmica de inúmeros aspectos da história local. O senhor tem conhecimento se esses depoimentos serviram de ponto de partida para o desenvolvimento de algum trabalho científico?

José de Souza Martins Como disse acima, infelizmente o propósito de um diálogo entre acadêmicos e memorialistas, que motivou a proposta dos congressos, não se concretizou. Isso indica uma significativa limitação de formação dos acadêmicos, que parecem ter dificuldades sérias para aprender no diálogo e aprender interrogando aqueles que são depositários de um documento destinado ao desaparecimento – a memória. Lembro que, no congresso de São Bernardo, uma das sessões foi proposta por docentes da Faculdade de Filosofia de Santo André. Ao contrário do que propunha a organização geral do congresso, eles preferiram que sua sessão fosse exclusivamente deles, quase um corpo estranho no conjunto do congresso. A motivação ideológica era clara. Não se tratava de uma participação democrática, mas de mera infiltração. Queriam ser ouvidos, mas não queriam ouvir, um traço infeliz do comportamento de alguns de nossos agrupamentos de esquerda.

Abecês O GIPEM, Grupo Independente dos Pesquisadores da Memória, vivia, há 12 anos, o seu grande momento, com centenas de memorialistas e pesquisadores entusiasmados que pressionaram a maioria dos municípios para instalação dos conselhos de patrimônio e outras medidas. O movimento, ao que parece, arrefeceu e a sociedade preocupa-se com outras questões como a crescente violência e o desemprego. Há, ainda, possibilidades de uma retomada desse entusiasmo?

José de Souza Martins O Gipem passou por sua própria crise interna. Por tê-la resolvido mal, perdeu espaço e com isso perdeu também sua força de pressão e convencimento. É evidente que os temas históricos não estão na lista de prioridades de ninguém. Daí a importância de um grupo como esse, permanentemente empenhado em lembrar aos cidadãos o que não deve ser esquecido da tradição comum e da memória de todos. Espero que o Gipem possa recuperar sua capacidade de sensibilização da sociedade regional para os temas de sua própria história. Para isso, é necessário que exista a consciência do que se perde com seu enfraquecimento e a vontade cívica de recuperar uma competência atualmente mal aproveitada.

Abecês Quais, a seu ver, seriam os próximos desdobramentos, após cumprido o relevante fato da realização de um ciclo de 7 congressos sobre a história local, nos quais o senhor teve sempre participação ativa?

José de Souza Martins O encerramento do ciclo pode representar a proposição do início de uma nova série de congressos, com acentuada renovação de propostas e de procedimentos. Isso ficaria mais fácil se os acadêmicos, com sua peculiar busca de inovações, tivessem se envolvido mais e duradouramente nos congressos. Como isso não aconteceu, é pouco provável que se consiga propor um novo ciclo com outro formato e outra dinâmica. Além disso, a partidarização de alguns dos congressos empobreceu a possibilidade de inovar e, concretamente, desestimulou os mais criativos. O encerramento do ciclo abre um impasse. Vai ser preciso muito empenho dos participantes para que se encontre uma saída renovadora, que justifique a continuidade dos congressos e que amplie perspectivas. Estou muito curioso em relação a esse momento final, que pode ser, eventualmente, um novo momento inicial.

voltar


Romances de Antonio Possidonio Sampaio

são comentados em livro de Tinhorão

Os romances Em Manhattan do Terceiro Mundo (Ibrasa, 1993) e Em Busca dos Companheiros (Alpharrabio Edições,1999), de Antonio Possidonio Sampaio, escritor residente em Santo André, ocupam 6 páginas do livro A Música Popular no Romance Brasileiro (Vl. III: Século XX, 2a. parte), Editora 34, 2002, o mais recente livro de José Ramos Tinhorão, respeitado crítico brasileiro. Trata-se de obra que faz a recolha de um número sem precedentes de informações, verdadeiro compêndio de inestimável valor sobre a memória musical do povo brasileiro.

