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18
de dezembro - (sábado) 10 h
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Edição
especial
de
balanço
/
projeção
:
a
produção
poética
do
ano
de 2004
A
oitava
edição do “Observatório do poema” – no
dia 18 de dezembro, às 10h, a encerrar as
atividades do Alpharrabio em 2004 – será um
pouco diferente: desta vez, ao invés da discussão
centrada especificamente em um ou dois poemas,
estarão sob os olhos dos participantes (e aqui
está uma metáfora!) um conjunto maior de
textos: aqueles que compõem a “produção poética
brasileira de 2004”. Esta expressão será
tomada num sentido amplo e abrangente não só
dos livros de poesia, mas daquilo que se fez ao
redor deles, como revistas, eventos, resenhas
etc. Enfim, a proposta é fazer um balanço (não
sistemático) da atmosfera poética do ano que
acaba, com intenção de tirar daí, até,
alguma projeção para o “Observatório do
poema” do próximo ano.
2004
foi um ano de lançamentos importantes em
poesia. Além dos novos números de revistas de
poesia e crítica de poesia (como Inimigo
Rumor, Cacto, Babel, Rodapé
e a virtual Zunái), surgiram novas
revistas (como Jandira e Oroboro)
e foram lançados diversos livros de poetas
estreantes e de outros com mais tempo de
estrada. Entre as estréias, destaque para a
coleção “Guizos” da editora carioca
7Letras, que lança os nomes de Diego Vinhas e
Annita Costa Malufe. Também pela “Guizos”,
Heitor Ferraz Mello lançou Coisas imediatas,
reunindo um livro novo e seus livros anteriores.
Entre os poetas que foram objeto do “Observatório”,
Francisco Alvim teve toda sua obra relançada,
saiu a segunda edição das Galáxias de
Haroldo de Campos, Eucanaã Ferraz lançou um
novo livro, Rua do mundo. Enfim, há
muita coisa sobre o que se debruçar.
Claro,
a visão que podemos ter desse conjunto todo é
parcial: diariamente pipocam Brasil afora edições
de poesia, em livros, revistas, jornais,
internet. Logo, o balanço possível é do
recorte. Mas há um sentido em fazê-lo
ainda que sabidamente com alcance limitado: a
proposta do “Observatório do poema” é
justamente ler de modo profundo, mais do que
global. Ou seja, acredita-se que há mais
proveito na leitura detida de poucos textos do
que no passeio panorâmico por um infinito de
textos, este que normalmente implica em
superficialidade.
Para
enriquecer mais a coisa, é interessante que os
participantes levem também os livros e revistas
de poesia, lançados neste ano, que chamaram sua
atenção, a bem ou mal... Entretanto,
advirta-se que a conversa, obviamente, não está
presa irremediavelmente ao conhecimento dos
diversos livros que compõem a “produção poética
brasileira de 2004”. Porque certamente a
conversa será também bastante útil para quem,
daquela produção, pouco conhece, valendo como
uma apresentação geral de autores e obras para
divertir as férias que se aproximam...
Mas
nesta edição diferente do “Observatório do
poema” uma coisa é mantida: a conversa será
provocada por trechos de textos críticos, que
seguem abaixo, para prévia reflexão.
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PROVOCAÇÕES
À
LEITURA
“Retorno
à
literatura
Nas
aulas
que
ministro
de
literatura
comparada,
sempre
ocorre
um
ritual
incômodo. No
início
de
cada
semestre, busco
identificar
o
repertório
de
leitura
dos
alunos, a
fim
de
estabelecer
o
diálogo
intertextual
que
justifica a
disciplina.
Contudo
o
resultado
da
iniciativa
é melancólico.
Machado
de Assis?
Talvez
tenham lido
Memórias
Póstumas de Brás
Cubas,
Dom
Casmurro
e uma
magra
seleção
de
contos. Guimarães
Rosa
?
Sim, ‘ouviram’
falar
–
afinal, o
curso
é
breve;
porém
é
interminável
a
travessia
do
sertão
rosiano.
Poetas
?
Quase
todos
fazem
versos,
mas
poucos
buscam a
chave
do
poema.
Na
pós-graduação, o
saldo
é
semelhante. O
necessário
viés
da especialização transformou-se
em
vício. Formam-se
doutores
em
crítica
e
teoria
literária
que
não
conseguem
sustentar
uma
hora
de
conversa
descontraída
sobre
autores
de
sua
estima.
Ou
seja,
aqueles
cujas
obras
provocam
um
impacto
considerável,
mas
sobre
os
quais
não
se escrevem
dissertações,
ensaios,
resenhas:
produtos
que
engordem o curriculum vitae.
