10 anos a saborear o Alpha-Templo
Isabel Ferreira
Porque eu (já) sou do tempo em que as belas histórias começavam todas por “Era uma vez….” e terminavam com “e foram felizes para sempre”, por uma questão de tradição e não de superstição, comecemos esta também assim:
- Era uma vez uma menina que por mera brincadeira ou por apreciar café, começou a coleccionar chávenas (xicaras).
Recorrendo à espantosa ferramenta que é a internet, de repente a brincadeira galgou os muros do seu “quintal” (leia-se país), atravessou fronteiras e oceanos e chegou a um porto seguro denominado Alpharrabio.
Por curiosidade fuçou um pouco mais no site. Achou o espaço interessante: Fisicamente é uma livraria, editora, centro cultural, cinema, teatro, espaço para exposições e café. Espero não ter esquecido de nada, será?! Ops… mas o Alpharrabio não é só isto, é também local de tertúlias, de encontros e debates, livres pensamentos, de movimento cultural, com as portas abertas a qualquer olhar.
Desconhecia no seu “quintal” espaço idêntico e ficou fascinada. Mandou o 1º e-mail sem qualquer esperança de resposta, confessa-se.
Ah! como se enganou redondamente. No mesmo dia tem como resposta: “Seja bem vinda ao Brasil (somos patrícias, nasci na Madeira e também adoro chávenas).”
Epá, quem é esta “patricia”, que se diz minha “xará” (ops.. vá vou eu atrás do significado; esta palavra não tem qualquer expressividade por aqui) e me pede para não usarmos de formalismos?

desenhos de Constança Lucas
Ainda antes de o tentar, recebo via correio, uma linda xicara do Alpharrabio. Apresso-me a solicitar os custos da encomenda e recebo como resposta:
“Não me deve nada, é um presente de uma patrícia. Como lido com um produto que não faz parte de nenhuma mais-valia, as letras e a cultura, sou movida a paixão, estou acostumada “a ficar no prejuízo”, mas é que esse suposto “prejuízo” é sempre muito enriquecedor e o lucro não pode ser medido em nenhuma moeda.”
Caramba! Aguçou ainda mais a minha curiosidade: Afinal quem é esta mulher, que espaço é este? Estarei no planeta Terra?
Sim. Tudo isto existe, tudo isto é real e a prova disso foi que durante 5 anos, a troca de correspondência (inicialmente sobre viagens, livros, poesia, musica) levou e trouxe alegrias, mimos, preocupações, inquietações, doenças, lutos mas também nascimentos. Sincronismos e afinidades eletivas foram acontecendo, base essencial para a família de afectos crescer.
Quando em 2007, passámos do virtual ao real – Dalila e Valdecirio revisitam o seu país – foi como se nos conhecemos desde sempre.
Nesta altura, soube da existência do blog do Alpharrabio, no qual passei a saciar-me diariamente.
Através dos artigos postados e das respectivas fotos, eu vivi(o) cada evento como se no Alpha estivesse; virtualmente passeei pelos seus vários 4×4 cantos, conheci gente mui interessante. Aprendi a ver sobre outros ângulos; escutar outras palavras, a intervir, a procurar, a consultar, a fazer novas (re)leituras, palavreei sobre assuntos que nunca me passariam pela cabeça e o gozo foi sempre uma constante.
Mas o Alpha é tão “fantabulástico”, ele fomenta e aguça a vontade de se querer mais. Então, em 2010 atravesso o Atlântico numa nave espacial que poisa no Alpha; abre-se a porta do virtual e passo ao real. A ponte (dos afecto) está construída. Sentia-me como aquela personagem que salta da tela de 19’ para o lado de cá. Comprovo agora também pelo tacto, pelo cheiro, pelo sabor que o Alpharrabio é muito mais que um espaço físico; é toda uma equipa de gente que arregaça as mangas, idealiza, projecta, luta com objectivos e trabalha em prol da comunidade. Alpharrabio é sociedade civil em acção.

(Isabel Ferreira no dia 30 de outubro de 2010 – Construindo Leitores Foto: Luzia Maninha, acervo Núcleo Alpharrabio de Referência e Memória)
Todas as minhas xicaras são, de uma forma ou outra, especiais, todas contam algo. Mas há uma que veio do lado de lá do Atlântico é “fantabulasticamente” especial: a xícara do Alpharrabio.
Dos 20 anos do Alpharrabio, 10 estou com ele e sua equipa “alpharrabiana” e outros tantos quero estar, ser, crescer e permanecer.
Obrigado Alpharrabio por tanto compartilhar.