Eis alguns trechos dessa interessante análise de Tinhorão: "A idéia de distanciamento ou desidentificação da música popular com a emoção pessoal ou o dia-a-dia dos personagens descritos nos romances ia transparecer, ainda na década de 1990, em dois livros de um mesmo autor. Os romances, ambientados na área proletária do chamado ABC paulista, intitulavam-se Em Manhattan do Terceiro Mundo, de 1993, e Em busca dos companheiros, de 1999, e seu autor, Antonio Possidonio Sampaio, situando-os no período das lutas operárias que se seguiram ao fechamento político do regime militar com o AI-5, no final de 1968, parecia empenhar-se na busca de um tempo perdido de utopias políticas e entusiasmos carnavalescos. (...) No momento em que o personagem de Em Manhattan do Terceiro Mundo recorda nostalgicamente o sucesso de um carnaval de 25 anos passados, seu televisor mostrava o desfile das escolas de samba cariocas do primeiro grupo. Era o Carnaval da Democracia de 1985, em que a escola Caprichosos de Pilares já aproveitava a promessa de redemocratização (com Tancredo à morte, no hospital), para provocar o poder nos versos do samba-enredo ‘E Por Falar em Saudade...’ (...) Em sua incursão pelo ‘imaginário das lutas operárias’, iniciado em 1979 com a publicação de A capital do automóvel (na voz dos operários), seguido por Lula e a greve dos peões (1982), APS voltaria ao tema em 1999 com nova história envolvendo a memória dos movimentos sindicais sob a ditadura militar, intitulado Em busca dos companheiros. Era o próprio personagem Salvador Bahia – advogado de trabalhadores, tal como o autor – quem explicava o título logo ao início do romance (...) A idéia era promover uma série de encontros com a presença de todos os velhos combatentes das lutas operárias da região do ABC nas décadas de 1970 e 1980, começando no dia 31 de dezembro de 1999 para culminar com um baile no carnaval do ano 2000. E, assim, o trabalho do advogado Salvador Bahia passou a ser, durante as quase duzentas páginas do livro, tentar descobrir os endereços dos antigos companheiros e escolher ‘antigos sucessos carnavalescos’ conservados numa ‘caixa de papelão repleta de fitas gravadas’. Fitas que o personagem Salvador Bahia passa a ouvir ao lado da mulher, Mariana, e cujas músicas o autor não deixa de citar ocupando nada menos de duas páginas e meia do livro, com títulos e autores, na mais longa enumeração de sucessos da música popular já fornecida em um romance brasileiro. (...)"

voltar


NASCE UM CACTO!

A revista CACTO, editada por Eduardo Sterzi e Tarso de Melo, foi lançada em São Paulo no último 30 de julho. Em seu primeiro número, encontram-se inéditos de alguns dos mais respeitados poetas brasileiros da atualidade: Carlito Azevedo, Júlio Castañon Guimarães, Fernando Paixão, Frederico Barbosa, Sérgio Alcides, Fabio Weintraub, Fabrício Carpinejar, entre outros. Também têm espaço garantido autores novos e promissores como André Dick, Leandro Sarmatz, Pádua Fernandes, Fabiano Calixto, Kleber Mantovani, além dos próprios editores.

Acompanhando um poema inédito de Augusto de Campos, CACTO apresenta um ensaio crítico sobre sua obra e uma entrevista com este que é um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. A revista também oferece, entre outros textos críticos e teóricos, a tradução inédita de um ensaio do filósofo italiano Giorgio Agamben, intitulado "O fim do poema". As traduções, aliás, são um ponto forte da revista, tanto pela grandeza dos poetas vertidos, como pela excelência dos tradutores: entre outros, François Malherbe por Júlio Castañon Guimarães, Luis Javier Moreno por Carlito Azevedo, Michel Deguy por Marcos Siscar, Heinrich Heine por Marcelo Backes, Joan Brossa por Ronald Polito, Carlos Piera por Sérgio Alcides, Alfred Jarry e James Joyce por Jorge Lucio de Campos e Coral Bracho por Claudio Daniel. O espaço dedicado à poesia estrangeira se completa com poemas cedidos especialmente para CACTO por José Kozer, cubano radicado nos Estados Unidos, e Rodolfo Häsler, cubano radicado na Espanha, dois dos mais importantes poetas de língua espanhola de nossos dias.