Precisamente
por
isso,
em
primeiro
lugar,
alunos
de
letras
precisam se
familiarizar
com
a
própria
literatura.
Sem
dúvida, a
reflexão
teórica
sobre
o
fenômeno
literário
é
indispensável,
mas
se
torna
ociosa
se
não
estiver
associada
à
leitura
dos
textos.
Em
geral, a
prática
analítica
e o
ensino
reduziram a
literatura
ao
papel
de
confirmação
de
teorias.
O
futuro
dos
estudos
literários
encontra-se no
retorno
à
literatura. Necessitamos
recuperar
sua
dimensão
antropológica. Na
companhia
de
Madame
Bovary
também
somos Emma Bovary. Riobaldo revela nossas
dúvidas
sobre
o
que
se pode
saber
e o
que
jamais
se descobrirá –
ou
apenas
quando
for
muito
tarde.
Com
o narrador de A
Hora
da
Estrela, compartilhamos a
angústia
de
inventar
pontes
que
permitam
compreender
o ‘outro’.
Tal
processo
não
supõe uma
identificação
banal,
mas
destaca a
força
da
literatura
como
laboratório
de
experiências
sobre
os
sentidos
do
humano
e a
riqueza
da
linguagem.
Precisamos
recuperar
a
experiência
radical
de descentramento à
volta
da
biblioteca.
Ou
ao
redor
do
quarto, nas
memórias
póstumas do
texto
que
terminamos. Rimbaud traduziu a
força
desse
gesto: ‘
Eu
é
um
outro
’–
definição
precisa
da
experiência
renovada a
cada
leitura. ‘
Antropologia
literária’, na
formulação
cortante
de Wolfgang Iser. Precisamos,
então, nas
palavras
de Hans Ulrich Gumbrecht, ‘
recuperar
os
poderes
da
filologia’. Isto
é,
reaprender
a
ensinar
o
ofício
da
leitura
de
textos
literários.
Ofício
ingrato:
não
importa o
tempo
de
prática,
nunca
se sabe se a
próxima
análise
será
fecunda.
Porém,
como
esclareceu
Paul
Valéry, ‘o
prazer
da
leitura
reside
em
sua
dificuldade’.”
João
Cezar de Castro
Rocha
–
caderno
Mais
!,
Folha
de S. Paulo, 28.11.2004
[
Matéria
: “
Lacunas
brasileiras” –
tema
: “
crítica
”]
“
Limbo
–
Mas
se os
critérios
de
valor
variam de
pessoa
para
pessoa,
como
se pode
saber
se uma
obra
tem
qualidade
ou
não, se
ela
apreende
ou
não
esse ‘conteúdo
de
verdade’?
Lafetá
– A
discussão
do
valor
é uma
coisa
extremamente
complicada.
Eu
acho
que
não
existe
crítica
que
possa,
realmente,
dizer
com
absoluta
certeza
o
que
é
bom
ou
ruim
. Nesse
sentido, a
crítica
flutua
em
boa
dose
de subjetividade. E
qualquer
dogmatismo
pode
representar
um
perigo
. Tomemos
um
exemplo
concreto
. Lukács,
um
grande
crítico
literário
, possui o
seguinte
conceito
de
crítica
:
buscar
na
obra
literária
a
adequação
entre
a
concepção
de
mundo
do
autor,
que
é o
centro
da
forma, e a
verdade
objetiva
do
desenvolvimento
histórico
. O
critério
para
se
dizer
se uma
obra
é boa,
ou
não
, é a
adequação
dessa concepção-de-mundo à
verdade
do
movimento
da
história.
Pois
bem,
para
Lukács, Balzac possui uma
grande
forma
literária
pois
conseguiu
apreender
nela a
objetividade
profunda
da
história.
Já
Zola,
assim
como
os
outros
naturalistas, foi
um
escritor
que
não
saiu da
superfície
dos
fatos,
não
compreendeu
sua
dinâmica
e,
por
isso
mesmo,
não
conseguiu
apreender
sua
verdade.
Entretanto,
para
Auerbach,
outro
grande
crítico
,
justamente
Germinal
de Zola é uma
grande
tragédia
histórica,
que
apreende
bem
a
verdade
de
seu
tempo
e possui
também
uma
forma
artística
admirável
.
Limbo
–
Mas,
afinal,
o
que
seria
esse
‘conteúdo
de
verdade’?
Seria a
fidelidade
do
autor
em
retratar
o
seu
tempo
como
ele
é
ou
seria a
intenção
de
traçar
com
fidelidade
os
seus
sentimentos
diante
do
mundo
?
