ENTREVISTA
José
de Souza Martins
Professor José de Souza Martins concede
entrevista exclusiva ao Abecês, por ocasião do VII
Congresso de História da Região do ABC, realizado
no mês de julho último, em Rio Grande da Serra, SP
Abecês Na
apresentação do livro com os anais do I Congresso
de História da Região do ABC, realizado em Santo
André, em 1990, do qual o senhor foi idealizador e
ativo participante, o senhor falava do "reduzido
e mutilado patrimônio regional", resultado do
"desdém, pouco caso e irresponsabilidade"
com que esse assunto fora tratado até então nos
nossos municípios, não só por "ignorância
dos responsáveis pelos assuntos públicos", mas
também pelo "desconhecimento, passividade e
omissão da população local" em nome de uma
"suspeitíssima ideologia do progresso".
Passados 12 anos, o que mudou por aqui no aspecto da
preservação do nosso patrimônio?
José de Souza Martins Infelizmente,
nada mudou. O poder público, embora pouco menos
omisso, continua agindo de modo desinformado,
ignorando o conhecimento que sobre a história da
região se acumulou ao longo do período de
realização dos sete congressos. Ainda que as
prefeituras tenham dado alguma contribuição
material e institucional para que os congressos se
realizassem e os prefeitos tenham feito discursos na
respectiva ocasião, de fato as administrações
municipais não se empenharam em aprender com os
congressos a respeito da história de seus
municípios. Rigorosamente falando, tudo continua
como dantes no quartel de abrantes. Os reiterados
problemas envolvendo a questão de Paranapiacaba, que
acompanhei muito de perto como membro do Condephaat,
com todo mundo metendo o nariz no caso, não raro sem
a menor competência, constituíram cansativa
demonstração de que não houve avanço no trato do
problema do patrimônio histórico. O projeto das
escavações arqueológicas na área da antiga sede e
capela da Fazenda de São Caetano, apesar da USP ter
oferecido seus serviços especializados
gratuitamente, continua interrompido. Ainda nestes
dias recebi do Ministério Público uma solicitação
de parecer técnico em relação a obras públicas em
São Bernardo, numa área em que no passado foram
encontradas evidências arqueológicas de
construções do século XVIII, que pode se desdobrar
numa ação contra a municipalidade.
Abecês O senhor também falava que aquele
congresso tinha a pretensão de "aliciar as
novas gerações para a reflexão científica,
técnica e artística da região". A pretensão
foi cumprida? A pesquisa acadêmica sobre a história
regional evoluiu?
José de Souza Martins Não sei se a
palavra apropriada é "evoluiu", no sentido
de ampliação dos horizontes teóricos e do
refinamento na pesquisa empírica. Mas, certamente,
cresceu o interesse dos pesquisadores acadêmicos
pela história e pela realidade da região do ABC.
Mais dissertações e teses foram produzidas a
respeito de temas regionais em nossas universidades e
aumentou o número de trabalhos acadêmicos
publicados como livros ou como artigos em periódicos
científicos. Não parece, porém, que tenha havido
alguma interação significativa entre os autores
desses trabalhos e o próprio esforço regional de
debater e registrar aspectos de sua história.
Compreendo, embora lamente, que os pesquisadores
acadêmicos prefiram a solidão de seu ofício e
evitem o trabalhoso ato de dialogar com não
especialistas, mesmo que sejam depositários de
impressões, lembranças e informações de grande
valor documental. Além disso, os congressos têm
optado preferencialmente pelo memorialismo
histórico, desdenhando, com algumas exceções, a
importância documental da arte e da literatura na
formulação da consciência social da região. É
pena. Os organizadores dos congressos poderiam ter
evitado esse distanciamento se, informados a respeito
de novos trabalhos acadêmicos, literários e
artísticos, instigassem os pesquisadores das
universidades ou os convidassem a apresentar seus
trabalhos também no congresso.
Abecês Num encontro recente de
pesquisadores o senhor referiu-se à ausência de uma
agenda de trabalho que pense criticamente e destaque
as omissões e distorções da memória regional e
tentativas de instrumentalização da memória
histórica do ponto de vista de conveniências
políticas, partidárias e até religiosas. A
comunidade acadêmica instalada nos campi da
região mostra-se disposta e preparada para essa
tarefa?