Os jovens poetas e críticos Eduardo Sterzi e Tarso de Melo (colaborador do Abecês e autor da Alpharrabio Edições) contam que, para editar este primeiro número de CACTO, fizeram-se necessárias duas "campanhas" fundamentais: uma pedindo material a diversos poetas, tradutores e críticos espalhados pelo mundo (para uma revista de poesia que se chamaria Totem), e outra, já às vésperas do envio do material à gráfica, com uma lista de aquisição antecipada de exemplares para custear a edição de CACTO. As duas campanhas, felizmente, tiveram ótima acolhida, o que, junto com um generoso apoio cultural por parte da gráfica Bartira, foi suficiente para a revista nascer: CACTO custa R$ 15,00 e pode ser encontrada na livraria Alpharrabio.

voltar


Projeto "a literatura mora ao lado"

Em tempos pós- modernos, segundo o Prof. Stuart Hall, aspectos da globalização desencadeariam sobre as identidades culturais três possíveis conseqüências: a desintegração das culturas nacionais como resultado da homogeneização cultural; o surgimento de culturas "híbridas" contrapondo a fragmentação das culturas nacionais, e, por fim, o fortalecimento de culturas nacionais e regionais pela resistência à globalização.

Numa visão hegeliana, o dramaturgo Luís Alberto de Abreu diz que uma sociedade só se constrói se ao mesmo tempo é construída sua contrapartida mítica, espiritual e ficcional (imaginário): o homem, quando sabe o que é, em decorrência, sabe o que foi e o que poderá ser. Afirma, ainda, que se o futuro é incerto, uma caixa preta (a escuridão), só poderemos seguir em frente se para lá projetarmos as imagens que colhemos no processo histórico.

O que forma o imaginário cotidiano e histórico de nossos jovens?

Quem somos, já que compartilhar do mesmo espaço e tempo não é o suficiente para responder? Quais seriam os valores, as crenças, enfim, o simbólico que nos aproximaria?

A existência de produção literária pulsativa na região revela possibilidade de construirmos nós um cenário de experiências compartilhadas.

A literatura dá existência ao que, sem ela, ficaria no caos do inominado. A sociedade necessita de relações: do homem para com o homem, do homem para com o universo. A produção literária socializa as percepções e sentimentos através das informações e das emoções (juntas geram experiência). A função social da literatura é a expansão do abstrato, o enriquecimento do imaginário, é proporcionar uma noção de estética e harmonia, exigir reflexão pela presença da síntese, enfim, ler e escrever são um precioso exercício do pensamento. As coisas só existem para o homem depois de incorporadas a sua linguagem, a palavra torna presente o que está ausente, recupera ou gera as sensações do objeto ausente.

Das manifestações literárias da região do ABC poucas tinham um caráter de aglutinação: o Grupoético Alerta, o Colégio Brasileiro de Poetas, o GAUC – Grande ABC Unidade Cultural, o Grupo Livrespaço de Poesia são algumas das mais lembradas. As valorosas colaborações do Prof. Filadelfo P. de Souza no ensino médio de Santo André, do Prof. Antônio Carlos Costa nas Faculdades Senador Fláquer, da Profª. Maria de Lourdes Ruegger Silva na Fundação Santo André, dos poetas do Grupo Livrespaço, além de jornais e fanzines, tornaram-se, entre poucos outros, os raros difusores da produção literária regional.

Dentre outros projetos concebidos no Alpharrabio, sob o entusiasmo de sua dirigente, a poeta Dalila Teles Veras, A LITERATURA MORA AO LADO tem a finalidade de promover a leitura; divulgar a produção literária regional; aproximar o produtor do leitor; integrar os produtores regionais; avaliar a produção literária regional e discutir assuntos que guardam correlação com a literatura.

O que se produz na região merece consideração; por vezes, reflete seu cotidiano, traz à tona personagens e cenários, é fluidez do pensamento do ABC Paulista.

Numa parceria, desde outubro de 2001, entre a Prefeitura Municipal e a Alpharrabio Edições, a cidade de Mauá vem conhecendo melhor a produção literária do ABC por meio das conversas literárias.

Guilherme Vidotto é advogado e poeta, atualmente coordena o Núcleo de literatura da Secretaria de Educação, Cultura e Esportes de Mauá.

voltar


COISAS DE CABECEIRA, DANÚBIO

Eduardo Sterzi

Certos livros (qualquer leitor poderá confirmá-lo) têm, além de seu valor intrínseco, estético-literário, sobretudo o valor afetivo que lhes atribuímos. Entre o leitor e um livro de sua predileção, cria-se um espaço de intimidade inviolável, de diálogo face a face, no qual alguns detalhes, como segredos entre amigos, parecem revelar-se apenas de um a outro. E frise-se: de um a outro reciprocamente. Afinal, nessa comunicação estreita, o leitor termina por dizer tanto ao livro quanto o livro ao leitor. Os sentimentos, pensamentos e circunstâncias do leitor ficam como que depositados sobre as páginas dos livros a que sempre retorna, como uma poeira imperceptível a outros olhos – mas, para ele, sempre visível e em primeiro plano.