Lafetá
–
Aí
é
que
está.
Para
Auerbach o
critério
de
verdade
é
um,
para
Lukács é
outro.
Então
vocês
perguntam:
isso
é
subjetivo
?
Sim
,
decerto
.
Mas
o
que
são
subjetividade e
objetividade
?
Aí
tocaríamos na
questão
complicada das
relações
entre
sujeito
e
objeto,
discussão
longa
,
que
eu
preferia
não
ter
de
fazer
... É
um
dos
pontos
mais
importantes
da
teoria
do
conhecimento,
mas
não
vamos
entrar
por
aí.
O
que
dá
para
constar
na
prática
da
crítica,
na
atribuição
do
valor
à
obra
literária,
é
que
existe
mesmo
uma
dose
muito
grande
de
arbítrio. O
próprio
Lukács, lidando
com
um
escritor
contemporâneo
como
Kafka, condena
toda
a
obra
dele
em
nome
do
mesmo
princípio
que
usou
para
criticar
o
Naturalismo
.
Então
a
gente
vê
que
ali
tem alguma
coisa
de errado. O
último
grande
escritor,
então,
foi Balzac?
Isso
é
muito
forte.
Limbo
– O
ponto
de
partida
em
termos
de
conteúdo
não
deveria
ser
a
tentativa
de
captar
o
mundo, o
ser
humano
em
toda
sua
riqueza, e a
necessidade
de se
posicionar
ideologicamente, tentando
dar
um
pouco
de
sentido
a essa
vida
, tentando
construir
um
mundo
mais
decente,
melhor
?
Lafetá
–
Não
acho
que
a
intenção
de
criar
um
mundo
melhor
seja
necessária
para
se
produzir
uma boa
obra
de
arte
. Essa
intenção
não
está no
artista, está no
político. É
preciso
fazer,
como
Gramsci, uma
distinção
entre
o
político
e o
artista:
são
duas
raças
distintas e
freqüentemente
em
conflito
. A
concepção
de
tempo, de
progresso, a
noção
de
história
que
o
político
tem é uma, a do
artista
é
outra
.
Não
se deve
confundir
as duas
coisas,
pois
induz
em
erro
.
Você
não
pode
exigir
que
um
Kafka,
por
exemplo,
tenha a
mesma
concepção
da
vida
de
um
Lênin.
São
coisas
diferentes,
são
atitudes
intelectuais
diferentes
diante
da
realidade
. O
que
se pode
verificar
de
comum
entre
ambos
é o
desejo
de
ver
a
realidade
como
ela
é de
fato.
Então,
mesmo
um
Kafka,
não
tendo a
intenção
de
melhorar
o
mundo,
ele
tinha,
na
verdade, a
intenção
de
representar
o
mundo
como
este
lhe
parecia
ser
.
Limbo
– Sentindo-se
mal
dentro
dele...
Lafetá
–
Sim
, sentindo-se
mal
e botando o
dedo
onde
ele
estava se sentindo
mal
.
Limbo
– E
com
isso
dando uma
visão
crítica
de
seu
tempo
,
isto
é,
através
da
negação
daquilo
que
ele
exibe, dando a
você
a
idéia
do
que
é
isso
?
Lafetá
–
Exatamente.
E
esse
é
um
ponto
importante.
Hoje, se o
artista
faz uma
literatura
apologética,
com
certeza
sua
obra
vai
fracassar.
Isso
porque
a
negação
do
mundo
, do
que
existe de errado nele, é a
condição
essencial
do
trabalho
artístico
.
Não
quanto
à
intenção,
ao
objetivo
político,
mas
sim
quanto
à
necessidade
de
representar
a
realidade
desse
tempo
.
Para
isso
o
artista
tem obrigatoriamente
que
tomar
o
caminho
da negatividade. É
por
esse
motivo
que
a
literatura
apologética,
como
realismo
socialista
, afunda
vergonhosamente
.
Fracassa
porque
não
é
capaz
de
aprofundar
a
descrição
social
pelo
lado
da negatividade. Torna-se uma
literatura
de
superfície,
de
elogio,
de
tudo
vai
bem
no
melhor
dos
mundos,
quando
isso
não
é
verdadeiro
”.
João
Luiz Lafetá – “Entrevista:
transcrição
de uma
conversa
com
alunos
em
1978”
in
A
dimensão
da
noite. Org. Antonio
Arnoni
Prado
.
São
Paulo:
Editora
34, Duas
Cidades, 2004.
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