José de Souza Martins Aparentemente,
não. A necessidade de uma agenda surgiu, justamente,
da multiplicação de trabalhos acadêmicos e de
memorialistas. Há uma certa "desordem" no
elenco de temas abordados. Está na hora de localizar
lacunas e estimular seu preenchimento enquanto é
tempo. Daí a necessidade da agenda, de uma certa
definição de urgências e prioridades, sem deixar
de considerar o que pode ser produzido espontânea e
rotineiramente. Mas é necessário que a partir de
uma sugestão de agenda, pesquisadores e
memorialistas se dediquem também a temas propostos
por editores e conselhos editoriais das poucas
publicações que temos. Por seu lado, a comunidade
acadêmica responde pouco a estímulos como o
congresso de história regional e não é muito
sensível à riqueza de possibilidades de pesquisa,
sobretudo histórica, sobre temas da região que não
estejam na lista de temas não raro relativos a
outros países. O subúrbio não parece ter a
fosforescência e o prestígio associados aos grandes
temas da historiografia contemporânea. Ora, o
subúrbio é, justamente, a nossa novidade brasileira
e latinoamericana. Num congresso anterior, um dos
membros da respectiva comissão organizadora queria
trazer para a conferência de abertura nada menos do
que Eric J. Hobsbawm, o historiador inglês. Pura
fosforescência e pura alienação em relação à
região e ao próprio conhecimento dos temas
pertinentes. Por outro lado, é evidente que falhamos
em algum ponto e em algum momento no relacionamento
com o pessoal acadêmico. É verdade que o pessoal
acadêmico é, às vezes, um pessoal difícil, muito
fechado em suas próprias preocupações e não raro
avesso a celebrações como o congresso, cuja
referência é uma região e não uma área
especializada do conhecimento. Mas esse é justamente
um momento de encontro, de troca e de aprendizado. A
presença e a participação deles faria bem a todos,
especialmente a eles mesmos.
Abecês Ao reler os anais dos Congressos
realizados em Santo André e São Caetano,
infelizmente os únicos publicados, podemos perceber
a enorme contribuição dos memorialistas naquilo que
acreditamos pudessem ser as "dicas" para
aprofundamento pela comunidade acadêmica de
inúmeros aspectos da história local. O senhor tem
conhecimento se esses depoimentos serviram de ponto
de partida para o desenvolvimento de algum trabalho
científico?
José de Souza Martins Como disse acima,
infelizmente o propósito de um diálogo entre
acadêmicos e memorialistas, que motivou a proposta
dos congressos, não se concretizou. Isso indica uma
significativa limitação de formação dos
acadêmicos, que parecem ter dificuldades sérias
para aprender no diálogo e aprender interrogando
aqueles que são depositários de um documento
destinado ao desaparecimento a memória.
Lembro que, no congresso de São Bernardo, uma das
sessões foi proposta por docentes da Faculdade de
Filosofia de Santo André. Ao contrário do que
propunha a organização geral do congresso, eles
preferiram que sua sessão fosse exclusivamente
deles, quase um corpo estranho no conjunto do
congresso. A motivação ideológica era clara. Não
se tratava de uma participação democrática, mas de
mera infiltração. Queriam ser ouvidos, mas não
queriam ouvir, um traço infeliz do comportamento de
alguns de nossos agrupamentos de esquerda.
Abecês O GIPEM, Grupo Independente dos
Pesquisadores da Memória, vivia, há 12 anos, o seu
grande momento, com centenas de memorialistas e
pesquisadores entusiasmados que pressionaram a
maioria dos municípios para instalação dos
conselhos de patrimônio e outras medidas. O
movimento, ao que parece, arrefeceu e a sociedade
preocupa-se com outras questões como a crescente
violência e o desemprego. Há, ainda, possibilidades
de uma retomada desse entusiasmo?
José de Souza Martins O Gipem passou
por sua própria crise interna. Por tê-la resolvido
mal, perdeu espaço e com isso perdeu também sua
força de pressão e convencimento. É evidente que
os temas históricos não estão na lista de
prioridades de ninguém. Daí a importância de um
grupo como esse, permanentemente empenhado em lembrar
aos cidadãos o que não deve ser esquecido da
tradição comum e da memória de todos. Espero que o
Gipem possa recuperar sua capacidade de
sensibilização da sociedade regional para os temas
de sua própria história. Para isso, é necessário
que exista a consciência do que se perde com seu
enfraquecimento e a vontade cívica de recuperar uma
competência atualmente mal aproveitada.
Abecês Quais, a seu ver, seriam os
próximos desdobramentos, após cumprido o relevante
fato da realização de um ciclo de 7 congressos
sobre a história local, nos quais o senhor teve
sempre participação ativa?
José de Souza Martins O encerramento do
ciclo pode representar a proposição do início de
uma nova série de congressos, com acentuada
renovação de propostas e de procedimentos. Isso
ficaria mais fácil se os acadêmicos, com sua
peculiar busca de inovações, tivessem se envolvido
mais e duradouramente nos congressos. Como isso não
aconteceu, é pouco provável que se consiga propor
um novo ciclo com outro formato e outra dinâmica.
Além disso, a partidarização de alguns dos
congressos empobreceu a possibilidade de inovar e,
concretamente, desestimulou os mais criativos. O
encerramento do ciclo abre um impasse. Vai ser
preciso muito empenho dos participantes para que se
encontre uma saída renovadora, que justifique a
continuidade dos congressos e que amplie
perspectivas. Estou muito curioso em relação a esse
momento final, que pode ser, eventualmente, um novo
momento inicial.
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