"Livro de cabeceira": a denominação assinala belamente o caráter íntimo dessa relação intensa entre leitor e livro. Por temor ou decoro, jamais deveríamos dormir próximos a quem ou ao que não amássemos. João Cabral de Melo Neto, em títulos de dois poemas seus, identificava recordações de suas cidades amadas, Recife e Sevilha, como "coisas de cabeceira". Aqui, fica evidente o aspecto metafórico que a expressão cabeceira pode tomar, e que muitas vezes (não sempre) toma quando se trata de livros. Alguns de nossos mais caros livros de cabeceira pouco ou nunca repousaram em nossos próprios dormitórios. Não sei se trata de uma experiência compartilhada por outros leitores (imagino que sim), mas reservo alguns livros para ocasiões específicas, sobretudo para viagens. Não deixam de ser livros de cabeceira, pois conhecem ao meu lado inúmeras camas e criados-mudos de hotéis (podem também ficar horas encarcerados em mochilas ou sacolas, esperando sua merecida libertação). Todavia, constituem uma espécie especial de livros de cabeceira: funcionam um pouco como amuletos, que carrego pelo mundo afora como lembranças de uma privacidade, de uma domesticidade, temporariamente suspensa. Entretanto, ao mesmo tempo em que parecem me proteger da estranheza radical do mundo, da ínsita étrangeté de outras paisagens, há livros que me guiam na descoberta de minha própria estranheza no mundo.

Meu espaço já está acabando, e devo citar ao menos um destes livros que tenho relido sobretudo em viagens: na minha cabeceira móvel, esteve já alguns vezes o magistral Danúbio, de Claudio Magris (publicado no Brasil, em tradução de Elena Grechi e Jussara de Fatima Mainardes Ribeiro, pela Rocco). Neste livro inqualificável, que pode ser lido tanto como ensaio quanto como romance, ou do modo que o leitor escolher ou inventar para si, o escritor triestino, especialista na literatura da Europa Central (ou Mitteleuropa, como prefere), vai apresentando e comentando, à luz de uma erudição infinita, cenas observadas durante uma viagem ao longo do rio Danúbio, das nascentes à foz. A viagem torna-se um pretexto para falar de tudo um pouco, como ocorre freqüentemente numa conversa com pessoas inteligentes: passa-se de um assunto a outro sem que o interesse diminua. Nesse movimento aparentemente errático, determinado arbitrariamente pelo curso do rio, o Danúbio vai revelando-se um símbolo da história, e a viagem, uma metáfora do fluxo da vida. O livro de Magris ajudou-me, e ainda ajuda-me, a compreender que toda viagem, como todo grande livro, é, no fundo, a vida em sua máxima intensidade.

voltar


À JANELA DOS DIAS

Tarso de Melo

À janela dos dias poesia quase toda (Alpharrabio Edições, 2002) traz num só volume a poesia publicada por Dalila Teles Veras nos últimos 20 anos (que praticamente voltou, em boa parte, a ser inédita após tantos anos esgotada!), desde os poemas de Lições de Tempo, de 1982, até as suas mais recentes colaborações em obras coletivas e antologias, passando pelo percurso vário que cobre, por exemplo, os poemas em prosa de A Palavraparte, de 1996. De quebra, o leitor ainda conhece alguns inéditos da autora, poemas que, na sua maioria, fazem coro à renovação que a poeta impôs à quase totalidade de seus livros, submetidos às atuais concepções da autora.

Do trajeto de Dalila desde os passos fundamentais do Grupo Livrespaço de Poesia até sua participação definitiva na consolidação (sempre em progresso) da vida cultural da região, o que nunca saiu dos planos dessa poeta luso-brasileira (nascida na Ilha da Madeira e radicada no Brasil), como o leitor perceberá em À janela dos dias, é a poesia, como ofício, registro, combustível. Disso resultou um conjunto de poemas que enfeixa os mais variados flertes literários numa única e maciça voz, seja quando seus poemas se esgueiram para a prosa, como no já citado A Palavraparte, seja quando a poeta adota (ou recupera) o vocabulário e o espírito profundamente "portugueses" em Madeira: do vinho à saudade, de 1989, em que edifica um rico memorial de suas origens que, decerto pelo nítido caráter afetivo, foi o menos reescrito dos livros.

Muitos reconhecerão a voz deste livro, bastante em razão da força expressiva que, aprendida na poesia, Dalila tem mostrado em outras obras de larga repercussão, como seu trabalho de cronista regular, durante alguns anos da década de 90, na imprensa da região (textos recentemente reunidos pela Alpharrabio Edições nos volumes A Vida Crônica e As Artes do Ofício: um olhar sobre o ABC), ou ainda pela poesia disfarçada em diário pela autora no livro Minudências, que há pouco veio a público. Mas não só por isso.

À janela dos dias poesia quase toda permitirá ainda reconhecer a voz de Dalila Teles Veras pelo que revela de sua relação sincera com as coisas do mundo. Aqui, a voz atual da poeta volta-se contra as dissonâncias e os ruídos percebidos alhures, e reorganiza o tom geral da obra pelo apuro verbal conquistado no percurso, resultando num livro novo, sintético, conexo, em que das linhas anteriores se perceberá apenas o insistente resíduo da intensa paixão com que a poeta tomou, nos 20 anos de sua poesia, alguns mesmos e caros temas (como o "resíduo" do célebre poema de Carlos Drummond de Andrade poeta já centenário neste 2002 que, diferentemente de Dalila, na antologia pessoal que fez de sua poesia, escolheu agrupá-la por temas recorrentes).

Há ainda uma dúvida: quem está "à janela dos dias", como se, debruçado diante da paisagem mais variada, esta que diariamente se mostra aos olhos de todos, percorresse as evidências com o passeio ininterrupto de uma tensa câmara cinematográfica? Quem, atento, está colhendo os mais seletos retalhos dessa paisagem? A poeta? O leitor? Todos? Difícil precisar, mas é este livro que renova o registro agudo da contemplação sensível, profunda e sempre iluminada pelo olhar cortante da poeta Dalila Teles Veras.

voltar


A PALAVRA INÉDITA

tradução de Marcos Sidnei Euzebio


Semonides de Amorgos parece ter nascido, de fato, em Samos, na segunda metade do século VII a.C. Resignadamente hedonista, bem cedo descobriu que somos pouco mais que pó e vento. o "homem de Quios" é Homero; a citaçào é da Ilíada, VI, 146-149. Do poeta só nos restam fragmentos.




clique aqui
para ver o texto grego original


ELEGIA 1, de Semonides de Amorgos

à memória de minha mãe, Carmelinda Pagotto Euzebio

O mais belo disse o homem de Quios:

"A raça dos homens é como a das folhas"

Mas poucos mortais isso ouvem, guardando

ao peito retido, porque habita em todos a esperança,

a mesma que se prende ao ânimo dos jovens.

Enquanto leve alguém a flor da juventude tão amada,

concebe de ligeiro coração o impossível,

porque nem envelhecer, nem morrer espera,

nem cuidado com a doença tem, na saúde.

Tolos dos que assim disperso tenham o siso: ignoram

o breve tempo dado à vida e à juventude dos mortais.

Tu, porém, disso sabendo, até o termo da existência ocupa-te

dos bens que à vida dão prazer.

(do texto grego estabelecido em F.R. Adrados, Liricos Griegos, Elegiacos y Yambografos Arcaicos, Barcelona, Alma Mater, 1956).
voltar

 


ABECÊS é uma publicação da Alpharrabio Edições e conta com a parceria cultural da Gráfica Bartira, da revista virtual Loquens (
www.loquens.hpg.com.br) e de nossos anunciantes - 3º trimestre de 2002 · Editora executiva: Dalila Teles Veras · Editores: Antonio Possidonio Sampaio, Rosana Chrispim, Tarso de Melo, Valdecirio Teles Veras · Projeto Gráfico e Editoração: Isabela A. T. Veras · Capa sobre a tela "Os colecionadores de gravura" de Honoré Daumier (1878) · Jornalista Responsável: Rosana Chrispim MTb 16.651 · Redação: Rua Eduardo Monteiro, 151 – Santo André – Tel/ Fax: 4438-4358 - www.alpharrabio.com.br - e-mail: alpharrabio@alpharrabio.com.br